É um hospital onde o silêncio impera. Os corredores impecáveis de limpeza são aqui e ali atravessados por uma enfermeira. As duas portas do quarto só se abrem carregando sucessivamente em dois botões.
Que tem o que todos os quartos de hospital têm. Mas este tem um excesso de vidro e de assepsia. E uns aparelhos digitais ligados ao doente.
No aposento uma mulher aguarda a segunda intervenção do paciente, que ela sabe poder ser fatal. Na cama articulada está aquele que amanhã, daqui a uma hora, daqui a instantes pode já não estar vivo. E que há apenas dois meses lhe dissera que a amava.
Só nestas alturas de perigo imenso é que nos damos conta daquilo que temos.
Com Joana não era assim. Ela sempre soubera a importância do que estava na iminência de perder. Por isso, é que ao olhar aquele corpo quase inerte, via o que nele já não estava, o apogeu físico que ela tão bem conhecera nos seus braços. De que ele, com ternura e humor, sempre se havia vangloriado. E que era real.
Pelos seus olhos passaram imagens de praias, jardins, risos, encontros, temores, prazeres. Jamais discussões, medos, ou inseguranças. Aos seus olhos passaram as imagens da vida de quem está perante a morte. Do amor de quem está prestes a perde-lo. Da espera que separa o ontem do amanhã.
HSC





