domingo, 9 de agosto de 2026

A SOLICITUDE

A solicitude é uma das formas mais discretas e profundas da grandeza humana. Não faz ruído, não exige reconhecimento e raramente procura aplausos. Manifesta-se no cuidado atento, na delicadeza de uma palavra, na disponibilidade para ouvir e na capacidade de perceber aquilo que o outro, muitas vezes, nem consegue pedir.

Ser solícito não significa estar permanentemente disponível para todos, nem carregar o peso do mundo sobre os próprios ombros. Significa, antes, não passar indiferente diante da necessidade alheia. É oferecer ajuda sem humilhar, presença sem invadir, conselho sem impor e afeto sem exigir recompensa.

Há pessoas cuja presença nos ensina isso. Pessoas que perguntam como estamos e realmente querem saber. Que se lembram de um detalhe que mencionámos há meses. Que chegam antes de serem chamadas. Que percebem o silêncio. Que sabem que, em certos momentos, um gesto vale muito mais do que um discurso.

A solicitude nasce de uma atenção rara: a atenção ao outro.

Num tempo em que tantos vivem apressados, concentrados nas próprias urgências, ser solícito é quase um ato de resistência. É escolher parar. Olhar. Escutar. É reconhecer que cada pessoa atravessa batalhas que nem sempre são visíveis e que, por vezes, uma pequena gentileza pode devolver dignidade a um dia difícil.

Mas existe também uma beleza maior na verdadeira solicitude: ela não transforma o outro em devedor. Quem cuida verdadeiramente não contabiliza favores. Não guarda uma lista secreta de tudo aquilo que fez. Ajuda porque pode, porque quer, porque compreende que a vida se torna mais humana, quando deixamos de viver apenas para nós.

Talvez a solicitude seja, no fundo, uma forma silenciosa de amor. Um amor sem grandes declarações, mas presente nos gestos. Um amor que não pergunta “o que ganho com isso?”, mas “como posso tornar isto um pouco mais leve?”

E, acredito que seja justamente aí, que reside uma das mais belas dimensões da humanidade: na capacidade de cuidar sem fazer do cuidado um espetáculo.

Porque algumas das pessoas que mais marcaram as nossas vidas, não foram aquelas que fizeram grandes coisas por nós. Foram aquelas que, nos momentos certos, simplesmente, estiveram lá.

 

domingo, 2 de agosto de 2026

A “quarta idade”, uma vida com sentido

Envelhecer foi, para mim, um privilégio que trouxe consigo experiência, conhecimento e uma nova perspetiva sobre a vida. Esta idade não deve ser encarada como um período de declínio ou de perda, mas como uma etapa rica em oportunidades para continuar a aprender, criar, contribuir e fortalecer relações.

Ter uma vida com sentido nesta fase, significa manter objetivos, cultivar interesses, cuidar da saúde física e emocional e preservar os laços familiares e de amizade. Também implica reconhecer o valor da experiência acumulada ao longo dos anos, colocando-a ao serviço da comunidade e das gerações mais jovens.

A reforma pode representar o fim da nossa carreira profissional, mas não é, não deve ser, o fim da participação ativa na sociedade. Muitos amigos encontraram satisfação no voluntariado, na aprendizagem de novas competências, na prática de atividades culturais, no contacto com a natureza ou na dedicação à família. Porém, o mais importante, é que cada pessoa descubra aquilo que lhe proporciona alegria, utilidade e realização.

Uma sociedade que valorize os seus idosos é uma sociedade mais humana. Promover o envelhecimento ativo, combater o isolamento e criar condições para que cada pessoa possa viver com autonomia, dignidade e propósito são responsabilidades de todos nós.

A “quarta” idade pode, assim, ser- e no meu caso, é- um tempo de serenidade, crescimento e renovação. Acredito que a vida com sentido não depende da idade, mas da capacidade de continuar a encontrar razões para aprender, amar, partilhar e sonhar.