sábado, 4 de fevereiro de 2017

Eutanásia

Permitam-me que vos traga aqui este texto, publicado ontem pelo Pedro Rolo Duarte no seu blog, porque ele traduz muito do que penso serem as vertentes principais da discussão que está aberta sobre a eutanásia ou se preferirem, a expressão mais doce de morte assistida. Oportunamente darei a minha opinião. Mas por enquanto fica neste post, que me permiti "roubar", por considerar que ele invoca muito daquilo que deve ser a verdadeira discussão sobre o assunto. Aqui vai:

"Estou a ver na TV, num canal de notícias, uma curta troca de argumentos sobre a eutanásia. Estremeço. Antecipo o “amplo e profundo” debate que o Presidente Marcelo desejou há dois dias: vai dar asneira. Um dos intervenientes era mesmo o bastonário da ordem dos médicos, José Manuel Silva - e a forma como ridicularizou as opções que um doente terminal pode ter, para concluir que o mais “barato” era o suicídio, deu para perceber como podem extremar-se questões tão delicadas e sensíveis como esta, e como se pode cair lamentavelmente na demagogia e no disparate. Ora, se com a vida não se brinca, então com a morte… 
Confesso: sou impotente para vir a terreiro argumentar sobre a eutanásia. Parece-me uma questão de foro tão intimo e pessoal, tão individual e tão pouco política ou sequer ética, que não consigo ver quem possa “querer” ter razão e taxativamente estar “contra” ou “a favor”. Por mais que haja quem pense que a vida não nos pertence - a quem pertencerá? Ao Estado? A Donald Trump? Aos constitucionalistas que decidiram a nossa vida? -, não consigo escapar à evidência: se cada um de nós faz da sua vida o que entende e quer, parece meridiano que a vida de cada um de nós é mesmo de cada um de nós, desculpadas as repetições e redundâncias. E assim sendo, cabe a cada indivíduo decidir o que fazer com a vida quando ela está em causa, quando não tem saída, quando já só resta sofrimento e dor. Quem sou eu para confrontar um ser igual a mim que decide, pela sua cabeça, conscientemente, antecipar o inevitável em nome de uma qualquer paz interior? Quem sou eu para dizer a 90% dos necessitados de cuidados paliativos, que os não recebem por falta de capacidade de resposta da rede, que não devem ou podem recorrer à eutanásia.
Não me passaria pela cabeça debater a eutanásia justamente por entender que ela já existe, interiormente, na opção de fim de vida de todos os seres humanos, mesmo quando não lhe têm legalmente acesso. Menos ainda referendar ou levar ao Parlamento. No limite, legislar sobre as condições essenciais - de saúde, ou falta dela - que garantissem que a decisão não serviria para abusos, desvios, fatalidades, facilidades. O mínimo indispensável.
Dito isto, parece-me que o debate vai dar disparate. Vamos ver repetir-se a dicotomia esquerda/direita, católicos/ateus, novos/velhos, numa estúpida cisão sem sentido, ditada por preconceitos e falsas premissas, e que não corresponde, seguramente, ao sentir da maioria. Enquanto nas ruas cada um pensará por si, nas televisões e nos jornais vamos ver “frentes unidas” com cargas ideológicas e religiosas, numa repetição de outros debates passados, alguns deles de infeliz memória. É mais tempo perdido, mais energia gasta desnecessariamente - enquanto se adiam, se esquecem e apagam tantos debates por fazer, tanto país por construir.”

A cada um dos meus leitores cabe tirar conclusões sobre o que acabam de ler. Eu já tirei algumas. Preciso, porém, de as ligar para conseguir ser suficientemente clara quando as expressar. Mas considero este texto muito esclarecedor.

HSC

Farta de Trump!


Sempre tive como certo que aquilo que nos incomoda, deve ocupar pouco do nosso tempo, sobretudo, se não tivermos qualquer possibilidade de mudar o que quer que seja desse incómodo.
Ora desde que Donald Trump foi democraticamente eleito Presidente dos Estados Unidos da América, os nossos meios de comunicação social insistem em se pronunciar diariamente sobre o que ele faz, o que ele diz, o que ele pensa. Será que não estaremos todos, com esta atitude, a engrandece-lo ou a vitimiza-lo, traduzindo-se qualquer destas duas atitudes numa única, que é afinal, a de lhe darmos demasiada importância?
Pessoalmente cansa-me este fanatismo. Ele não é meu Presidente, não goza das minhas simpatias e julgo que o que ele pretende é, justamente, o que todos os países estão a fazer, ou seja a dar-lhe toda a importância. Quem tem de resolver o assunto das suas loucuras, são os americanos e enjoa-me um bocado que a nossa comunicação social esteja presa de Trump ou do futebol, sem se ocupar dos verdadeiros problemas do país.
Não será que já chega desta obcecação de falarmos de alguém em relação a quem não podemos fazer nada e cujo pensamento não interessa a ninguém, a não ser ao povo que o elegeu?!

HSC


Dos parvos não reza a História!

Como já devem ter notado os posts sobre política neste blog - incluindo os de matéria económica que, às vezes ainda tinha uma réstia de paciência para ouvir - esfumaram-se com o vento. É que foram tantos os disparates que ultimamente ouvi nas análises ou nas pseudo entrevistas, nos frente a frente, nos comentaristas oficiais, que decidi por uma questão de sanidade mental bani-los daqui e da televisão.
Resta-me o mundo real com as complicações da TSU, do salário mínimo nacional, dos monólogos das confederações e dos sindicatos, das recusas de tudo e de qualquer coisa por parte da CGTP - mesmo quando os trabalhadores tenham optado por soluções diferentes -, das salsadas de trânsito que me fazem dar volta a Lisboa para não passar na Av da Liberdade e no Marquês, dos buracos na rua em que vivo, que precisava de ser habitada por um membro do governo, para ser logo recuperada, enfim, resta-me já pouca coisa que me divirta nesta terrinha que tanto amo.
Bato-me por ter uma empresa que paga impostos em Portugal, quando tudo aconselhava que os pagasse lá fora, tenho clientes estrangeiros que tento atrair para o nosso país e cá deixarem o seu dinheiro, desvalorizo a dívida que aumenta sem que Centeno nos explique porquê, enfim, tento cumprir com aquilo que sendo idiota eu considero dever fazer pelo meu país.
Mas confesso que quando me dizem que eu sou parva, começo a sentir dúvidas sobre se não o serei e, o que é pior, é que jamais serei capaz de ser de outra maneira!

HSC

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

O baton e os estados de alma


Sempre liguei as escolhas do meu arranjo pessoal, aos estados de alma pelos quais passei. Continuo, hoje, a fazer o mesmo. Ou são as cores da roupa ou é o verniz das unhas ou mesmo as madeixas com as quais, desde há muito tempo, embelezo o meu cabelo. E, apesar de variar bastante, a tónica centra-se sempre no espectro de cinco cores básicas, com que animo as minhas alegrias ou as minhas raras tristezas.
Todavia, uma peça de  embelezamento se havia de manter igual ao longo dos anos que já tenho. É o meu baton vermelho Paloma. Sem ele, não sou eu. Posso não me pintar e andar de cara lavada, sem sequer pôr um pouco de cor  nas maçãs do rosto. Mas sem baton será mesmo muito difícil sair de casa. É a minha alma, é algo cuja história faz parte de mim própria.
Tentei algumas vezes ser-lhe infiel e usar tons diferentes que oscilavam entre o rosa e o acastanhado, Não digo que ficasse mal. Mas...mas não era, mesmo, eu. Com eles sentia que uma personagem estranha se apoderara de mim.
Este meu amor tem raízes profundas. Desde muito pequena, creio que aí pelos quatro a cinco anos, mal a minha mãe saía, eu pulava para o seu quarto, a bisbilhotar na caixa das pinturas. Nada mais me interessava, na miríade de objectos que a dita caixinha continha. As minhas mãos pequenas e roliças, agarravam sempre o mesmo.
De inicio, apenas abria o baton pela diversão do sobe e desce que ele permitia. Depois, já um pouco mais velha e mais afoita, ousava esborratar os lábios. A história continuou e a primeira autorização de o usar, teria sido pelos meus dezoito anos, apesar da contrariedade paterna.
A partir daí a relação estreitou-se e refinou-se. Iniciei-me nos rosas pálidos e fui-os avermelhando até chegar ao encarnado vivo, a contrastar com a minha pele branca. Na época, a questão vital situar-se-ia no tom que havia de me provocar o “coup de foudre” e que chegaria numa viagem a Paris, a primeira que fiz, na qual não houve escaninho de cosmética que não visitasse. Foi então que encontrei a cor da minha vida. Desde essa altura, a união foi perfeita e por muitos e longos anos nenhuma outra cor animou a minha boca.
Nestes casos de paixão – no baton, como no amor – o problema reside nos “descontinuados”, o fim de algo que se considera ter de ser renovado, ou se julga dever ser abandonado por cansaço de mercado. Foi assim que, de um momento para o outro, o “meu” vermelho foi substituído por outro semelhante, mas que, aos meus olhos, era completamente diferente.
Foram uns meses difíceis, em que deixei de usar nos lábios o que quer que fosse, o que me dava, confesso, um ar bastante desenxabido. Salvava-me a juventude e alguma graça natural....
Até que, um dia, numa decisiva viagem que me levaria, sem retorno, por uns anos a Paris, – que saudades boas desse tempo! – havia de reencontrar o baton da minha vida, produzido por uma daquelas marcas que passam de avós para netos e constituem uma espécie de património familiar.
Estava, finalmente, recuperado o meu velho vermelho Paloma. Aquele com que iniciei estas linhas, e que, pese embora já não ser uma rapariga, continuo a usar para animar ocasiões especiais. Depois desta história de amor, alguém pode duvidar da importância do baton? Ninguém. Para o melhor e para o pior...

HSC

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Saudade

A 28 de Janeiro a Farmacêutica Roche promoveu um evento denominado "Inspired" que reuniu cerca de cento e quarenta médicos pneumonologistas e oncologistas do Pais e que se organiza já há mais de 10 anos, tendo em 2017 tido a sua a 11ª edição.   
Eu assumira o compromisso de encerrar este encontro e foi quase por milagre que cumpri a promessa, tal a série de acontecimentos negativos que, entretanto, se foram desenrolando... Mas cumpri. 
Entretanto recebi várias mensagens a pedirem-me o texto e começou a ser difícil responder a todos. Então decidi publicá-lo. Aqui o têm.

Saudade

Todos sabemos que, um dia, a maioria de nós irá separar-se. Sentiremos saudades de todas as conversas que acabámos por não ter, das descobertas que fizemos em conjunto, dos sonhos que sonhámos, dos muitos risos e momentos que compartilhamos e até, quem sabe, das lágrimas que também chorámos.
Saudades do companheirismo então vivido, das angústias por que passámos, das vésperas dos finais de semana sozinhos, dos finais de ano em que acreditávamos que a vida seria sempre assim, feliz. Saudades, talvez, quem sabe, porque sempre acreditámos que o amor e as amizades se fizeram para ser eternas.
Mas a verdade é que uma decepção pode diminuir um amor que parecia ser enorme e uma ausência pode aumentar um amor que parecia ser frágil.
Assim, torna-se difícil conviver com este tipo de elasticidade afectiva na qual, aos nossos olhos, as pessoas se agigantam ou se encolhem e em que o nosso julgamento é feito não de escalas métricas, mas de acções e reacções, de expectativas e frustrações.

Diz a sabedoria popular que tudo na vida tem dois lados. Um bom e outro mau. Embora esta visão dependa do modo como olharmos as situações será difícil não considerar a saudade como um sentimento ambíguo.
É verdade que também se diz que ela constitui a prova de fogo para saber se algo ou alguém terá valido a pena traduzindo, afinal, suprema ironia, a dualidade de que “sentir a falta” poderá ser simultaneamente bom e ruim.
Senão vejamos. Saudade é amar um passado que nos magoa no presente. É uma felicidade retardada. É sentar numa cadeira e relembrar acontecimentos que nos tornaram felizes ou emoções que nos terão feito sofrer. É o amor que ainda não foi embora, embora  a pessoa amada já o tenha feito. É imaginar onde alguém deve estar agora, saber se ainda gosta do prato preferido, se chorou ou não com o nosso afastamento.
E, quando a saudade não cabe mais no peito, ela acaba por se materializar nas lágrimas que não sendo de tristeza, nem tão pouco de alegria, transbordam dos nossos olhos.
Sentir saudade é ter a ausência sempre perto de nós. É mudar radicalmente a nossa rotina, frequentar lugares que não conhecíamos, ter dias mais compridos, ter tempo para os amigos, para os vizinhos e para a família. A saudade é a inconfortável expectativa de um reencontro, que às vezes é tão grande, que não é mais um sentimento, porque a pessoa se torna saudade. A saudade só não mata, porque também tem o prazer da tortura.
É viver para encontrar o que se perdeu, sorrir com os lábios tendo o coração sufocado. É perceber que apesar de ela ser feita para doer, às vezes também é o meio mais eficaz de enxergar o quanto amamos alguém, no passado ou mesmo no presente. Deste modo, ela é capaz de agregar opostos, como a tristeza e a felicidade e transformar certos momentos da nossa vida em algo de profundamente ambíguo.
Todavia há quem admita não ter saudades de nada, independentemente de qualquer recordação de felicidade ou de tristeza, de um tempo mais feliz ou menos feliz.
Saudades de nada. Nem mesmo de quem morreu. Porque, dizem, de quem morreu o que se sente é a falta, o prejuízo da perda, a ausência. É a vontade da presença, não no passado, mas na actualidade, no tempo presente. É querer tê-los aqui, consigo, agora. E enfatizam que voltar atrás nunca, nem mesmo com eles. Poderá parecer estranho, mas talvez corresponda a uma visão de que a vida é um caminho que se tem de fazer, uma obrigação de que é preciso prestar contas. No fundo é uma dívida que se vai pagando todos os meses, todos os dias.

Entalar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Uma bofetada, um soco, um pontapé, doem. Dói bater com a cabeça no canto da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é a  saudade que sentimos de um irmão que mora longe, de uma cachoeira onde nos banhámos na infância, do gosto de uma fruta que não se encontra mais, do pai que já morreu, de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade, afinal, de nós próprios, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Todas estas saudades doem imenso. 
Se pudéssemos graduar esta malfadada dor, arriscaria dizer que a saudade mais dolorosa é a saudade de quem se ama. Saudade da sua pele, do seu cheiro, dos beijos trocados. Saudade da presença, e até da ausência consentida, em que embora as pessoas não se vejam, sabem onde o outro se encontra e têm a certeza de que se voltam a encontrar.
Quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter, porque saudade é, também, justamente, não saber.
Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que nos parem o pensamento, não saber como conter as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada nem ninguém consegue preencher.
Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, continuar a sofrer.
Há pessoas que confundem os sentimentos de nostalgia e saudade, porque pensam que são a mesma coisa. Não são. Nostalgia dói mais do que saudade, é como o fim do dia, em que a única saída é a noite.
A saudade suporta-se de forma inquietamente, mas tem cura. A nostalgia é lembrar, após alguns anos, um certo momento, que às vezes até se repete, mas sabermos que já não é a mesma coisa. Saudade é quando o ser amado se foi embora, mas o amor ainda ficou. Nostalgia é quando o amor também se foi...
Saudade é o que sentimos quando deixamos a casa dos pais e vamos morar sozinhos, em qualquer canto do mundo. Nostalgia é quando nos lembramos do tempo em que esses pais jogavam bola ou brincavam connosco...
Sente-se saudade da avó, que mora longe e cada vez que a visitamos nos prepara um monte de comidas gostosas. Sente-se nostalgia quando já não se tem a avó, mas ainda sentimos o gosto das guloseimas que ela fazia...
É saudade que sentimos da nossa casa quando viajamos e ficamos um tempo fora. Mas é nostalgia lembrarmo-nos de tudo o que vivemos ali, na nossa casa abandonada...
Saudade a gente pode ter de um brinquedo, de andar de bicicleta. Nostalgia é lembrança de como era simples e feliz a nossa infância...
Saudade é um sentimento urgente, nostalgia não tem outra solução que não seja conformarmo-nos. Saudade é a ausência provisória de alguém, nostalgia é a ausência eterna de um momento.
Esta é a catarse de que falei no início. Aquela que constitui a explosão em palavras daquilo por que se poderá ter passado. Agora vem a pergunta de como conviver com tudo isto.

Creio que será permitido a toda a gente guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa. Que não será proibido confessar que, às vezes, se tem saudades. Nem será odioso dizer que uma separação dolorosa nos traz, ao mesmo tempo, um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego e um indefinível remorso ou um recôndito despeito.
E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram na nossa vida, guardados no nosso coração. E que a lembrança deles, se por um lado nos faz sentir maior a nossa solidão, por outro lado permite-nos compreender que essa solidão ficou menos infeliz.
Julgo que foi assim que terei diariamente conseguido viver, primeiro sem a mãe e depois sem o filho que partiu. Na minha casa as fotos  de momentos mais felizes e menos felizes encontram-se por todo o lado. Os da alegria e os da tristeza. Porque a vida é isso mesmo, e eu não pretendo apagar o meu passado, nem nostalgicamente ficar sua prisioneira. O que quero é que as boas saudades do futuro sejam possíveis, porque tive, justamente, o meu passado!



Lisboa, 28 de Janeiro de 2017         Helena Sacadura Cabral

O outro lado da medalha...


Depois do Silêncio e para me compensar da irritação que o filme me provocara, conseguiram arrastar-me para o LA LA LAND. Ainda bem, porque é desopilante.
Trata-se de um music hall que conta uma romântica história de amor, de encontros e desencontros, de sonhos sonhados e sonhos desfeitos.
Ema Stone igual a si própria, com aquela beleza estranha que uns olhos enormes acentuam e Ryan Gosling, aquele pedaço de inocência e de mau caminho, protagonizam a fita que, por várias vezes, me lembrou Fred Astaire e Ginger Rogers.
Trata-se, assim, de um género de filmes, em que os americanos têm tradição de serem muito bons e são-no de facto.
A meu ver esta película é, eventualmente, longa demais, não merecerá a profusão de prémios que lhe atribuem, mas enquanto estamos a ve-la não pensamos em mais nada, a não ser que, já há muitos anos, talvez tenhamos dançado nos braços de alguém, assim, com aquela credulidade...

HSC

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Silêncio


Quando se está de luto, por norma, pouco ou nada apetece fazer. Eu não gosto de ter comiseração por mim própria, pelo que entendi que devia tentar sair do casulo e fazer algo que me pusesse a "girar". A decisão foi a de ir com amigos ver o Silêncio, filme de que de que me tinham dado muito boas referências. Como costumo fazer a minha escolha pelos realizadores, o deste, Martin Scorcese, era, para mim garantia suficiente.
Pois bem, não aconteceu bem assim. É claro que se trata de um filme importante, com grande qualidade cinematográfica e que se ocupa de um tema - as atrocidades cometidas contra os missionários que foram evangelizar o Japão no século XVI - que interessa aos católicos e a todos os que se preocupam com determinados valores. Mas o conteúdo desiludiu-me um pouco, porque Scorcese parece filiar-se naqueles que só vêm no cristianismo uma rota de dor para alcançar Deus. 
Ora eu ando a pregar, há muito, que o meu Deus é dor e sofrimento, mas é também alegria e prazer. Deus fez-se Homem para nos mostrar isso mesmo. O filme aponta, apenas, para a redenção através da via dolorosa. Não há uma pinta de alegria naquela película e isso é deliberadamente feito através de vários flash back em que a violência é a tónica dominante. Numa palavra, saí do cinema estafada com tanta amargura, tanto tormento, tanto conflito, tanta ansiedade.
É evidente que se trata de uma película que faz pensar. Em nós e nos outros. No papel das religiões na História dos povos. Mas aqui, neste Silêncio, não há uma réstia de esperança, não há a mais pequena chama de ânimo. E, creio, foi isso que o realizador pretendeu dizer-nos.
Eu não sou ninguém. Não tenho quaisquer competências especiais nesta matéria. Também tenho os meus conflitos com a Igreja e não são poucos. Mas esperança foi algo que até hoje nunca me faltou. Por isso é que o filme me incomodou!

HSC