domingo, 3 de março de 2019

O peso dos nomes

Já aqui contei como o apelido Sacadura Cabral infernizou uma parte da minha juventude, até ter percebido que a "culpa" do incómodo era só minha. Com efeito, quando me perguntavam se era neta do aviador, lá tinha eu que contar uma parte da história familiar para dizer que era sua sobrinha directa já que ele era o irmão mais velho do meu pai.
Veio-me esta história à lembrança a propósito da morte de João Bigote Chorão, um homem encantador e pai de Pedro Mexia. 
Porquê? Porque só muito tarde soube desta relação familiar que me surpreendeu porque o apelido não era o mesmo. O que só prova que a ignorante era eu, que também já tinha ficado admirada pelo parentesco de Daniel Oliveira e de Herberto Helder.
E, como as palavras são como as cerejas, recordei uma história antiga em que alguém perguntava a Nuno Portas que ligação tinha ele com Paulo Portas e a mim me apresentavam sempre, como sendo isto e aquilo e, claro, a mãe dos Portas...
É a vida, diria um amigo meu. Mas é um vida estranha, enclausurada num ambiente familiar por via masculina, que até determinada altura me irritava bastante, porque pensava na minha mãe e nas minhas avós, criaturas fora de série, mas irradiadas por possuirem o apelido apenas por via do casamento e de que ninguém falava a não ser eu.
É a vida, de facto, porque parece que a notoriedade se transmite por via sanguínea, o que eu gostaria que não acontecesse. Mas é um facto que quando alguém nasce num determinado meio familiar e cultural, acaba por receber um património do qual nem sempre se dá conta e que, não pagando direitos, existe mesmo.
Hoje, já com muita vida vivida, entre ser a sobrinha do aviador e a mãe dos políticos, existo eu, a filha da mãe Ivone e a neta das avós Joana e Augusta!

HSC

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

A palavra do Papa


Numa cimeira que reuniu 190 prelados, a Igreja Católica esforçou-se por pôr em marcha uma "revolução" destinada a colocar as vítimas de pedofilia no centro das preocupações. No discurso de encerramento, mais uma vez muitíssimo virulento, o Papa Francisco apelou a "uma verdadeira purificação", apontando o dedo à pornografia na Igreja e na sociedade. Era já tempo, porque os abusadores falharam duplamente. Não só porque abusaram da sua autoridade de adultos como, e mais grave, abusaram da paternidade espiritual que lhes confere o sacerdócio.
Não creio que haja alguém que professe a fé católica, que se não sinta profundamente triste e revoltado com os escândalos de pedofilia dentro da Igreja.
Embora Francisco não seja o Papa de quem mais gostei até hoje - de facto, os meus eleitos são João XXIII e Bento XVI, por mais diferentes que sejam entre si - não posso deixar de lhe reconhecer uma coragem imensa por ter tomado nas suas mãos este dossier. 
É evidente que o problema terá sempre de ser visto - pelo menos - por três ópticas diferentes, que são as vítimas, os abusadores e o crime público do sacerdote/cidadão.
Ouvidas as palavras de encerramento do Sumo Pontífice, acreditamos que uma parte  das vítimas ficou desiludida, outra parte acreditará que daqui para o futuro nada será como dantes e os restantes cidadãos ficaram surpreendidos ao perceberem que os abusadores poderão vir a ser tratados como cidadãos comuns.
Pese embora eu tente fazer do catolicismo a minha prática de vida, compreendo que haja quem tenha ficado gorado nas suas expectativas. É que a Igreja tem um tempo próprio, que leva, algumas vezes, ao afastamento daqueles que tendo um dia acreditado, se cansaram da espera na tomada de decisões. 
Mas também é nesse seu tempo que reside, por estranho que pareça, uma parte da força da Igreja. Ou seja, não será pela precipitação que ela erra. Será, antes, por demorar tempo demais a tomar a devida atenção à evolução dos usos e dos costumes.
Tenho, como muitos católicos, algumas divergências com a Igreja. Nem por isso a abandono. Como tive com os meus pais e os meus filhos. Que também não abandonei. Essas divergências são naturais. É mesmo saudável que existam. Não podem é ser escondidas.
Transposta a situação para a pedofilia - que acredito tem raízes doentias e que convém não confundir com homossexualidade -, julgo que, tratando-se de um crime público, ela não irá, de facto, ficar restringida à Justiça eclesiástica e aos seus Tribunais. 
Os prevaricadores, padres ou não, serão todos submetidos e julgados pela mesma Justiça.  Porque se assim não for, a frase de Bernanos - "o escândalo que me vem dela feriu-me no mais profundo da minha alma, na raiz da própria esperança", fará amanhã ainda, todo o sentido. É a esperança que está em jogo, hoje em dia. É nela que depositamos a nossa fé.
Com efeito, parece que o quotidiano eclesiástico se limita a gerir e descobrir estes casos de clérigos indignos e prelados dúplices.  Pura ilusão. A Igreja é essencialmente feita de padres fiéis e respeitáveis, de laicos em missão, de jovens que visitam reclusos e doentes. Alguns, mesmo, verdadeiros santos!

HSC

domingo, 24 de fevereiro de 2019

A Favorita





Fui ontem ver a Favorita do jovem e auspicioso cineasta grego Yorgos Lanthimos, que começa a ser um dos autores mais relevantes dos tempos atuais, devido à consistência dos seus quase dez anos de trabalho, em que se destacam a obra grega Dente Canino, e os primeiros projetos na língua inglesa, como O Lagosta, ou O Sacrifício do Cervo Sagrado, longa metragem que adaptou a tragédia grega de Ifigénia em Áulide do dramaturgo Eurípides.
Assim, era grande a minha expectativa deste seu novo filme, estrelado pelo trio de atrizes Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz.
Nesta película o realizador leva-nos para a Inglaterra do século XVIII, onde Sarah Churchill, a Duquesa de Marlborough, governa o país como confidente e conselheira da frágil Rainha Anne.
Mas em plena guerra com a França, vai chegar à corte Abigail Masham, nova e ambiciosa serva que, aos poucos se irá aproximar da monarca. Esta nova amizade entre ambas provoca a ira da duquesa. A partir daí, começa uma batalha entre as duas pela posição de favorita da rainha.
São muitos os factores que impressionam na Favorita, em particular o elevado lobby desenvolvido para a grande temporada de prémios que se iniciou ainda no final de 2018 e inclui a cerimónia da Academia, no começo deste ano. Não poderia, aliás, ser diferente, porque quer os aspectos técnicos - desde a fotografia e edição, à produção de arte ostensiva, com vistosos figurinos e maquilagens exageradas, típicas da época -, quer o enredo, o impunham, dado que se trata de uma história de espaço e sobretudo de poder que é transmitida através das suas actrizes.
A câmara de Ryan movimenta-se usando a curiosa e cirúrgica lente  "fisheye", sobretudo quando precisa apresentar a sumptuosidade do palácio real. Esta lente foi uma escolha curiosa já que, ao focar o caminhar das personagens pelos inúmeros corredores do palácio, cria uma sensação ilusória de longitude destes espaços, dando a impressão que não possuem fim, salientando deste modo a sua grandiosidade.
A Favorita surge dividida em capítulos, cada um com título específico. Até ao terceiro capítulo, a narrativa parece um pouco desajeitada, sem impulso e movimento. Mas, quando se chega ao quarto episódio, o fio narrativo explode e encontra o seu eixo, atingindo um patamar que os anteriores não tinham.
Por fim, vale a pena salientar o triângulo - mais odioso do que amoroso - composto pelas três atrizes de Hollywood, que têm uma notável interpretação, já que é na interação entre elas, que o filme se vai desenvolver, revelando as perversas personalidades de cada uma.
Rachel Weiss, logo no inicio, é quem causa impressão mais forte pelo seu cinismo e ironia. É também a personagem que oferece mais capacidade de algum riso neste trágico drama real.
Emma Stone, interpreta alguém que, vindo da servidão, passa por várias transformações e consegue, no final, posicionar-se numa situação completamente oposta àquela em que havia chegado.
Olivia Colman – como, aliás, o roteiro - irá crescer de forma surpreendente, à medida que os capítulos avançam. E, nos últimos, o seu brilho consegue, em alguns momentos, ofuscar o das suas colegas.
Foi, para mim, confesso, difícil sair do cinema sem saber exactamente porque tinha gostado do filme. E mais difícil ainda, definir o que nele me havia desagradado. Mas, trata-se, sem duvida, de uma obra a não perder!

HSC

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Os livros


Gosto de livros. Talvez porque cresci no meio deles. E tenho-os das mais variadas áreas. Quatro são, contudo, dominantes: os Diários, os de Arte Nova, os de Economia e os de Gastronomia.
Sou bastante epicurista e por isso pouco sensível ao que é politicamente correcto gostar. Devo ter sido das primeiras mulheres licenciadas a lançar um livro de cozinha, há já bastantes anos. E entre os trinta que já tenho publicados, seis são de culinária. Trato-os com grande carinho e não os considero menos importantes na minha vida, do que aqueles que me ajudaram a ser quem sou.
Felizmente a culinária ganhou um espaço novo, cada vez maior, e não há televisão que se preze, que não tenha programas neste campo. Do meu ponto de vista ainda bem, embora o seu nível esteja, por enquanto, muito distante do que foi o altíssimo contributo de Maria de Lurdes Modesto para dignificação da gastronomia nacional.
Aliás, julgo que terá sido por causa dela, que me interessei por esta área. Se um dia o trabalho me faltar, a comidinha para fora, não me deixaria sem ocupação. É que, surpreendam-se, há algumas amigas para quem faço umas especialidades, quando estas estão em aflições por causa de um almoço ou jantar que tenham de preparar. 
E esta novidade, hein?! Sou mesmo o que se chama uma caixinha de surpresas...

HSC

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Acontece aos melhores...


Nutro por Ricardo Araujo Pereira o que se chama de mixed feelings. No inicio, quando os Gato Fedorento apareceram, considerei que estava a preparar-se a geração pós Herman e que isso seria benéfico para o humor nacional, apesar de considerar que não seria tarefa fácil.
Depois, veio uma época em que ele fez muita publicidade e outra de "muito respeitinho" que a classe política lhe dispensava. Tanto, que se se prestou a algumas cenas infelizes, não por culpa de RAP, mas porque este se soube aproveitar bem, do facto da dita se pôr a jeito. Todos foram ao beija mão de um seu programa de entrevistas, incluindo o meu filho Paulo. Discordei da ida, mas o politico era ele e, nessa matéria, a minha posição é conhecida.
Tenho seguido o seu percurso com grande atenção e, confesso, tenho hoje por ele admiração, pese embora esta ter sido duramente conquistada. É que como não sabia explicar a antipatia que, em certo momento ele me me provocou, decidi que o importante era o facto de lhe dever - como, aliás, devo ao Herman - alguns dos mais gostosos momentos de riso da minha vida. E, até aqui já confessei, que ele me havia conseguido conquistar pelo humor inteligente e subtil que o caracteriza.
Assim, ao Domingo lá estou eu, após o Global Portas, à espera de ver "Gente que não sabe estar". Desta ultima vez, fiquei numa situação embaraçosa. É que as imagens da ida à Assembleia da senhora que dirigia a cadeia onde se filmou a festa de aniversario de um recluso, eram de uma comicidade confrangedora e seria muito difícil não rir com elas. Só que o riso provinha da falta de senso do discurso da senhora e da sua quase total ingenuidade. O que, claro, punha em evidência a sua falta de capacidade para dirigir uma prisão de alta segurança onde faltam guardas e onde outros estão de baixa contínua. 
Todos rimos - era quase impossível não o fazer - mas esse riso não foi justo, porque as palavras retiradas do seu contexto podem ser muito cruéis! E, neste caso, foram-no.
Eu sei que os humoristas entendem que tudo é passível de humor e que este não tem que ter limites. Eu não penso assim. Mas também não sou humorista.
Continuo a considerar Ricardo Araujo Pereira como um humorista muito especial e que lhe devemos umas horas igualmente especiais. Por saber isso é que fiquei triste, apesar de e por causa de, me ter, de facto, rido. Foi o que se chama, quer para mim, quer para ele, de um momento pouco feliz, de gente que sabe estar. Acontece aos melhores!

HSC

Da moda e da palavra



O título deste post traz-nos duas noticias. Uma má, a morte do costureiro Karl Lagerfeld que há anos orientava a Casa Chanel e uma boa, a publicação, no dia 15 do próximo mês de Março, de uma Nova Gramática do Latim, desta feita, elaborada por Frederico Lourenço que, com ela, interrompe o lançamento consecutivo da saga bíblica traduzida do grego. 
Quem se interessa pelas línguas originárias do latim, vai encontrar uma obra com um modo diferente e desempoeirado de abordagem relativamente às tradicionais gramáticas existentes, e que, curiosamente, é feita por alguém que possuindo um curriculum invejável, tem apenas 51 anos.
Karl Lagerfeld, um verdadeiro inovador, faleceu hoje no Hospital Americano de Paris, onde havia sido internado na segunda-feira. O designer da Chanel tinha 85 anos e era o rosto da moda de autor e de luxo da era pós-costureiros. De facto, simbolizava o homem que, simultaneamente, estava nos dois mundos, o dos ateliers de produção luxuosa da primeira metade do século XX e o do prêt-à-porter, mais pop, que marcou as grandes mudanças no sistema da moda nos últimos 30 anos.

HSC