Debati-me durante bastante tempo entre "filosofar" e
"praticar". Sentia que era mais virada para a acção, mas vivia
rodeada de "filósofos" que olhavam para mim com a condescendência
que, por norma, se tem por quem não possui tais atributos. Como fora a melhor
aluna do meu curso e namorava um intelectual romântico, tinham que me
"aceitar".
Os anos foram passando por mim e por eles - pessoas de passado
prometedor - e a vida foi-lhes retirando algumas utopias que viriam, nalguns
casos, a serem a herança transmitida aos filhos que, entretanto, tiveram. E
que, com tal património, acabariam a construir utopias bem diferentes. Andam
por aí a dizer coisas bem diversas das que ouviram aos progenitores.
Deixei, durante muito tempo, de conviver com eles. O namorado
seguiu o caminho que lhe apeteceu e o "seu" grupo também. Muitos
haviam de tornar-se gestores públicos ou políticos, com o Estado, agora
democrático, a garantir-lhes o respectivo múnus . Em qualquer dos casos, uma
parte significativa deles são o que hoje apelidamos de "velhos do
Restelo", pouco dados a abandonarem a prosápia de se terem como
referências do seu mundo.
Eu, tão velha quanto eles, continuei a desenvolver o lado prático
da vida. E, não tendo "passado filosófico", ganhei o direito a dizer
o que penso, sem grandes constrangimentos. O que me parece uma inegável pequena
vitória!





