terça-feira, 25 de março de 2014

O desafio de Teodora


No primeiro dia das jornadas parlamentares do PSD em Viseu Teodora Cardoso, presidente do Conselho de Finanças Públicas (CFP) perguntou em jeito de desafio: “que tal substituir todos os impostos que recaem sobre o rendimento por um único, a incidir sobre os levantamentos que se fazem a partir de contas de poupança?”
A ideia de um imposto único é há muito debatida nos meios académicos, mas nunca foi posta em prática por nenhum Governo.
As maiores vantagens apontadas a este modelo são a redução da evasão fiscal e dos custos administrativos nos sectores público e privado. Acresce ainda, que a maximização da base tributária permitiria minimizar as taxas, sem perda de receita para os cofres públicos.
Os bancos passariam, assim, a funcionar como cobradores do fisco, à semelhança do que já fazem nas retenções na fonte sobre os rendimentos de capital, que já são objecto de acordos internacionais que visam evitar fugas.
Teodora Cardoso é uma crítica dos Governos que tendem a encarar os impostos prioritariamente como fonte de receita e não como instrumentos de fomento do investimento gerador de crescimento e emprego.
“No actual quadro internacional, o papel da fiscalidade como instrumento da política económica numa economia aberta é fundamental”, disse, frisando que “o que está em causa não é a simples alteração de taxas, mas a necessidade de as repensar, estabilizar e simplificar”.
No Brasil, também Marcos Cintra - economista e vice-presidente da Fundação Getúlio Vargas - defende uma revolução tributária através da qual todos os impostos  seriam reduzidos a um único que incidiria sobre todas as transacções monetárias.

Não sei se Teodora Cardoso tem ou não razão. Sei que o sistema tributário actual é passível de numerosas críticas e tem sido uma das causas do fraco nível de investimento. E sei que as opiniões da economista merecem reflexão.
O que me parece serem razões de sobra para não entrar na histeria das críticas que a ideia mereceu e, antes, debruçar-me sobre ela com maior atenção. Depois, sim, poderei emitir a minha opinião.

HSC

Em tempo: Uma visita a alguns blogues permitiu-me apreciar a "qualidade" do debate acerca deste tema. Com efeito, a reacção preponderante foi a de dizer que a senhora já tinha idade para estar em casa a fazer tricot e que só dizia baboseiras porque tinha as abas do Banco de Portugal a protege-la. 
É claro que se fosse um comentário de Mario Soares ninguém o poria a fazer tricot nem sob as asas da sua Fundação... apesar de ele não hesitar em levantar suspeitas sobre quem muito bem lhe apetece e ninguém lhe pôr cobro. Ser homem e ser de esquerda ainda vale muito neste país! 


segunda-feira, 24 de março de 2014

O Homem e a política


"...Por vezes questiono-me até que ponto degenerou a política europeia para termos deixado de ver à nossa volta homens com a envergadura de um Adolfo Suárez. Homens tocados por um sentido de elementar decência que os levam a servir da melhor maneira os concidadãos deixando as nações que governam mais respeitadas, mais dignas e mais livres. E que depois se afastam rumo ao crepúsculo, sem aguardarem honrarias nem esperarem o reconhecimento ou até a mais elementar gratidão dos contemporâneos, apesar de terem deixado a sua marca impressa no destino histórico. Bastando-lhes a convicção da missão cumprida e a certeza de terem contribuído para tornar o mundo um lugar mais habitável."

Pedro Correia in Delito de Opinião

Julgo que este último parágrafo do post de Pedro Correia diz tudo o que eu penso da política dos dias de hoje. Adolfo Suarez personificou bem o que a mais nobre profissão do mundo pode e deve ser. Com falhas, com sucessos e insucessos. Mas com um amor inquestionável ao seu país!

HSC

sábado, 22 de março de 2014

O preço e o valor do trabalho


Se há campo onde a distinção entre "preço" e "valor" se torna essencial, esse campo é, sem qualquer dúvida, o do trabalho. Há muito que penso assim e tenho vários textos publicados sobre este assunto.
Recentemente fui convidada para fazer determinada tarefa para a qual, julgo, estaria habilitada. A conversa com a pessoa que me convidou foi muito agradável, falámos de vários assuntos que interessavam a ambos e, no fim, como sempre a custo, pus a questão da remuneração.
Inteligente, o meu interlocutor disse-me para eu dizer quanto pretendia. Não menos inteligente - falta de modéstia minha - retorqui que quem me convidava é que avaliava o "meu valor", visto que eu só podia dar-lhe o "meu preço" e não me parecia elegante fazê-lo.
Mensagem entendida de ambos os lados, ficou combinado que ele iria falar com quem de direito e me telefonaria com a proposta. Cumpriu.
Porém, os dois conceitos não coincidiram. Ou seja, o meu valor para eles era inferior ao meu preço. Educadamente agradeci e declinei o convite - felizmente ainda me posso dar ao luxo de dizer não - e expliquei que, no dia em que, no mercado onde me movo, se soubesse que tinha aceitado aquela proposta, eu nunca mais teria o mesmo valor. E esse, eu não pretendia - e enquanto puder, não pretendo - reduzir.
Moral da história: a tarefa que me propuseram até me daria muito prazer. Mas entre esse prazer e a minha valorização pessoal, foi esta que eu escolhi. E julgo que fiz bem!

HSC

quinta-feira, 20 de março de 2014

Será possível?!


Um amigo mandou-me esta pérola, publicada em Diário da República, em que se dá conhecimento de que quem falece cessa o contrato de trabalho por "tempo indeterminado".
Mas será que ninguém tem consciência do que faz? É que chega a ser ofensivo para os familiares, tanta falta de senso na prosa utilizada. E será, mesmo, necessário manter esta obrigação de publicar tais notícias?

HSC

Uma França debilitada


Longe vão os tempos de um Hollande vitorioso. Por mais de uma vez aqui chamei a atenção para as contas de um país que há apenas dois anos pretendia dividir com a Alemanha o comando da Europa.
Quer a Comissão Europeia quer a Moody's colocaram a França sob vigilância reforçada, a par da Espanha, da Irlanda e da Hungria. E a mensagem dirigida ao Presidente náo deixa dúvidas: a situação da economia continua a degradar-se, ao contrário da dos outros países da zona euro; todo o adiamento de um deficit de 3%, para além de 2015 do PIB está excluído porque só serviria para postergar as reformas necessárias; se as medidas correctoras decisivas não forem tomadas no quadro do pacto de responsabilidade - em especial no corte das despesas - a França ficará sujeita a sanções a partir do próximo mês de Junho.
De facto a Comissão Europeia  tem vindo a alertar para a aceleração da crise francesa, com destaque para o recuo de competitividade, a quebra das exportações, a subida do custo do trabalho, o aumento do desemprego e o choque fiscal que provocou uma significativa fuga de capitais.
Para 2014 o deficit publico estimado é de 4% e o de 20015 será de 3,9% alimentando uma dívida pública que atingirá os 97,3% do PIB e ultrapassará em 2017 os 100%.
A globalização parece ter entrado numa nova era. Já não são o sul e o norte que se opõem. Hoje o duelo é entre as nações que são capazes de se regenerarem e melhorarem a sua competitividade e aquelas que o não são, o que só vai favorecer os países desenvolvidos. 
Os EUA começam a restabelecer-se com um crescimento de 3% e uma taxa de desemprego de 6%, o que lhes permite normalizar a política monetária e reduzir o deficit público.
A Alemanha recompôs-se do choque com um crescimento próximo dos 2%, o pleno emprego ( taxa de desemprego de 5%) e excedentes comerciais e orçamentais que lhe permitem em 2015 um serviço de redução da dívida pública para 74,5% do PIB. 
O pacto de responsabilidade é a última chance da França se reformar por dentro. Se o não conseguir, as reformas serão feitas do exterior, impostas pelos mercados, pela Comissão Europeia e pela Alemanha.
Hollande, esse homem normal que a França elegeu para Presidente, está metido numa camisa de sete varas mais difícil de despir que qualquer dos seus amores!

HSC

quarta-feira, 19 de março de 2014

Os Pedros


Há famílias onde parece que o fado corre nas veias. Pedro Moutinho e Camané são bons exemplos. Há poetas tão grandes que apetece serem cantados. É o caso de Pedro Tamen. Quando poesia e fado se juntam desta forma, as palavras são de todos nós! 

HSC

O meu Pai

Hoje lembrei o meu Pai, neste dia que a todos é dedicado. Tenho muitas saudades suas e sei agora que muito do que sou se deve a ele, aos seus genes e àquilo que me transmitiu.
Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, a sua juventude não foi fácil, dado que os doze irmãos ficaram sem progenitor numa altura da vida em que ainda nem sequer estavam preparados para ela.
Seria o aviador, o irmão mais velho, que havia de postergar uma série de decisões pessoais para se ocupar da chefia da família. Que outros motivos não tivéssemos, nós, seus descendentes, para nos orgulharmos dele, esta sua atitude bastaria para que lhe dedicássemos o maior apreço.
Agora que o meu tempo se aproxima do dele, relembro valores, princípios, exemplos que nunca mais esqueci. E relembro, sobretudo, o admirável sentido de humor com que resolvia as mais delicadas situações em que se visse, como advogado, envolvido.
Sendo Pai, ensinou-me a ser filha. Mas também a ser mãe, como poucos o teriam feito. Cultivou o meu espírito, deu-me tudo o que considerava essencial ao meu desenvolvimento harmonioso e transmitiu-me essa segurança que tem sido a base da minha história pessoal.
Não era um pai carinhoso. Mas era muito atento e totalmente dedicado aos filhos. Embora eu e o meu irmão mais velho sejamos muito diferentes um do outro, quando estamos juntos, todos se apercebem desse lado que vem do nosso autor e que afinal nos identifica como membros da família cujo apelido transportamos.

HSC