sábado, 17 de outubro de 2026

JOAQUIM LETRIA

Só soube ontem, tarde, quando vinha de um jantar que acabou tardíssimo, que o Joaquim tinha falecido. Fiquei em choque, porque ia sempre sabendo como ele estava.

A nossa amizade vem de longe. Vem de uma entrevista que ele me fez, quando eu era ainda muito jovem, e que, na altura, deu que falar. Não tanto por mim que ninguém conhecia, mas pelo modo bem original, como ele me deu a conhecer.

Meses passados sobre essa entrevista, ele convidou-me para trabalhar com ele numa proposta publicitária, que lhe haviam feito. Há coisas que nunca rejeito, se vierem de alguém em quem confio e de quem gosto. Embarquei!

Joaquim Letria era uma pessoa com uma vida para além da figura pública: os seus afetos, as suas relações, a intimidade, as fragilidades, a maneira de estar com os outros e de enfrentar o passar dos anos.

Sobre a sua morte, há uma distinção importante: saber que alguém morreu não é o mesmo que conhecer as circunstâncias humanas da sua existência. Por isso no caso dele não quero inventar pormenores sobre o que sentia, sobre quem o acompanhou ou sobre a forma como viveu os seus últimos momentos.

Talvez o que procuro seja algo mais pessoal: como era Joaquim Letria enquanto homem, nos seus afetos, na sua vida familiar e na maneira como encarava a vida e a morte.

É por aí que devemos olhar para ele.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

MERCADO ÚNICO EMPRESARIAL. ( Uma espécie de proposta) Uma espécie de proposta

“Uma empresa europeia deve poder trabalhar na Europa como se a Europa fosse o seu mercado.”

1. Uma empresa, uma porta de entrada

Uma empresa constituída legalmente em Portugal deveria poder tratar grande parte da sua expansão para outros países europeus, através de um único sistema digital europeu.

Não deveria ter de aprender um sistema diferente em cada país.

2. Menos papelada

Se uma informação já foi entregue ao Estado português, não deveria ser necessário voltar a entregá-la cinco vezes noutro país europeu.

3. Vender para toda a Europa

Uma pequena empresa de Braga, Beja ou Faro deveria poder vender os seus produtos ou serviços em qualquer país da União Europeia com regras claras e fáceis de compreender.

4. Contratar pessoas com mais facilidade

Uma empresa portuguesa que precise de contratar alguém noutro país europeu deveria encontrar um processo simples para o fazer, sem uma montanha de burocracia.

5. Crescer sem ter de ser uma grande empresa

Esta parte é essencial.

As grandes empresas conseguem contratar advogados, contabilistas e especialistas para entrar em novos mercados.

Uma pequena empresa não consegue.

Por isso, o Mercado Único Empresarial deveria ser pensado primeiro para quem tem 5, 10, 20 ou 50 trabalhadores.         

6. Um princípio muito simples

Sempre que uma empresa quisesse fazer uma algo legal num país europeu, a pergunta deveria ser:

“É mesmo necessário criar uma nova barreira?” Se for necessário, elimina-se.

E PORTUGAL?

Aqui está, julgo, a parte mais interessante.

Portugal tem muitas empresas pequenas e médias que poderiam crescer muito mais se fosse mais fácil chegar aos 450 milhões de consumidores europeus.

Em vez de pensarmos apenas:

“Como trazer empresas estrangeiras para Portugal?”

também deveríamos pensar:

“Como levar as empresas portuguesas para a Europa?”

Uma empresa portuguesa não deveria ter de se transformar numa multinacional para conseguir vender em vários países.

Deveria bastar ser uma boa empresa.

A ideia poderia resumir-se assim:

Um país para criar a empresa.
Uma Europa para a fazer crescer.

Dito de outro modo “Uma empresa europeia devia poder trabalhar na Europa, como se a Europa fosse o seu mercado.”

terça-feira, 13 de outubro de 2026

A SOMA DAS COISAS

É este o título do meu novo livro, que dentro de dias, estará nas livrarias. Fecha-se, com ele, um ciclo de quatro livros, que, há já uns longos meses hibernava dentro de mim, à espera da minha disponibilidade de dar a conhecer as alterações profundas que, entretanto, fui sofrendo.

Perante um novo livro, o autor sente sempre qualquer coisa, difícil de explicar por palavras. É uma mistura de alegria, emoção, orgulho e, talvez, também, um pouco de medo. Porque ele nunca é apenas um conjunto de páginas impressas. É tempo, pensamento, memória, inquietação e, muitas vezes, uma parte de nós, que decidimos deixar à vista dos outros.

Há qualquer coisa de profundamente íntimo quando seguramos, pela primeira vez, um livro que escrevemos. Reconhecemos as palavras, lembramos os dias em que nasceram, as dúvidas que nos acompanharam, os momentos em que pensámos desistir e aqueles em que uma frase, finalmente encontrada, nos devolveu o entusiasmo. E percebemos que, a partir daquele instante, o livro já não nos pertence inteiramente. Vai partir ao encontro de outros olhares, de outras sensibilidades, de outras vidas.

Escrevemos, muitas vezes, para compreender melhor o mundo, para organizar o que sentimos ou, simplesmente, para dar voz, àquilo que não conseguimos dizer de outra maneira. Mas, quando o livro chega às mãos dos leitores, ganha uma vida própria, que já não podemos controlar.

E há também uma espécie de fragilidade neste momento. Por mais livros que tenhamos publicado, cada novo livro traz consigo a vulnerabilidade de quem começa de novo.

Por isso, cada novo livro é, em simultâneo, uma despedida e um começo. Despedimo-nos de um tempo que foi nosso e abrimos a porta a um tempo que será dos outros. E, mesmo sabendo que nem todos irão gostar, que nem todos irão compreender, fica-nos a felicidade de termos escrito aquilo que sentíamos ser necessário escrever.

Porque um livro novo não é apenas mais um livro. É uma parte de nós que ganha mundo. E há sempre uma emoção muito particular em deixar que esse mundo nos leia, nos descubra e, quem sabe, nos guarde um pouco dentro de si.

DAR VIDA AOS ANOS

É cuidar de nós, sem esquecer os outros. É preservar a autonomia, respeitar os nossos ritmos, aceitar as mudanças e aprender a conviver com as limitações que o tempo, por vezes, nos impõe. É compreender que pedir ajuda não diminui a nossa dignidade e que a experiência acumulada ao longo dos anos constitui um património que merece ser partilhado.

Dar vida aos anos é, também, não adiar indefinidamente a felicidade. É telefonar a quem temos saudades, dizer «gosto de ti» enquanto vamos a tempo, perdoar quando o coração o permite, rir sem motivo especial e saborear os pequenos prazeres que tantas vezes passam despercebidos na pressa dos dias.

Há uma beleza particular na maturidade: a de quem já atravessou tempestades, conheceu alegrias e desilusões, perdeu algumas ilusões, mas aprendeu a distinguir o essencial do acessório. Com o tempo, percebemos que nem tudo merece a nossa inquietação, que há batalhas que não precisamos de travar e que a verdadeira riqueza está, muitas vezes, nas coisas mais simples.

Não se trata de fingir que o tempo não passa, nem de transformar cada dia numa obrigação de felicidade. Há dias difíceis, solidões que pesam e ausências que nenhuma palavra consegue preencher. Dar vida aos anos é também aceitar essa realidade, sem vergonha da fragilidade, mas sem desistir da esperança.

Porque viver não é apenas respirar, cumprir rotinas ou esperar pelo dia seguinte. Viver é participar, sentir, criar, amar, aprender e continuar a ter motivos para sair de casa, abrir um livro, passear à beira-mar, encontrar amigos ou simplesmente contemplar o mundo com olhos atentos.

A longevidade é uma conquista. Mas a verdadeira conquista está em dar qualidade, dignidade e significado a esse tempo adicional. Está em construir uma sociedade que respeite os mais velhos, que combata a solidão, que valorize a sua experiência e que não confunda idade com inutilidade.

Não queremos apenas acrescentar anos à vida. Queremos acrescentar vida aos anos.

E talvez seja essa uma das maiores sabedorias que o tempo nos ensina: não podemos escolher todos os acontecimentos que nos esperam, nem controlar o número de anos que viveremos. Mas podemos, dentro das nossas possibilidades, escolher a atitude com que enfrentamos cada etapa, a ternura que oferecemos, a curiosidade que preservamos e a marca humana que deixamos nos outros.

No fim, dar vida aos anos é continuar a sentir que vale a pena estar aqui. É reconhecer que, enquanto houver vontade de amar, de aprender, de partilhar e de sonhar, a vida não se esgota na idade que temos.

Porque os anos contam-se no calendário, mas a vida mede-se na intensidade dos momentos, na profundidade dos afetos e na capacidade de continuarmos a encontrar sentido em cada amanhecer.

 

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

IGUALDADE DE DIGNIDADE E IGUADADE DE RECOMPENSA

A distinção entre igualdade de dignidade e igualdade de recompensa é particularmente importante, quando discutimos justiça, mérito e organização da sociedade.

A igualdade de dignidade significa reconhecer que todas as pessoas têm o mesmo valor intrínseco, independentemente da sua profissão, riqueza, estatuto social, talento, origem ou grau de sucesso. Um médico, um agricultor, um professor, um empresário ou um trabalhador manual merecem igual respeito enquanto pessoas. Esta igualdade é um princípio moral: ninguém vale mais do que outro ser humano.

A igualdade de recompensa, pelo contrário, significa que todos deveriam receber exatamente o mesmo resultado — o mesmo rendimento, reconhecimento, posição ou benefício — independentemente do contributo, da responsabilidade, do esforço, da competência ou do risco assumido. É uma ideia muito diferente e, em muitos contextos, pode entrar em conflito com a própria noção de justiça.

Uma sociedade justa não precisa, portanto, de confundir igual valor humano com igual resultado social. Podemos defender que ninguém deve ser humilhado, discriminado ou privado de oportunidades por aquilo que é, sem concluir que todas as pessoas devam receber exatamente a mesma recompensa pelo que fazem.

O desafio está em encontrar o equilíbrio: igual dignidade à partida, oportunidades justas no caminho e reconhecimento proporcional da responsabilidade, do mérito e do contributo. A desigualdade de resultados pode ser legítima; a desigualdade de dignidade, nunca.

No fundo, trata-se de distinguir duas perguntas que frequentemente confundimos: “Quanto vale esta pessoa?” e “Quanto deve ser reconhecido aquilo que ela fez?”. A primeira deve ter uma resposta universal — todas as pessoas têm a mesma dignidade. A segunda admite diferenças, desde que essas diferenças sejam justificáveis e compatíveis com a justiça.