domingo, 9 de agosto de 2026

A SOLICITUDE

A solicitude é uma das formas mais discretas e profundas da grandeza humana. Não faz ruído, não exige reconhecimento e raramente procura aplausos. Manifesta-se no cuidado atento, na delicadeza de uma palavra, na disponibilidade para ouvir e na capacidade de perceber aquilo que o outro, muitas vezes, nem consegue pedir.

Ser solícito não significa estar permanentemente disponível para todos, nem carregar o peso do mundo sobre os próprios ombros. Significa, antes, não passar indiferente diante da necessidade alheia. É oferecer ajuda sem humilhar, presença sem invadir, conselho sem impor e afeto sem exigir recompensa.

Há pessoas cuja presença nos ensina isso. Pessoas que perguntam como estamos e realmente querem saber. Que se lembram de um detalhe que mencionámos há meses. Que chegam antes de serem chamadas. Que percebem o silêncio. Que sabem que, em certos momentos, um gesto vale muito mais do que um discurso.

A solicitude nasce de uma atenção rara: a atenção ao outro.

Num tempo em que tantos vivem apressados, concentrados nas próprias urgências, ser solícito é quase um ato de resistência. É escolher parar. Olhar. Escutar. É reconhecer que cada pessoa atravessa batalhas que nem sempre são visíveis e que, por vezes, uma pequena gentileza pode devolver dignidade a um dia difícil.

Mas existe também uma beleza maior na verdadeira solicitude: ela não transforma o outro em devedor. Quem cuida verdadeiramente não contabiliza favores. Não guarda uma lista secreta de tudo aquilo que fez. Ajuda porque pode, porque quer, porque compreende que a vida se torna mais humana, quando deixamos de viver apenas para nós.

Talvez a solicitude seja, no fundo, uma forma silenciosa de amor. Um amor sem grandes declarações, mas presente nos gestos. Um amor que não pergunta “o que ganho com isso?”, mas “como posso tornar isto um pouco mais leve?”

E, acredito que seja justamente aí, que reside uma das mais belas dimensões da humanidade: na capacidade de cuidar sem fazer do cuidado um espetáculo.

Porque algumas das pessoas que mais marcaram as nossas vidas, não foram aquelas que fizeram grandes coisas por nós. Foram aquelas que, nos momentos certos, simplesmente, estiveram lá.

 

domingo, 2 de agosto de 2026

A “quarta idade”, uma vida com sentido

Envelhecer foi, para mim, um privilégio que trouxe consigo experiência, conhecimento e uma nova perspetiva sobre a vida. Esta idade não deve ser encarada como um período de declínio ou de perda, mas como uma etapa rica em oportunidades para continuar a aprender, criar, contribuir e fortalecer relações.

Ter uma vida com sentido nesta fase, significa manter objetivos, cultivar interesses, cuidar da saúde física e emocional e preservar os laços familiares e de amizade. Também implica reconhecer o valor da experiência acumulada ao longo dos anos, colocando-a ao serviço da comunidade e das gerações mais jovens.

A reforma pode representar o fim da nossa carreira profissional, mas não é, não deve ser, o fim da participação ativa na sociedade. Muitos amigos encontraram satisfação no voluntariado, na aprendizagem de novas competências, na prática de atividades culturais, no contacto com a natureza ou na dedicação à família. Porém, o mais importante, é que cada pessoa descubra aquilo que lhe proporciona alegria, utilidade e realização.

Uma sociedade que valorize os seus idosos é uma sociedade mais humana. Promover o envelhecimento ativo, combater o isolamento e criar condições para que cada pessoa possa viver com autonomia, dignidade e propósito são responsabilidades de todos nós.

A “quarta” idade pode, assim, ser- e no meu caso, é- um tempo de serenidade, crescimento e renovação. Acredito que a vida com sentido não depende da idade, mas da capacidade de continuar a encontrar razões para aprender, amar, partilhar e sonhar.

 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

A Importância da Dor

A dor é uma das experiências mais difíceis da condição humana. Sempre que surge, o nosso primeiro impulso é afastá-la, esquecê-la ou vencê-la. No entanto, por mais desconfortável que seja, a dor desempenha um papel essencial no nosso crescimento, na nossa aprendizagem e na construção da nossa identidade.

A dor física protege-nos. Ela avisa-nos de que algo está errado no nosso corpo e leva-nos a procurar ajuda ou a mudar comportamentos que possam causar mais danos. Sem essa capacidade de sentir dor, estaríamos expostos a perigos constantes sem sequer nos apercebermos deles.

A dor emocional, embora mais complexa, também tem um propósito. As perdas, as desilusões, os fracassos e as mudanças obrigam-nos a refletir sobre quem somos, o que valorizamos e o que precisamos de transformar. Muitas vezes, é precisamente nos momentos mais difíceis que descobrimos uma força interior que desconhecíamos.

Além disso, a dor desperta a empatia. Quem já sofreu compreende melhor o sofrimento dos outros e torna-se mais capaz de oferecer apoio, compreensão e solidariedade. As experiências dolorosas podem aproximar as pessoas e fortalecer os laços humanos.

Isso não significa que devamos procurar o sofrimento ou romantizar a dor. Existem dores profundas que exigem tempo, apoio e, por vezes, ajuda profissional para serem superadas. No entanto, quando enfrentada com coragem e esperança, a dor pode deixar de ser apenas um peso e transformar-se numa oportunidade de crescimento.

A vida é feita de momentos de alegria e de tristeza, de conquistas e de desafios. É esse equilíbrio que nos torna humanos. A felicidade ganha um significado mais profundo porque conhecemos a dor, e a esperança torna-se mais valiosa porque já experimentámos a dificuldade.

Em última análise, a dor não define quem somos, mas pode moldar a forma como escolhemos viver. Quando aprendemos a aceitá-la como parte da existência, descobrimos que ela pode ensinar-nos resiliência, humildade, compaixão e a capacidade de recomeçar. Assim, a dor deixa de ser apenas um obstáculo e passa a ser uma das mais importantes professoras da vida.

 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Fazer mais. Prometer menos.

Portugal não precisa de mais promessas. Precisa de resultados visíveis.

Há muito que sabemos quais são os desafios: o acesso à habitação, o funcionamento da saúde, a qualidade da educação, a justiça mais célere, salários que permitam viver com dignidade e um Estado que responda melhor às necessidades das pessoas. O diagnóstico está feito. O que falta é transformar intenções em ação.

Governar não é anunciar. É concretizar. Não é multiplicar planos ou inaugurar expectativas. É cumprir compromissos, resolver problemas e prestar contas.

As pessoas perderam a confiança não porque lhes faltem discursos, mas porque demasiadas promessas ficaram por cumprir. Recuperar essa confiança exige uma mudança de atitude: menos marketing político, mais trabalho consistente; menos anúncios, mais execução; menos justificações, mais resultados.

O futuro constrói-se com decisões corajosas, prioridades claras e capacidade para agir. É isso que faz a diferença entre quem promete e quem realmente muda a vida das pessoas.

Porque, no fim, o que conta, não é o que se diz. É o que se faz.

Fazer mais. Prometer menos.

 

terça-feira, 28 de julho de 2026

A vida como sopro de eternidade

A vida é breve. Escapa-nos entre os dedos com a leveza de um sopro, enquanto insistimos em acreditar que o tempo nos pertence. Cada amanhecer é uma promessa silenciosa, e cada entardecer recorda-nos que nada permanece igual. No entanto, é precisamente nessa fragilidade, que a existência encontra a sua maior beleza.

Talvez a eternidade não seja apenas um destino distante, mas uma presença discreta que habita cada instante vivido com autenticidade. Um gesto de bondade, um olhar de amor, uma palavra que consola ou um perdão oferecido, tornam-se sementes de algo que o tempo não consegue apagar. O que nasce do amor verdadeiro, ultrapassa os limites dos dias e permanece para além da memória.

Vivemos entre o efémero e o eterno. O corpo envelhece, as estações sucedem-se, os caminhos mudam, mas há uma dimensão do ser humano que anseia pelo infinito. Esse desejo profundo é como uma bússola interior que nos lembra que fomos feitos para mais do que a simples sucessão dos dias.

A vida é, por isso, um sopro de eternidade: breve na sua duração, imensa no seu significado. Não é a quantidade de anos que mede uma existência, mas a intensidade com que se ama, se serve e se acolhe o mistério de viver. Cada instante pode tornar-se uma porta aberta para o infinito, quando é vivido com verdade.

No fim, talvez descubramos que a eternidade não começou depois da vida, mas dentro dela. Em cada escolha que elevou a alma, em cada esperança que resistiu ao sofrimento, em cada amor que venceu o egoísmo. E compreenderemos, então, que o sopro que parecia tão fugaz sempre transportou consigo o perfume do eterno.

 

sábado, 18 de julho de 2026

A PRODUTIVIDADE

Só se fala de falta da produtividade dos portugueses, mas não se olha o que nela é verdadeiramente importante. O problema da dita não é, na maioria das vezes, a falta de esforço. É a forma como o trabalho, a atenção e o tempo são geridos. Procurar fazer mais, nem sempre leva a melhores resultados e frequentemente, leva apenas a mais cansaço.

Do lado dos problemas associados à produtividade, incluem-se

  • Excesso de distrações: notificações, redes sociais, e-mails e interrupções constantes fragmentam a atenção e reduzem a capacidade de concentração.
  • Multitarefas: alternar continuamente entre tarefas diminui a eficiência e aumenta a probabilidade de erros.
  • Falta de prioridades: quando tudo parece urgente, torna-se difícil identificar o que realmente gera valor.
  • Sobrecarga de trabalho: agendas demasiado cheias levam à fadiga, ao stress e ao risco de esgotamento.
  • Perfeccionismo: investir tempo excessivo em detalhes pouco relevantes, atrasa a conclusão de tarefas importantes.
  • Ausência de pausas: trabalhar durante longos períodos sem descanso reduz a capacidade cognitiva e a criatividade.

 Convém, também, não esquecer um problema mais profundo: muitas pessoas confundem estar ocupadas com ser produtivas. Responder a dezenas de mensagens ou participar em inúmeras reuniões, pode dar a sensação de progresso, sem que haja o avanço esperado nos objetivos mais importantes.

Do meu ponto de vista a abordagem mais eficaz passa por:

  • Definir prioridades claras para cada dia.
  • Reservar blocos de tempo para o trabalho foco.
  • Eliminar ou reduzir distrações.
  • Fazer pausas regulares.
  • Avaliar os resultados alcançados, e não apenas o tempo investido.

Por fim, creio que produtividade não significa fazer o máximo possível, mas sim, utilizar os recursos disponíveis — tempo, energia e atenção — para atingir os objetivos que realmente importam. Uma boa gestão da produtividade procura equilibrar desempenho, qualidade e bem-estar, em vez de maximizar só a quantidade de trabalho realizado.

 

segunda-feira, 13 de julho de 2026

A Sublimação Pessoal: Um Caminho de Transformação Interior

A sublimação pessoal é o processo de transformar as experiências, emoções e desafios da vida em oportunidades de crescimento e evolução. Em vez de permitir que a dor, a raiva, o medo ou a frustração controlem as nossas ações, escolhemos utilizá-los como força para desenvolver sabedoria, equilíbrio e maturidade.

Sublimar não significa negar o que sentimos, mas compreender essas emoções e dar-lhes um novo significado. Cada dificuldade pode tornar-se uma lição, cada fracasso uma oportunidade para recomeçar e cada obstáculo um convite ao autoconhecimento. É nesse processo que a pessoa fortalece o seu carácter e aprende a agir com mais consciência.

A sublimação também se manifesta quando canalizamos a nossa energia para a criatividade, o estudo, o trabalho, o serviço ao próximo, a arte, a espiritualidade ou qualquer atividade que contribua para o nosso bem-estar e para o bem comum. Assim, aquilo que poderia gerar sofrimento transforma-se numa fonte de inspiração e realização.

Mais do que um conceito psicológico, a sublimação pessoal representa uma escolha consciente de crescimento. É a capacidade de transformar a própria vida a partir de dentro, cultivando valores como a serenidade, a compaixão, a disciplina e a esperança. Quem aprende a sublimar, descobre que a verdadeira força não está em evitar as dificuldades, mas em convertê-las em passos rumo à melhor versão de si mesmo.

 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

VIÚVAS E DIVORCIADAS

Há quem pense que uma mulher é definida pelo estado civil. Mas uma viúva carrega a marca de um amor interrompido, enquanto ua divorciada carrega a coragem de recomeçar. Nenhuma das duas deve ser reduzida à ausência de um marido.

Por isso, é curioso observar como a sociedade olha de forma tão diferente para duas mulheres que, no fim, também ficaram sozinhas.

A viúva costuma despertar compaixão. A sua dor é reconhecida, o seu luto é respeitado e a sua solidão é compreendida. Já a divorciada, muitas vezes, desperta desconfiança. Há quem procure culpados, quem questione as suas escolhas ou quem a veja como uma ameaça, como se o fim de um casamento diminuísse o seu valor.

No entanto, ambas perderam uma vida que um dia imaginaram para sempre. A diferença é que uma foi separada pela morte e a outra pelas circunstâncias da vida. Nenhuma merece ser definida pelo modo como a sua relação terminou.

Talvez o verdadeiro sinal de maturidade de uma sociedade seja deixar de idealizar umas e julgar outras. Porque tanto a viúva como a divorciada carregam histórias, cicatrizes, saudades e uma enorme capacidade de recomeçar.

No fim, o estado civil diz muito pouco sobre uma mulher. O que a define é a forma como se levanta, ama, aprende e continua a viver.

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

O QUE NÃO SE VÊ

Vivemos em um mundo onde as aparências costumam chamar mais atenção do que a essência. Vemos sorrisos, conquistas, roupas bonitas e momentos felizes, mas raramente enxergamos as batalhas silenciosas que cada pessoa enfrenta. O que não se vê é, muitas vezes, o que mais importa.

Não vemos o esforço por trás de cada vitória, as noites mal dormidas, os medos escondidos, as lágrimas derramadas em silêncio ou a coragem necessária para recomeçar depois de uma derrota. Também não vemos os sonhos guardados, as inseguranças, as cicatrizes emocionais e a força que alguém encontra para continuar, mesmo quando tudo parece difícil.

Assim como as raízes sustentam uma árvore sem aparecer, os valores, a fé, a perseverança e o amor sustentam a vida das pessoas. São essas qualidades invisíveis que moldam o carácter e dão sentido às ações.

Por isso, é importante olhar além daquilo que os olhos conseguem enxergar. Um gesto de gentileza, uma palavra de incentivo ou um simples ato de empatia podem fazer toda a diferença na vida de alguém. Afinal, o essencial nem sempre está diante dos nossos olhos; muitas vezes, ele está escondido no coração.

O que não se vê pode ser mais poderoso do que aquilo que é visível. Aprender a reconhecer o invisível é desenvolver sensibilidade, respeito e humanidade, lembrando que cada pessoa carrega uma história que merece ser compreendida.

 

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Saber retirar-se a tempo

Saber retirar-se a tempo é um sinal de sabedoria, maturidade e autoconhecimento. Muitas vezes, insistimos em situações, relações ou objetivos por medo de desistir, ou de sermos vistos como fracos. No entanto, reconhecer que chegou o momento de partir pode ser um dos atos mais corajosos que alguém pode tomar.

Retirar-se a tempo não significa fracassar, mas sim compreender que nem todas as batalhas merecem ser travadas até ao fim. Há momentos em que preservar a paz, a dignidade e o bem-estar é mais importante do que vencer uma discussão, manter uma relação desgastada ou insistir num caminho que já não faz sentido.

Quem sabe retirar-se a tempo demonstra inteligência emocional, porque percebe que o verdadeiro sucesso nem sempre está em permanecer, mas em escolher o momento certo para seguir em frente. Essa decisão abre espaço para novas oportunidades, novos aprendizados e novos começos.

A vida é feita de ciclos. Assim como é importante saber lutar, também é essencial saber parar. Retirar-se a tempo é respeitar os próprios limites, valorizar a própria felicidade e acreditar que, muitas vezes, fechar uma porta é a melhor forma de encontrar outra aberta.

 

sábado, 4 de julho de 2026

Para Onde Vou

Em certos muitos momentos da vida, faço a mim mesmo uma pergunta que parece simples, mas que carrega um grande significado: para onde vou? Nem sempre é fácil encontrar uma resposta. O futuro é incerto e o caminho nem sempre é claro. No entanto, é precisamente essa incerteza que torna a vida uma oportunidade constante de crescimento, descoberta e transformação.

Cada decisão que tomo influencia o rumo da minha história. Algumas escolhas conduzem-me a momentos de felicidade e realização; outras trazem dificuldades e desafios. Porém, acredito que todas as experiências, sejam elas boas ou más, têm algo para ensinar. Os erros ajudam-me a amadurecer, as dificuldades tornam-me mais forte e as conquistas dão-me motivação para continuar.

Percebo também que o mais importante não é apenas chegar a um determinado destino, mas aproveitar tudo o que aprendo ao longo do percurso. As pessoas que conheço, os valores que desenvolvo e as experiências que vivo, contribuem para formar a pessoa que sou e aquela que desejo ser no futuro.

Por isso, sigo em frente com esperança, coragem e determinação. Mesmo sem saber exatamente o que me espera, procuro agir com responsabilidade, dar o meu melhor em cada oportunidade e nunca deixar de acreditar nos meus sonhos. Afinal, o caminho para o futuro constrói-se todos os dias, através das pequenas escolhas e atitudes que tomamos. É assim que, passo a passo, descubro para onde vou e construo o meu próprio destino.

 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

À MINHA MANEIRA

Acordei hoje ao som da canção My Way, uma das minhas favoritas, uma reflexão sobre a vida, as escolhas e a forma como cada pessoa enfrenta o seu próprio caminho. Embora seja mais conhecida na interpretação de Frank Sinatra, a música foi escrita por Paul Anka, inspirada na canção francesa Comme d'habitude. Quantas vezes a terei dançado, meu Deus!

O significado central de "My Way" está na ideia de viver com autenticidade e assumir a responsabilidade pelas próprias decisões. Ao longo da letra, o narrador faz um balanço da sua vida, reconhecendo os sucessos, os erros, os desafios e os arrependimentos, mas afirma que sempre procurou agir de acordo com as suas convicções. A frase "I did it my way" ("Fiz à minha maneira") simboliza a independência, a coragem de seguir um caminho próprio e a aceitação das consequências das escolhas feitas.

Ao mesmo tempo, a música não apresenta uma visão de perfeição. Pelo contrário, admite que houve falhas e momentos difíceis, mostrando que uma vida plena não é aquela sem erros, mas aquela vivida com honestidade, determinação e fidelidade aos próprios valores.

Por esse motivo, "My Way" tornou-se um hino à individualidade, à liberdade de escolha e à dignidade perante o fim da vida. Hoje, ao ouvi-la sorri, satisfeita!

 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

O que explica a traição

A traição é um comportamento complexo que pode ocorrer em diferentes tipos de relacionamentos, sejam amorosos, familiares, de amizade ou profissionais. Embora muitas pessoas associem a traição apenas à infidelidade amorosa, ela envolve qualquer quebra de confiança entre indivíduos que mantêm um vínculo importante.

Diversos fatores podem explicar a traição. Em alguns casos, ela está relacionada à insatisfação emocional, à falta de comunicação ou ao enfraquecimento da relação. Quando necessidades afetivas não são expressas ou atendidas, algumas pessoas podem buscar fora do relacionamento aquilo que sentem estar faltando. No entanto, a insatisfação, por si só, não justifica a traição, apenas ajuda a compreender parte de suas causas.

Aspetos individuais também influenciam esse comportamento. Características como impulsividade, necessidade constante de validação, dificuldade em assumir compromissos ou baixa empatia podem aumentar a probabilidade de atitudes desleais. Além disso, fatores culturais e sociais podem contribuir para a forma como cada pessoa entende a fidelidade, os limites e as responsabilidades dentro de uma relação.

A traição geralmente provoca dor, deceção e perda de confiança. A suas consequências podem afetar profundamente a autoestima e o bem-estar emocional das pessoas envolvidas. Por isso, a honestidade, o diálogo e o respeito mútuo, são considerados elementos fundamentais para a construção e manutenção de relacionamentos saudáveis.

Compreender o que explica a traição não significa aceitá-la ou justificá-la, mas sim reconhecer que ela resulta de uma combinação de fatores emocionais, pessoais e sociais. Esse entendimento pode ajudar na prevenção de conflitos e na busca por relações mais transparentes e equilibradas.

 

terça-feira, 2 de junho de 2026

INVENTAR O FUTURO


 Há dias em que o futuro parece um lugar distante, já desenhado por forças maiores do que nós. Como se estivéssemos apenas a caminhar por um caminho que alguém traçou antes. Mas, quando olho com atenção para a minha própria vida, percebo que o futuro raramente chega pronto. Nasce, quase sempre, de pequenos gestos, de escolhas discretas, de ideias que pareciam frágeis quando surgiram.

Inventar o futuro não é prever o que vai acontecer. É permitir-se imaginar o que ainda não existe. É guardar espaço para possibilidades novas quando tudo à volta parece repetir-se. Há uma coragem silenciosa nesse exercício: a coragem de acreditar que aquilo que somos hoje, não esgota aquilo que podemos vir a ser.

Muitas vezes, imaginamos o futuro como um grande acontecimento, uma transformação repentina. No entanto, ele costuma ser construído em momentos quase invisíveis. Uma conversa que abre horizontes, uma decisão tomada sem garantias. Um primeiro passo, dado antes de existir um mapa.

Talvez inventar o futuro seja precisamente isto: agir sem possuir todas as respostas. Aceitar a incerteza não como uma ameaça, mas como matéria-prima da criação. Porque aquilo que já está definido não precisa de imaginação. Só o que permanece em aberto, pode ser reinventado.

Gosto de pensar que cada pessoa transporta dentro de si futuros possíveis. Alguns adormecidos, outros à espera de oportunidade. Nem todos se concretizam, mas todos nos ajudam a compreender que a vida é mais ampla do que o presente imediato. Sonhar não é fugir da realidade; é expandi-la.

O futuro não é, apenas, o lugar para onde vamos. É também aquilo que começamos a construir agora, nas ideias que cultivamos, nas relações que criamos e nas escolhas que repetimos. Inventá-lo é reconhecer que, mesmo sem controlar o mundo, continuamos a participar na sua criação.

E, talvez exista uma beleza especial nessa condição: não saber exatamente o que virá, mas ainda assim, continuar a imaginar, a tentar, a criar. Como quem acende uma pequena luz no escuro e descobre que o caminho surge à medida que se avança.

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segunda-feira, 18 de maio de 2026

O CASAL MACRON E O IDADISMO


 O termo idadismo refere-se à discriminação baseada na idade — geralmente dirigida a pessoas mais velhas, mas que também pode atingir quem se relaciona com alguém de uma faixa etária diferente. O caso do casal formado por Emmanuel e Brigitte Macron, tornou-se um exemplo frequentemente citado neste debate.

A relação entre os dois, marcada por uma diferença significativa, de 24 anos — Brigitte é mais velha do que Emmanuel — desafia as expectativas sociais tradicionais, nas quais o homem costuma ser mais velho do que a mulher. Essa inversão de papéis gerou comentários, críticas e até piadas públicas, muitas vezes revelando preconceitos profundamente enraizados na sociedade. Quando casais com essa configuração, são alvo de escrutínio excessivo, o foco raramente está na qualidade da relação, mas sim na idade dos envolvidos.

O idadismo, neste contexto, cruza-se também com questões de género. Relações em que o homem é mais velho tendem a ser  socialmente mais aceites, enquanto o contrário ainda provoca estranheza ou julgamento. O que evidencia como normas culturais, influenciam a forma como percebemos o amor, a intimidade e a legitimidade das relações.

Mais do que uma curiosidade mediática, o caso Macron convida à reflexão: por que razão a diferença de idade continua a ser um critério de avaliação moral ou social? Questionar esse tipo de preconceito é essencial para construir uma sociedade mais inclusiva, onde relações sejam valorizadas pela sua autenticidade e não pelos estereótipos que desafiam.

domingo, 17 de maio de 2026

ULTIMA CARTA

Alexandre,

Não te escrevo com raiva, nem com a intenção de apontar culpados. Escrevo-te com a calma triste de quem finalmente aceitou a verdade. O nosso amor acabou, e nós dois sabemos disso, mesmo que continuemos a adiar a conversa e a partilhar a mesma rotina mecânica.

Esquecemo-nos dos aspetos mais importantes e daí resultaram, pelo menos para mim pequenos desastres, como deixar de esperar pelo abraço que já não me aquece, libertar-te dos compromissos que o tempo esvaziou, acabar com o esforço diário de sorrir para disfarçar o vazio.

 Aceito que dar o nosso melhor não foi suficiente para nos salvar. Nem a mim, nem a ti!

Fomos a história mais bonita da minha vida, mas hoje somos apenas duas pessoas que partilham uma casa e uma solidão imensa. Cansa ver o teu olhar passar por mim sem me ver. Cansa-me a cortesia fria que substituiu a nossa cumplicidade.

Esta carta é a minha despedida silenciosa. Não me afasto por falta de carinho, mas por respeito ao que fomos e ao que ainda merecemos ser. Merecemos a verdade, mesmo que ela doa. Deixo-te ir para que tu, e eu também, possamos voltar a respirar e, quem sabe um dia, a amar de verdade.

Obrigado por tudo o que construímos. Fica em paz.

 

 

 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

MARTHA FREUD

A Autobiografia não escrita de Martha Freud, de Teolinda Gersão, é uma obra de grande densidade psicológica e literária, construída a partir de uma voz feminina que revisita a memória, o desejo, o silêncio e a condição da mulher ao longo do século XX. O romance parte de uma figura ficcional — Martha Freud — cuja ligação simbólica ao universo freudiano permite à autora explorar os territórios do inconsciente, da repressão e da identidade feminina.

Mais do que uma narrativa linear, o livro apresenta-se como um fluxo de consciência fragmentado, íntimo e profundamente reflexivo. Martha reconstrói a própria vida através de lembranças descontínuas, pensamentos, emoções e episódios que surgem como peças dispersas de uma autobiografia que nunca chegou verdadeiramente a ser escrita. Esse processo transforma a memória num espaço de revelação, mas também de perda e ambiguidade. A personagem procura compreender-se a si mesma num mundo marcado por normas sociais rígidas, relações afetivas complexas e uma constante tensão entre liberdade e submissão.

A escrita de Teolinda Gersão destaca-se pela elegância poética e pela subtil exploração do universo interior das personagens. O romance evita o dramatismo excessivo e aposta antes na sugestão, na introspeção e na delicadeza psicológica. O silêncio possui um papel fundamental: aquilo que não é dito torna-se tão importante quanto as palavras. A autora constrói, assim, uma narrativa profundamente humana, onde o leitor é convidado a penetrar nas zonas mais íntimas da consciência de Martha.

Outro aspeto marcante da obra é a reflexão sobre a condição feminina. Martha representa muitas mulheres cuja existência foi condicionada pelas expectativas sociais, pela dependência emocional e pela invisibilidade histórica. Contudo, o romance não se limita à denúncia; ele procura compreender as contradições internas da personagem, os seus desejos reprimidos, os seus medos e a sua busca de autenticidade. Nesse sentido, o livro aproxima-se de uma análise existencial da experiência feminina.

A relação implícita com o pensamento de Sigmund Freud acrescenta outra camada interpretativa à narrativa. A memória, os sonhos, os traumas e o inconsciente atravessam o texto de forma subtil, fazendo da obra um espaço de diálogo entre literatura e psicanálise. No entanto, Teolinda Gersão não transforma o romance num ensaio teórico; pelo contrário, utiliza essas referências para aprofundar a dimensão emocional e simbólica da protagonista.

Em termos estilísticos, o romance revela uma linguagem cuidada, musical e sensível, típica da autora. A fragmentação narrativa acompanha o funcionamento da memória e da consciência, criando uma leitura exigente, mas profundamente envolvente. O leitor não encontra respostas definitivas, mas antes uma sucessão de inquietações e descobertas que tornam a obra rica em interpretações.

Em síntese, Autobiografia não escrita de Martha Freud é um romance intimista e sofisticado que explora a memória, a identidade e o universo feminino com grande profundidade literária. Teolinda Gersão confirma, nesta obra, a sua capacidade de transformar a experiência interior em matéria literária de elevada qualidade estética e humana.

 

domingo, 10 de maio de 2026

A MINHA MÃE

A minha mãe nasceu no dia 11 de maio e foi sempre única. Lindíssima e uma força da natureza a vencer barreiras e preconceitos.

Hoje sei que ela é alguém que não se abandona, mesmo quando o mundo insiste em nos empurrar para longe. É a primeira morada que conhecemos, antes mesmo de termos nome para as coisas. No silêncio do seu colo, aprendemos que existir pode ser suave, que ha braços que nos seguram, quando tudo em nós ainda é queda.

Há um tipo de amor na minha mãe que não pede tradução. Ele vive, sobretudo, nos gestos mínimos: no cuidado distraído de ajeitar um cabelo, no olhar que percebe antes da palavra, na presença que permanece, mesmo quando já não está fisicamente ali. Ela é memória que respira dentro de mim.

Com o tempo, descobri que ela também é feita de cansaços, de medos guardados, de noites mal dormidas. E isso não diminui o que ela é — pelo contrário, torna o seu amor mais humano, mais vasto. Amar assim, apesar de tudo, é quase um milagre quotidiano.

Há coisas que, por norma, nunca dizemos a uma mãe. Ficam suspensas entre o orgulho e a timidez, entre a pressa da vida e a ilusão de que haverá sempre tempo. Eu, felizmente, disse-lhe tudo, porque ela foi, sempre, a minha maior amiga.

E talvez seja isso que, em simultâneo, mais dói e consola: perceber que, dentro de nós, há sempre um pedaço da nossa mãe a viver nas escolhas, nas palavras, nos gestos, que repetimos sem notar. Como se, no fundo, nunca tivéssemos saído, realmente, de casa.

 

Entre o medo de te amar e a dor de te perder

Fátima Lopes, acaba de publicar o livro Entre o Medo de Te Amar e a Dor de Te Perder. O tema central mostra que nem sempre o amor surge como uma promessa de salvação, mas sim, como um território de risco. A narrativa mergulha naquilo que raramente se diz em voz alta: há relações que terminam não por falta de amor, mas porque as pessoas deixam de caber na vida que construíram. E talvez seja precisamente aí, que o livro encontra a sua maior força — na coragem de mostrar que, recomeçar uma vida aos cinquenta anos, pode ser mais assustador do que envelhecer infeliz.

A protagonista vive entre duas dores silenciosas: no medo de voltar a acreditar e no pânico de perder aquilo que, finalmente, a faz sentir viva. Esse conflito transforma o romance numa reflexão sobre identidade, tempo e liberdade emocional. Não se trata, apenas, de uma história romântica. Trata-se da lenta reconstrução de uma mulher que percebe que passou décadas a satisfazer expectativas alheias, enquanto esquecia a sua própria voz.

O livro toca numa ferida contemporânea: a necessidade, quase cruel, de parecer estável, feliz e resolvido perante os outros. Há uma crítica subtil às vidas montadas como vitrinas, onde o amor se transforma em performance e os afetos sobrevivem, mais pela aparência do que pela verdade. Quando essa estrutura desaba, sobra a pergunta essencial: quem somos, quando já não representamos o papel que os outros esperam de nós?

A escrita de Fátima Lopes tem uma proximidade emocional que não procura impressionar pela complexidade literária, mas sim, pela humanidade. E é justamente essa simplicidade emocional que aproxima o leitor das suas personagens. Há frases que parecem conversas íntimas, memórias ditas à meia-luz, confissões que pertencem a qualquer pessoa, que já teve de escolher entre a segurança e a felicidade.

No fundo, este livro fala sobre a idade em que deixamos de querer sobreviver e começamos, finalmente, a querer viver. E talvez a sua mensagem mais profunda seja esta: o amor verdadeiro não chega para nos completar; chega para nos devolver a coragem de sermos inteiros. 

 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

O Amor não morre

Que não se suponha que, por escrever sobre certos livros, me considere uma crítica abalizada dos mesmos. A minha vida é ler e escrever, sem patrocínios de ninguém. Mas quando os amigos- repito os amigos- me oferecem o trabalho que fazem, sinto que lhes devo dizer o que penso. Agora, é a vez de Cláudio Ramos.

A obra, O Amor Não Morre, combina elementos autobiográficos, emocionais e filosóficos, explorando a ideia de que o amor continua presente, mesmo após a ausência física de alguém. Mais do que um relato pessoal, o livro funciona como uma meditação sobre o luto e sobre a capacidade humana de transformar a dor em lembrança e crescimento.

Um dos aspetos mais marcantes da narrativa é o tom intimista utilizado pelo autor, que escreve de forma emocional, criando uma ligação direta com o leitor, numa linguagem simples e acessível, que não diminui a profundidade da escrita. O autor demonstra que o sofrimento não é apenas um momento de fragilidade, mas também uma oportunidade de autoconhecimento.

Outro ponto é a abordagem do amor como uma força contínua. Aliás, o título da obra resume a principal mensagem do texto: o amor não desaparece com a morte ou com a distância, mas permanece vivo através das memórias, dos ensinamentos e das marcas deixadas pelas relações humanas, rompendo com uma visão pessimista da perda e apresentando uma perspetiva mais humanista e esperançosa.

A construção emocional da narrativa merece destaque. O autor utiliza recordações, episódios pessoais e reflexões para criar um percurso de aceitação. Ao longo do texto, percebe-se uma transformação emocional: a dor inicial dá lugar à compreensão de que amar implica, também, aprender a lidar com a ausência.

Embora a obra parta de experiências individuais, os temas tratados — saudade, afeto, família, amizade e superação — pertencem à vivência humana em geral. Isso explica por que muitos leitores se possam identificar com a obra, que desperta emoções pessoais e incentiva uma reflexão sobre os próprios vínculos afetivos.

Em termos literários, o livro destaca-se mais pela sinceridade emocional do que pela complexidade estrutural. A narrativa não procura uma linguagem excessivamente elaborada, mas sim transmitir a genuinidade dos sentimentos.

Concluindo O Amor Não Morre é uma obra marcada pela sensibilidade e pela reflexão sobre os afetos humanos. Claúdio Ramos transforma experiências pessoais numa mensagem universal sobre a permanência do amor e a importância das memórias na construção da identidade emocional, convidando o leitor a compreender que, mesmo diante da perda, os laços afetivos continuam vivos na experiência humana.

 

segunda-feira, 4 de maio de 2026

AS RECORDAÇÕES

As recordações não chegam com aviso. Elas insinuam-se devagar, como luz atravessando uma fresta esquecida e, de repente, estamos lá — não aqui, não agora, mas num tempo suspenso onde tudo ainda pulsa. Há nelas um peso suave, quase contraditório: aquecem enquanto apertam.

Guardo lembranças como quem coleciona fragmentos de um espelho partido. Nenhuma mostra o todo, mas cada uma reflete um pedaço de quem fui. O riso solto numa tarde sem pressa, o silêncio partilhado que dizia mais do que palavras, o cheiro de algo que já não existe — tudo isso permanece, mesmo quando já não sei exatamente porquê.

Às vezes, as recordações são abrigo. Outras, são maré que insiste em voltar, trazendo consigo o que pensei ter deixado ir. Há dias em que me perco nelas, como quem percorre uma casa antiga, tocando paredes, abrindo gavetas, redescobrindo versões de mim que já não cabem no presente.

E, ainda assim, há uma beleza nisto tudo. Porque lembrar é uma forma de resistir ao esquecimento, de afirmar que algo foi vivido, sentido, real. Mesmo que o tempo transforme contornos, mesmo que a saudade distorça detalhes, as recordações continuam sendo uma prova silenciosa de que existimos em mais de um momento, em mais de uma intensidade.

No fim, talvez sejamos feitos disso: camadas de memória sobrepostas, histórias que se cruzam dentro de nós, ecos de tudo o que já fomos. E, no intervalo, entre uma lembrança e outra, seguimos — incompletos, mas profundamente humanos.

 

domingo, 3 de maio de 2026

COMO NOS VEMOS

Há algo estranho em sermos humanos: não conseguimos ver-nos diretamente. Não como vemos uma paisagem ou um objeto. Precisamos sempre de um “reflexo” — e, muitas vezes, esse reflexo são os outros.

No início, isto até faz sentido. Quando somos mais novos, não temos outra forma de perceber quem somos. Vamos recolhendo pistas: a forma como nos olham, o tom com que falam connosco, os rótulos que aparecem quase sem darmos conta. E, aos poucos, começamos a vestir essas ideias como se fossem nossas. Nem sempre por acreditarmos nelas de imediato, mas porque estão ali, repetidas, consistentes, difíceis de ignorar.

O problema é que essas perceções vêm de fora — e quem está de fora vê sempre só fragmentos. Vê versões nossas em momentos específicos, interpreta comportamentos com base nas suas próprias experiências e projeta expectativas. Ainda assim, quando essas visões se repetem, ganham peso. Começam a soar a verdade. E, a certa altura, deixam de parecer uma opinião alheia e passam a soar como uma descrição objetiva de quem somos.

Há também um certo cansaço em resistir. Questionar constantemente o que os outros pensam de nós exige energia, e nem sempre temos essa energia. Então, às vezes, aceitamos. Não de forma consciente, mas subtil. Como quem ajusta a postura sem reparar.

E há momentos em que isso encaixa mesmo em dúvidas que já estavam cá dentro. Nessas alturas, a perceção externa não entra — ela confirma. E a confirmação tem um poder enorme.

Mas no meio disto tudo, há uma verdade menos confortável e mais libertadora ao mesmo tempo: aquilo que os outros veem nunca é o todo. É uma versão. Às vezes próxima, às vezes completamente ao lado.

Talvez o mais difícil — e mais importante — seja criar um espaço interno onde possamos perguntar: “Isto que dizem a meu respeito… faz mesmo sentido para mim?” Não para rejeitar tudo, nem para aceitar tudo. Mas para escolher, com algum cuidado, o que fica.

Porque, no fim, viver guiado apenas pelo reflexo dos outros, é como tentar conhecer o próprio rosto, através de espelhos partidos — há sempre partes que faltam, e outras que aparecem distorcidas.

 

sábado, 2 de maio de 2026

A MAIS BELA MALDIÇÃO

Começo por dizer que A MAIS BELA MALDIÇÃO de Rui Couceiro foi, este ano, o livro mais importante que li.

O título funciona, logo, como chave interpretativa: a ideia de “maldição” associada ao “belo”, sugere uma tensão central entre sofrimento e fascínio. Esta ambiguidade percorre todo o texto, manifestando-se na construção das figuras e nas suas relações. O autor parece interessado em mostrar como certos vínculos — afetivos, familiares ou até existenciais — podem, simultaneamente, sustentar e aprisionar o indivíduo.

Outro aspeto relevante é a forma como o autor constrói ambientes e atmosferas. Os cenários, muitas vezes comuns ou aparentemente banais, ganham significado simbólico e emocional, funcionando quase como extensões do estado de espírito das personagens. Essa fusão entre espaço e emoção contribui para uma leitura envolvente e imersiva.

Do ponto de vista narrativo, a obra privilegia uma abordagem introspetiva. A ação externa é, por vezes, menorizada em favor de um mergulho na interioridade das personagens. Em vez de acontecimentos marcantes, o texto constrói-se através de estados de espírito, memórias e pequenas revelações.

A linguagem é um dos pontos mais fortes do livro. Couceiro utiliza um estilo cuidado, por vezes próximo do poético, com imagens sugestivas e metáforas que reforçam o carácter simbólico da narrativa.

Em termos temáticos, destacam-se questões como a identidade, o peso do passado e a inevitabilidade do tempo. Há também uma reflexão implícita sobre a incapacidade de romper completamente com aquilo que nos define, mesmo quando isso implica dor.

No plano estrutural, a obra aposta numa progressão mais psicológica do que linear. Isso contribui para uma sensação de continuidade emocional que, pessoalmente, me agrada muito. O final, possivelmente aberto ou ambíguo, reforça a dimensão reflexiva da obra, deixando espaço para múltiplas interpretações.

Em síntese, A Mais Bela Maldição é um livro que se destaca pela profundidade emocional e pelo trabalho linguístico, mas que exige disponibilidade e envolvimento por parte do leitor. É uma obra menos centrada na ação e mais na experiência interior, o que pode ser, simultaneamente, a sua eventual limitação e a sua maior virtude.

 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

UM DIA FELIZ

Há uma semana relembrei, aqui, a morte do meu filho mais velho, o Miguel.

Hoje, falo da alegria por comemorar o dia 1 de maio, data do seu nascimento e que carrega uma luz especial no meu coração. Há 68 anos, nascia um filho meu — momento que marcou para sempre a minha vida, como se o tempo tivesse parado, para dar lugar a um amor novo, imenso e inexplicável.

Recordo esta data, como se ainda pudesse sentir o mesmo misto de emoção, esperança e encanto. Era o início de uma história feita de risos, desafios, discussões, aprendizagens e, acima de tudo, de um amor que só cresce com o passar dos anos. Cada etapa vivida, cada conquista, cada dificuldade superada, ajudou a moldar não apenas em quem ele se tornou, mas, também, em quem eu me tornei.

Hoje, ao olhar para trás, sinto uma profunda gratidão. Pela vida dele, pelo privilégio de o ter visto crescer, e por todos os momentos partilhados — dos mais simples aos mais marcantes.  É uma alegria serena, daquelas que aquecem a alma e nos lembram do que realmente importa. E também um sorriso terno, pelas datas escolhidas para ele viver e morrer. O que nos riamos por isso!

Vou celebrá-la com carinho, memórias felizes e a certeza de que o amor de uma mãe nunca envelhece — apenas se torna mais forte e mais profundo com o tempo.

 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

O PIOR DIA DA MINHA VIDA

A 24 de Abril de 2012 morria, nos meus braços, o meu filho Miguel. Tinha 54 anos e não mentirei se disser, que desde os 12 anos foram quase exclusivamente dedicados à política.

Não foram fáceis esses anos de “esquerda”, em que os estudos ficavam sempre em segundo lugar, relativamente às obrigações escolares e ao que eu considerava ser importante, ele adquirir do ponto de vista cultural.

Durante todos estes anos não houve dia em que me não lembrasse dele, pese embora, só o tivesse conseguido chorar verdadeiramente, anos depois da sua morte. O que se explica, penso, porque o seu partido político se “apossou”, verdadeiramente, da sua morte.

O último pedido que me dirigiu foi que eu não virasse “mãe chorosa” e que, pelo contrário, andasse para a frente com a minha vida. Foi o que fiz e continuo a fazer!

Mas, confesso, não consigo apagar a mágoa que me causou a falta de privacidade que envolveu o seu desaparecimento. É que para toda a gente, a morte, constitui o ato mais privado de uma família.

Apesar disso reconheço que foi feliz por ter vivido a vida que quis, como quis e com quem quis. Por muito que me tenham doído algumas escolhas que fez, o meu coração vive apaziguado pela sua felicidade, o meu bem mais precioso!  

 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O SEXO E A TERNURA

Quando a ternura fala mais alto do que o sexo, algo mais profundo se revela na relação entre duas pessoas. Não se trata de negar o desejo, mas de reconhecer que há momentos em que o afeto silencioso, o cuidado e a presença valem mais do que qualquer impulso físico.

A ternura manifesta-se nos gestos simples: um toque leve na mão, um olhar demorado, um abraço que não pede pressa. É nesse espaço que a intimidade ganha outro significado — menos urgente, mais verdadeira. Diferente do sexo, que muitas vezes é marcado pela intensidade e pelo instante, a ternura constrói uma ponte duradoura entre dois corações.

Há relações em que o corpo fala alto, mas a alma permanece distante. E há outras em que, mesmo no silêncio, tudo é dito. A ternura pertence a esse segundo tipo. Ela não exige performance, não cobra perfeição. Ela acolhe. E, ao acolher, cria um vínculo que vai além do físico.

Quando alguém escolhe ficar, escutar, respeitar o tempo do outro — isso também é amor. E talvez seja uma das suas formas mais puras. Porque a ternura não precisa provar nada; ela simplesmente é.

No fim, o sexo pode aproximar corpos, mas é a ternura que sustenta a conexão. É ela que permanece quando o momento passa, quando o desejo diminui, quando a vida se torna quotidiana. E é nesse quotidiano que o amor verdadeiro encontra a sua força.

 

quarta-feira, 22 de abril de 2026

SUPERAR-SE A SI PRÓPRIO

 
Há um momento silencioso, quase invisível, em que percebemos que o maior obstáculo nunca foi o mundo lá fora — fomos nós. Não no sentido de culpa, mas de limite. De medo. De histórias que contamos a nós próprios sobre até onde podemos ir.

Superar-se não é um gesto grandioso, não acontece sempre com aplausos ou viradas épicas. Às vezes é pequeno: levantar-se quando o corpo pede mais um minuto, tentar outra vez quando a vontade já desistiu, escolher o desconforto que faz crescer em vez do conforto que mantém tudo igual. É um diálogo íntimo, quase secreto, entre quem somos hoje e quem suspeitamos poder ser.

Há dias em que avançar é dar um passo. Outros, é não recuar. E há ainda aqueles em que a maior vitória é simplesmente permanecer. Porque superar-se não significa ser invencível — significa ser honesto com as próprias fragilidades e, ainda assim, continuar.

O valor disso não está só nos resultados visíveis. Está na construção silenciosa de confiança, na consciência de que somos capazes de ir um pouco além do que pensávamos. Cada pequena superação reescreve a narrativa interna: de dúvida para possibilidade, de medo para coragem.

No fim, superar-se é um ato de intimidade consigo mesmo. Não para provar algo ao mundo, mas para descobrir, camada a camada, que dentro de nós existe sempre mais do que imaginamos.

terça-feira, 21 de abril de 2026

TER TEMPO

Há dias em que o tempo parece escorrer pelos dedos, como areia fina que insiste em fugir. Corremos de um lado para o outro, marcamos encontros, cumprimos prazos, respondemos mensagens — e, ainda assim, fica sempre a sensação de que faltou tempo. Mas talvez a pergunta não seja quanto tempo temos. Talvez seja: o que fazemos com ele?

Ter tempo não é apenas uma questão de agenda vazia ou cheia. É uma escolha silenciosa, quase invisível, que fazemos todos os dias. É o momento em que decidimos parar por um instante, respirar fundo e perceber que estamos vivos agora — não depois, mas neste exato segundo e não quando tudo estiver resolvido.

O tempo para ter tempo exige coragem. Coragem de dizer não ao excesso, de desacelerar quando o mundo exige pressa, de escolher presença em vez de produtividade constante. É um pequeno ato de rebeldia: fechar os olhos por alguns segundos no meio do caos, ouvir uma música até ao fim, ou simplesmente ficar em silêncio sem sentir culpa.

Aprendi, aos poucos, que o tempo não se encontra — constrói-se. Ele nasce nos intervalos que protegemos, nos limites que traçamos, na atenção que damos ao que realmente importa. E, curiosamente, quando começamos a cuidar desses pequenos espaços, o tempo deixa de ser um inimigo e passa a ser um companheiro.

No fundo, ter tempo é permitir-se viver sem estar sempre a correr atrás de viver. É perceber que nem tudo precisa de urgência, que nem tudo precisa de resposta imediata. É aceitar que a vida não acontece só nos grandes momentos, mas também nos pequenos instantes que tantas vezes ignoramos.

E talvez seja aí que o tempo finalmente se revela: quando deixamos de o perseguir e começamos, simplesmente, a habitá-lo.

 

segunda-feira, 20 de abril de 2026

O nosso Coração

O coração comanda muitas vidas. Já comandou a minha. Por isso chamo a atenção para esta iniciativa de alertar as pessoas a "pensarem" no coração!
 

VER E OLHAR

Ver e olhar parecem sinónimos, mas carregam diferenças imensas entre si. Olhar é um gesto — rápido, automático, quase sempre superficial. É o movimento dos olhos que percorrem o mundo sem necessariamente o tocarem. Já ver é um acontecimento. Exige presença, silêncio interior e, sobretudo, disposição para ser afetado.

Olhar é atravessar uma paisagem; ver é permitir que a paisagem o atravesse a si.

No quotidiano apressado, olhamos mais do que vemos. Olhamos rostos sem perceber histórias, olhamos o céu sem notar as suas nuances, olhamos pessoas sem realmente as encontrar. O olhar capta imagens; a visão constrói sentido. Por isso, ver é mais raro — e mais transformador.

Ver implica atenção. Não apenas a atenção que foca, mas aquela que se abre.  Dá-se quando deixamos de projetar expectativas e começamos a receber o que está diante de nós como é. Nesse momento, o mundo deixa de ser cenário e passa a ser presença. E nós deixamos de ser observadores distantes, para nos tornarmos participantes.

Há também uma dimensão ética no ver. Quando vemos alguém de verdade, reconhecemos a sua existência, a sua complexidade, a sua dignidade. Olhar pode reduzir; ver amplia. Olhar pode objetificar; ver humaniza.

Talvez por isso ver seja, em certa medida, um ato de coragem. Porque ao ver, não permanecemos intactos. Algo em nós precisa ceder — uma certeza, um preconceito, uma distração constante. Ver exige vulnerabilidade: é admitir que o mundo pode nos ensinar algo novo.

No fim, a diferença é simples mas profunda: olhar é passar; ver é permanecer.

 

sábado, 18 de abril de 2026

AMAR VIVALDI

É dos compositores que mais me toca. Há dias, em casa de um amigo, a noite foi dedicada ao músico. Trata-se de um pequeno grupo, ao qual pertenço, e que se reúne mensalmente, para ouvir um compositor.

A música de Vivaldi não soa distante nem solene, como às vezes imaginamos o barroco. Pelo contrário — há nela algo de direto, quase humano, como se falasse connosco, sem precisar de tradução.

Quando ouvimos As Quatro Estações, por exemplo, não estamos apenas a escutar uma obra estruturada com rigor. Estamos a entrar num mundo sensorial: o frio corta, os pássaros agitam-se, a chuva aproxima-se. Vivaldi não descreve — ele sugere, evoca, faz sentir. E, talvez seja isso, que torna a sua linguagem tão especial: ela não se impõe, convida.

Há também uma espécie de urgência na sua música. Os ritmos avançam como se não quisessem parar, como se cada compasso tivesse algo a dizer antes que o tempo acabe. Mas, no meio dessa energia, surgem momentos de suspensão — linhas melódicas simples, quase frágeis, que parecem respirar. É nesses instantes que sentimos mais claramente o lado íntimo da sua escrita.

Sendo violinista, Vivaldi escreve para o instrumento como quem conhece profundamente a sua voz. O violino, nas suas mãos, não é apenas virtuoso; é expressivo, quase humano. Ora corre, ora canta, ora hesita. Há uma proximidade aí, como se estivéssemos a ouvir alguém contar-nos algo pessoal, ainda que sem palavras.

Talvez a linguagem de Vivaldi seja, no fundo, um equilíbrio entre ordem e emoção. Há estrutura, repetição, lógica — mas tudo isso serve um propósito maior: comunicar sensação, criar presença, tocar quem ouve.

 

quarta-feira, 15 de abril de 2026

NA ÉPOCA DOS IMPOSTOS

Falo por mim, mas julgo que, no fundo, ninguém gosta de pagar impostos, porque mexe com algo muito básico: aquilo é o nosso dinheiro. Foi ganho com tempo, esforço, às vezes até com sacrifício… e, de repente, uma parte desaparece antes sequer de passar pelas nossas mãos. Não é uma escolha, não é opcional — é imposto. E só essa ideia já causa resistência.

Depois há aquela sensação meio irritante de não saber bem para onde vai. Sabe-se que, em teoria, está a financiar coisas importantes — hospitais, escolas, estradas — mas no dia a dia, nada disso é assim tão visível. O que se sente é mais o que sai, do que o que volta.

E também pesa a confiança. Quando há notícias de má gestão ou desperdício, mesmo que não seja tudo assim, fica a insidiosa dúvida: “estou a contribuir para algo que funciona… ou só a alimentar um sistema ineficiente?” Isto corrói um bocado a aceitação.

Ao mesmo tempo, há um certo conflito interno. Porque, sendo honestos, todos queremos viver num sítio com serviços públicos a funcionar, segurança, apoio quando é preciso. Só que ninguém gosta muito da parte de pagar por isso — especialmente quando algo, parece pouco transparente ou injusto.

No fim, talvez não seja tanto o “odiar impostos”, mas mais uma mistura de perda, falta de controlo e alguma desconfiança. E isso é uma combinação difícil de engolir. Muito difícil mesmo!