terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A pequena vitória!


Debati-me durante bastante tempo entre "filosofar" e "praticar". Sentia que era mais virada para a acção, mas vivia rodeada de "filósofos" que olhavam para mim com a condescendência que, por norma, se tem por quem não possui tais atributos. Como fora a melhor aluna do meu curso e namorava um intelectual romântico, tinham que me "aceitar".
Os anos foram passando por mim e por eles - pessoas de passado prometedor - e a vida foi-lhes retirando algumas utopias que viriam, nalguns casos, a serem a herança transmitida aos filhos que, entretanto, tiveram. E que, com tal património, acabariam a construir utopias bem diferentes. Andam por aí a dizer coisas bem diversas das que ouviram aos progenitores.
Deixei, durante muito tempo, de conviver com eles. O namorado seguiu o caminho que lhe apeteceu e o "seu" grupo também. Muitos haviam de tornar-se gestores públicos ou políticos, com o Estado, agora democrático, a garantir-lhes o respectivo múnus . Em qualquer dos casos, uma parte significativa deles são o que hoje apelidamos de "velhos do Restelo", pouco dados a abandonarem a prosápia de se terem como referências do seu mundo.
Eu, tão velha quanto eles, continuei a desenvolver o lado prático da vida. E, não tendo "passado filosófico", ganhei o direito a dizer o que penso, sem grandes constrangimentos. O que me parece uma inegável pequena vitória!


HSC

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Mais de seis milhões!


Foram mais de seis milhões de fiéis que assistiram, em Manila, à missa papal de Francisco. Mais de metade da população de Portugal. Confesso que me impressionou a capacidade de mobilização do actual Papa e me comoveram as palavras da criança que vivia nas ruas até a Igreja a ter recolhido, apelando a que cuidassem daquelas que não tinham tido a sua sorte.
O Chefe da Igreja falou da necessidade de olhar o papel da Mulher na sociedade actual, o que mostra bem como, apesar de estarmos no século XXI, ainda é necessário alertar para este problema. O facto é que, apesar de emancipadas nas sociedades ditas democráticas, também é nestas que a violência praticada contra elas não pára de assustar.
Confesso que, ao contrário de todos os católicos que conheço, o Papa Francisco ainda não tinha entrado no meu coração. Dificilmente vos saberia explicar este facto, que não seja pela razão, tão popular, que afirma que amores não se discutem. 
Até hoje, João XXIII foi o meu Papa de eleição e, também ao contrário da maioria, gostava de Bento XVI e da sua aparente distância, que tanto desagradava aos outros.
Todavia, ontem ao assistir àquele mar imenso de irmãos na fé, algo fez espoletar em mim uma simpatia que até à data não tinha ocorrido. Não sei o que foi, nem tão pouco sei a natureza do fenómeno. Pouco importa, aliás, porque estas coisas do espírito religioso não precisam de grandes explicações. 
Eu sei que os iões existem mas nunca os vi. Como sei que gosto de encarnado mas ignoro o que dita esse gosto. E, em ambos os casos, não ando à procura das razões, limito-me a regista-los.
Por isso e voltando ao princípio, é impressionante o que, em nome do seu credo religioso, aquela população de seis milhões - mais do que a população de alguns países - foi capaz de, unida, mostrar ao mundo, só para ver o "seu" Papa. A religião pode ser considerada, por alguns, como o ópio do povo, mas que ela faz mover esse povo, não há qualquer dúvida!

HSC

domingo, 18 de janeiro de 2015

Maria la portuguesa


Sílvia Pérez Cruz é uma das mais belas vozes ibéricas e uma das artistas mais acarinhadas pelo público e pela crítica de Espanha.
Depois de um percurso por grupos como Las Migas (flamenco) e Javier Colina Trio (jazz) e de vários discos gravados em parceria, editou em 2012 o seu primeiro disco a solo - 11 de Novembre - com voz, guitarra, composições e parte das letras da sua autoria.
A sua voz que não serve apenas a bela língua da sua Catalunha natal, mas também o castelhano, o galego, o português, as grandes línguas da Península Ibérica e as suas tradições musicais, do flamenco ao fado, bem como as músicas de lugares para onde os povos peninsulares viajaram, como Cuba e Brasil.
E confesso, há algo na sua voz, que me lembra muito a nossa saudosa Amalia!

HSC

sábado, 17 de janeiro de 2015

Dos dias felizes

Sou uma pessoa disciplinada. O que quer dizer que me esforço por honrar os compromissos pessoais ou profissionais, em particular estes últimos, porque o respeito pelos "outros" foi a base da educação que os meus pais me deram. Mas também me respeito muito, o que significa que aquilo a que me comprometo comigo própria, assume uma importância enorme.
Por causa desta característica, necessito de um certo grau de "loucura" que a compense. Daí que, como já aqui disse, no resto da minha vida, aprecie o inesperado, a surpresa, a brisa dos dias. E é nesse dualismo que encontro o meu próprio equilíbrio. Por isso fujo de compromissos a termo certo e curto. 
Preciso de saber que os meus dias se desenrolam sob a batuta do sagrado - que, afinal, são os deveres que aceito - e sob a liberdade do profano - que se corporiza no imprevisto - para me sentir mais próxima daquilo a que chamo de "dias felizes". São estes que me fazem sorrir às intempéries e me ajudam a aceitar o inevitável.
Mas não nos enganemos, tudo isto dá imenso trabalho. Trabalho para o qual todos deveríamos ser treinados. Todavia creio, hoje, que haverá muitas pessoas assim. Só que, na maioria dos casos, não terão consciência disso. E é essa ignorância, essa inconsciência, que as impede de apreciarem devidamente a espuma dos dias que passam... 

HSC

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Do corpo

Porque é que nos preocupamos tanto com o corpo? Porque ele é o meio através do qual nos expressamos, responder-me-ão. Contudo, esta não é a verdade completa. É apenas uma parte dela, uma vez que, é muitas vezes apenas o aspecto exterior desse corpo que nos motiva e não a forma harmoniosa como funciona.
Explico-me: conheço muito boa gente que gasta mensalmente balúrdios em cremes caros e não faz, por exemplo, um check-up anual. E, não entrando sequer pelas práticas invasivas de retirar o que está a mais ou colocar, falso, o que está menos, assiste-se ao crescimento de uma nova área da dermatologia, cuja prática era ainda há duas décadas muito mal aceite pelos médicos da especialidade. Hoje a cosmetologia é um domínio em franca expansão, que deu origem às práticas mais variadas e de que as injeções cutâneas dos mais diversos produtos - cujas fórmulas secretas são apenas dominadas pelos mais hábeis -, são o expoente máximo na matéria. 
Abrem-se as revistas cor de rosa que pululam em qualquer cabeleireiro e lá aparece o médico indiano que trata as rainhas do povo e as rainhas mediáticas e que tem listas de espera de vários meses. Aproveitando a onda, os médicos nacionais também tomaram o combóio. E hoje já não há dermatologista que se preze que não injecte um cocktail de sua autoria para rejuvenescer uma pele cansada ou não venda os seus próprios produtos que, sem recurso ao bisturi, nos devolverão a eterna juventude.
O corpo deixou de ser a máquina que se deseja funcional e saudável, o instrumento de sensibilidade e prazer, para ser um esteriótipo geracional, que não envelhece e tem de se manter jóvem a todo o custo, mesmo que no seu interior a chama dessa juventude se tenha extinguido há já muito tempo!

HSC

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Da tentação

Há um blogue que tem o curioso nome de "Cair em tentação". Sempre que lá vou, não consigo deixar de sorrir, porque considero o título aliciante e bem apelativo.
Há quem ligue tentação a deshonestidade, a falta de seriedade. Não penso assim. Para mim a tentação tem a ver com parãmetros próprios, individuais. Há pessoas para quem comer chocolate é uma tentação e o facto não envolve qualquer factor de idoneidade.
A vida tem solicitações. Umas fazem bem, outras fazem mal. Escolher implica, sempre, prescindir de algo. Quando se é tentado tem-se dois caminhos: ceder ou recusar. Quando se cede, sabe-se que há um preço a pagar pelo prazer que daí se tira. Quando se recusa, há uma vitória. Que por um lado nos alegra, mas por outro, nos deixa um vazio nem sempre fácil de digerir.
Confesso que gosto de tentações. Desde aquelas que foram admiravelmente pintadas e que todos conhecemos, até àquelas outras, menores, do nosso quotidiano. Para o bem e para o mal já caí em várias tentações. Felizmente. E a conclusão a que chego é que se as soubermos escolher, os prazeres que delas tiramos podem ser francamente compensadores...

HSC

Da vergonha

Fui, até aos oito anos, o que se pode chamar de uma criança envergonhada. Não exactamente de mim,  mas mais exactamente daquilo que certos adultos queriam que eu fosse, nomeadamente na escola. Por graça divina, tive avôs e pais maravilhosos, que sempre pretenderam inculcar-me segurança e me explicaram que me limitasse a ser aquilo que era autêntico e me dava prazer, porque, no restante, eles me ajudariam a discernir entre o que valia ou não a pena tentar ser. O que os outros - nomeadamente colegas ou professores - gostavam que eu fosse só seria importante se constatasse que ganhava pessoalmente algo com isso.
À medida que o tempo foi passando fui perdendo vergonha própria - direi mesmo que me tornei num ser ousado - mas ganhando vergonha pelos outros. Ou seja, não eram os meus actos que me envergonhavam, mas sim as atitudes tomadas por gente a quem eu atribuía grande importância. E, confesso, era um sentimento muito desagradável ver pessoas de tino comportarem-de de modo desatinado, fosse em que área fosse.
Com a idade o sentimento de vergonha altera-se e permite-nos avaliar comportamentos - nossos e dos outros - de forma diferente. Não é, sequer, uma questão de maior tolerância. É antes a experiência da vida a dizer-nos que nem todos somos capazes do mesmo, nem todos temos a mesma sensibilidade, nem todos temos a mesma coragem. Porque, afinal, é esta coragem ou a ausência dela que, muitas vezes, está na base da vergonha que sentimos. De nós e dos outros!

HSC