quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

UMA ESTADIA NO VALE DO GAIO

Meu querido Vasco,
Queremos agradecer-te, de coração cheio, a forma tão especial como nos recebeste no teu hotel. Mais do que uma estadia, foi um verdadeiro abraço — feito de atenção, de carinho, de muita gargalhada, e daquela hospitalidade rara que só nasce quando há amizade verdadeira.

Em cada detalhe sentiu-se o cuidado, em cada gesto a generosidade, e em cada conversa a alegria simples de estarmos juntos. Tudo isto envolto num Alentejo muito especial, sereno e autêntico, que parece ganhar outra alma quando vivido assim, entre amigos.

Levamos connosco memórias bonitas, o conforto de nos termos sentido em casa e a certeza de que esta amizade continua a crescer, tal como o encanto desse lugar que tão bem sabes cuidar, com aquele toque de qualidade que é o teu. Obrigado por tudo.

 

AS PONTES

Esta lindíssima escultura chamada "Tendiendo Puentes" (construindo pontes) do artista Lorenzo Quinn, foi apresentada na Bienal de Veneza em 2019. É composta por seis pares de mãos e braços gigantes entrelaçados, que têm um significado especial, que vale a pena relembrar, quando olhamos para ela.

A escultura simboliza a necessidade de união e a importância de superar divisões em tempos conturbados. Deste modo, elas formam uma ponte sobre um canal, no distrito de Castelli, em Veneza. As mãos simbolizam a necessidade de haver elos sólidos para superar diferenças e dificuldades.

Cada par de mãos representa um dos seis valores humanos do Universo, essenciais para construir pontes:  AMIZADE, SABEDORIA, SOLIDARIEDADE, FE, ESPERANÇA e AMOR. Aliás os valores que nos permitem, hoje, mais do que nunca, aspirar todos por um mundo melhor. Que elas continuem em 2026 a permitir que possamos dizer e sentir Feliz Ano Novo!

 

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A ÚLTIMA BADALADA

A passagem do ano é um instante suspenso no tempo. Não é apenas a mudança de um número no calendário; é um ritual íntimo, quase secreto, que cada pessoa vive à sua maneira. Há sempre uma certa expectativa, como se o futuro estivesse ali, a poucos segundos, pronto para ser tocado. É a sensação de que algo pode mudar — mesmo que nada mude de imediato.

Mistura‑se também uma nostalgia suave, aquela vontade de olhar para trás e revisitar o que fomos. Recordamos vitórias, tropeços, pessoas que chegaram, outras que partiram. É um inventário emocional que fazemos sem perceber, como quem arruma uma gaveta, antes de a fechar.

Ao mesmo tempo, nasce uma esperança teimosa. Mesmo quem não acredita em superstições, sente que a meia‑noite abre uma porta invisível. É o desejo de recomeçar, de fazer melhor, de deixar para trás o que pesou. É a promessa silenciosa que fazemos a nós próprios.

Mas há também uma certa melancolia, porque todo fim carrega um pequeno luto. O ano que passou não volta, e isso tem um peso. É um adeus discreto, mas sentido.

E, claro, existe a alegria — às vezes ruidosa, às vezes tranquila. A alegria de estar vivo, de estar com quem importa, de ter chegado até aqui. A alegria de contar em voz alta os últimos segundos e sentir o coração acelerar, como se fosse a primeira vez.

No fundo, a passagem do ano é um mosaico de emoções contraditórias: esperança e saudade, entusiasmo e medo, alegria e silêncio. É isso que a torna tão humana. É isso que a torna, também, tão pessoal.

 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

NATAL EM TEMPO DE GUERRA

O Natal, tradicionalmente marcado pela esperança, pela união e pelo nascimento da paz, adquire um significado profundo e doloroso quando vivido em tempo de guerra. Enquanto em muitos lares o brilho das luzes e o calor das reuniões familiares anunciam celebração, em outros o som que ecoa é o das explosões, das sirenes e do choro silencioso de quem perdeu tudo.

Em cenários de conflito, o Natal deixa de ser apenas uma data no calendário e transforma-se  num ato de resistência. Celebrar, ainda que de forma simples, é afirmar a humanidade diante da destruição. Um pedaço de pão dividido, uma vela acesa, uma oração sussurrada ou um abraço apertado tornam-se símbolos poderosos de fé e sobrevivência. Onde a guerra tenta apagar sonhos, o Natal insiste em reacendê-los.

As crianças, que deveriam associar essa época a presentes e alegria, aprendem cedo demais o significado do medo e da ausência. Muitas esperam não por brinquedos, mas por notícias de pais que não retornaram, por um dia sem bombardeios, por uma noite de sono tranquila. Ainda assim, os seus olhares carregam uma esperança teimosa, como se acreditassem que a paz pode nascer mesmo no meio dos escombros.

O Natal em tempo de guerra também convida à reflexão daqueles que estão longe do conflito. Ele lembra que a mensagem de amor ao próximo não pode ser seletiva, nem limitada por fronteiras. A solidariedade, a empatia e o compromisso com a vida tornam-se presentes urgentes e necessários.

Assim, mesmo cercado pela dor, o Natal continua sendo uma chamada à paz. Um sinal de que, apesar da guerra, a humanidade ainda pode escolher a compaixão. Porque enquanto houver alguém disposto a amar, a partilhar e a esperar, o verdadeiro espírito do Natal não estará perdido — estará apenas lutando para sobreviver.

 

sábado, 20 de dezembro de 2025

PESSOAS: MARIA SERUYA A MULHER DE MIL SUPERFICIES

 

Maria Seruya não cabe em rótulos. É daquelas presenças que, ao entrar numa sala, parecem expandir o ar, como se cada gesto contasse várias histórias ao mesmo tempo. Multifacetada — palavra que nela deixa de ser metáfora e se torna um modo de existir — Maria caminha por diferentes mundos, com a mesma naturalidade com que outros mudam de roupa.

Artista por intuição, pensadora por inquietação e criadora por necessidade vital, ela constrói pontes entre universos que, para muitos, jamais se tocariam. Num dia fala com a precisão de quem decanta ideias; no outro, cria imagens que parecem brotar diretamente do subconsciente. Maria tem o dom raro de transformar fragmentos em sentido, caos em ritmo, silêncio em linguagem.

Os seus projetos — sejam eles artísticos, humanos ou simplesmente quotidianos — sopram a mesma marca: a autenticidade. Nada em Maria é superficial. Cada escolha reflete uma camada dela, e há sempre outra por baixo, vibrando, chamando, pedindo para ser descoberta. Talvez seja por isso que tantos se sentem atraídos pela sua presença: ela é um convite permanente à curiosidade.

Mas o que realmente torna Maria Seruya multifacetada, não é a quantidade de coisas que faz, e sim a profundidade com que habita cada uma. Ela sabe ser plural sem perder o centro; sabe ser vasta sem se dispersar. Uma mulher que reflete muitas luzes — e, ainda assim, guarda o mistério de algumas sombras.

Maria Seruya, na sua multiplicidade, lembra ao mundo que ninguém precisa ser apenas uma coisa. Que a vida, quando vivida com coragem, pode ser um mosaico — e que a beleza está exatamente nisso.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

AS MALVADAS CONTAS

“O primeiro-ministro, que uns dias antes tinha sugerido aproveitar a oportunidade da possível mudança das leis laborais para elevar o salário mínimo para os 1.500 euros e o médio para 2.000 ou 2.500, disse não querer "que o salário médio chegue aos 1.600 ou 1.700", mas sim que "chegue aos 2.500, 2.800 ou 3.000 euros".

Não costumo falar de política, mas esta frase do primeiro-ministro, retirada das notícias que respeitam a economia do país, levantou-me algumas dúvidas, e por isso, obrigou-me a faze umas contas de matemática básica, em que apenas entrei com números que são do domínio público.

De acordo com elas, a afirmação parece-me, sobretudo, retórica e aspiracional. O primeiro-ministro projeta salários médios muito elevados (2.500–3.000 euros) para mostrar ambição política e distanciar-se de metas mais modestas. No entanto, do ponto de vista económico, esses valores parecem pouco realistas a curto prazo, sem um forte aumento da produtividade e reformas estruturais. Falta também clareza, sobre como esses objetivos seriam alcançados, o que reforça o carácter mais discursivo do que prático, da declaração. Isto de acordo com as minhas contas, claro!

 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

GLENN MILLER ORCHESTRA

Fui ontem ao CCB - Centro Cultural de Belém-, ouvir a icónica Glenn Miller Orchestra, sob a direção do maestro Ray McVay , que retornou a Portugal para um concerto especial. Foi no fim da tarde de ontem, em que dirigiu os 20 talentosos músicos e cantores desta magnifica orquestra, num espetáculo que, como num estalar de dedos, nos faz recuar até aos anos 1930. Ainda consegui emocionar-me, tantas décadas depois, porque se trata de um dos compositores de quem mais gosto.

O prazer de ouvir a música de Glenn Miller está na forma como ela envolve o ouvinte com leveza, elegância e um sentimento de alegria serena. As suas peças marcadas, pelo som inconfundível dos metais e pelo ritmo suave do swing, criam uma atmosfera acolhedora, capaz de transportar a mente para outra época. Ao ouvir as suas composições, é fácil imaginar salões de dança iluminados, pessoas sorrindo e momentos de descontração que parecem suspensos no tempo.

 A música de Glenn Miller não é apenas entretenimento. É uma experiência que desperta nostalgia, tranquilidade e prazer, mostrando como a arte pode atravessar gerações e continuar a tocar o coração de quem a escuta.