quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A espera

É um hospital onde o silêncio impera. Os corredores impecáveis de limpeza são aqui e ali atravessados por uma enfermeira. As duas portas do quarto só se abrem carregando sucessivamente em dois botões.
Que tem o que todos os quartos de hospital têm. Mas este tem um excesso de vidro e de assepsia. E uns aparelhos digitais ligados ao doente. 
No aposento uma mulher aguarda a segunda intervenção do paciente, que ela sabe poder ser fatal. Na cama articulada está aquele que amanhã, daqui a uma hora, daqui a instantes pode já não estar vivo. E que há apenas dois meses lhe dissera que a amava.
Só nestas alturas de perigo imenso é que nos damos conta daquilo que temos. 
Com Joana não era assim. Ela sempre soubera a importância do que estava na iminência de perder. Por isso, é que ao olhar aquele corpo quase inerte, via o que nele já não estava, o apogeu físico que ela tão bem conhecera nos seus braços. De que ele, com ternura e humor, sempre se havia vangloriado. E que era real.
Pelos seus olhos passaram imagens de praias, jardins, risos, encontros, temores, prazeres. Jamais discussões, medos, ou inseguranças. Aos seus olhos passaram as imagens da vida de quem está perante a morte. Do amor de quem está prestes a perde-lo. Da espera que separa o ontem do amanhã.

HSC

Um enorme favor...

Queria pedir aos nossos governantes e à comunicação social um favor. Um pequeno favor, para um mínimo de felicidade nestes próximos quinze dias. Aos primeiros, apenas um salutar silêncio de respeito por este período familiar que se aproxima. Sem votos de Boas Festas de nenhum de vós. Esqueçam-nos e não disfarcem até ao dia 7 de Janeiro. Só para que aqueles que são crentes possam, ainda, celebrar os Reis, nesta República à beira mar plantada.
Aos segundos o que se me apraz solicitar, e sei que muitos me apoiam, é que não façam o governo falar, pondo-lhes perguntas. Não indaguem nada. Façam-nos a gentileza de, nestas duas semanas, os olvidarem. Porque, é sabido, eles não aumentam os shares das televisões, nem as vendas de jornais. Pelo contrário. Assim, se ninguém se lembrar da sua existência, tudo ficará mais sereno.
Eu sei que é um pedido de difícil realização. Mas será que, por uma vez, este povo e este país, não merecem tal presente?!

HSC 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Quais reformas?

“Queixam-se de lhes estarmos a pedir um esforço muito grande”, disse Passos Coelho em Penela, considerando que esses reformados e pensionistas “descontaram para ter reformas, mas não para terem aquelas reformas”.
Quais "aquelas" Senhor Primeiro Ministro? Aquelas cujo valor está acima dos 1350 euros e que o Dr. Passos Coelho considera altas? Ou são aquelas tidas por quase obscenas?
Convinha que o Senhor Primeiro Ministro deste país fosse mais explícito ao tratar destes temas, para que uma grande parte dos portugueses não se sentisse ultrajado com este tipo de afirmações.

HSC

ESTRELA


Que a Tua estrela nos encontre disponíveis
para a viagem
mesmo sem que percebamos tudo

Que o seu brilho nos torne pacientes
com as coisas não resolvidas do nosso coração
e nos ajude a amar as difíceis questões
que por vezes a noite, por vezes o dia
segredam pelo tempo fora

Que a Tua estrela nos faça reconhecer
que nunca é tarde
para que se tornem de novo ágeis e sonhadores
os nossos passos cansados
pois nós próprios nos tornamos em estrelas
quando arriscamos perpetuar
a Tua luz multiplicada

É com esta poesia do padre José Tolentino de Mendonça que desejo a todos que comecem a semana de um pacífico Natal.

HSC
      

Uma certa América...

"....A América é um mundo à parte, ou melhor, são muitos mundos à parte, alguns que rejeitamos profundamente, outros que muito nos seduzem. A América que persiste na pena de morte é a mesma América que elegeu um presidente negro, num país onde, até há escassas décadas, a segregação racial era lei. E, por muito que a América nos faça partilhar os custos de alguns dos erros estratégicos que pratica pelo mundo, essa é a mesma América que, nas praias da Normandia, morreu pela liberdade da Europa - a qual, claro, era também do seu interesse..."


Este excerto foi retirado de um post que o nosso Embaixador em França colocou no seu blogue duas-ou-tres-blogspot.com sobre a trágica matança que se viveu na América.
Por ironia, Newtown, a cidadezinha desta tragédia, foi aquela em que Elia Kazan viveu e filmou o poderoso Os Visitantes e que, como lembra Ferreira Fernandes, não ficará conhecida por alguém com dramas de consciência, como o protagonizado por James Woods naquela película, mas, sim, por mais um imbecil de gatilho fácil.
Também nós, recentemente, na Europa, tivemos um caso de características semelhantes. Mas nos Estados Unidos este tipo de tragédias acontece com demasiada frequência.
Apesar disso o texto que reproduzimos acima, parece-me exemplar na forma como a Europa deve olhar aquele país que, pese embora todos os aspectos negativos que este caso exemplifica, ainda continua a ser o garante de uma certa forma de segurança do Velho Continente.

HSC

AMOR...também é isto!



"Há duas espécies de velhos, os que admiramos por conseguirem avançar nos anos sem perder a elegância e a identidade e os que se degradam, constituindo no seu conjunto uma montra triste, que preferimos ignorar. Infelizmente os que soçobram constituem a maioria, por isso estão em todo o lado, na rua, nos prédios onde habitamos e até dentro das nossas casas. São velhos sem nome (os velhos, quando perdem a identidade, deixam de ter nome e passam a ser apenas "velhos"). Até os que nos estão mais próximos deixam de ser quem foram. Os pais e as mães que sucumbem à doença passam a ser vistos pelos respectivos filhos com olhos de vidro, sem foco. De repente a uma distância enorme, a que vai da vida activa ao mundo frágil e terminal da terceira idade. Quando são por estes lembrados nunca têm o rosto que ostentam mas o antigo, do tempo em que exerciam as suas funções afectivas de acordo com as expectativas.
Senilidade e decrepitude são palavras assustadoras, que cheiram a urina, por isso pensá-las é um exercício que evitamos. Vê-las à nossa frente, com a fisionomia de gente que amamos é uma agressão intolerável. Por isso muitos as fecham em jazigos com médico e serviço de enfermagem permanente.
Em "Amor", Michael Haneke mostra-nos o que acontece às pessoas que perdem o nome. Sempre que sou forçada pela vida ou pela imitação da vida que é o cinema a olhar para onde não quero, lembro-me da inolvidável cena de Malcolm Mcdowell em "Laranja Mecânica", de olhos arreganhados por pinças e preso a uma cadeira a ver cenas intermináveis de sexo para se curar. Neste filme, Haneke também nos obriga à visualização compulsiva da obscenidade que é a perda da autonomia e da dignidade na velhice através do desempenho magistral de Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva. Mas a prova mais difícil de "Amor" tem como figura chave a personagem de Isabelle Huppert, que interpreta a filha do casal idoso. Em entrevista recente o realizador austríaco disse que ficou emocionado quando Huppert aceitou este papel, por ser tão pequeno. De facto são escassas as cenas em que a actriz aparece, mas a sua ausência é parte fundamental do enredo. Huppert somos nós. A indisponibilidade, o egoísmo, a imaturidade, a cobardia e a negação são nossas. E quando já de luto se senta sozinha na casa dos pais, é em nós que se instala o vazio.
Em poucas sessões tenho visto a plateia de uma sala de cinema permanecer sentada, em silêncio, até que as luzes se acendem e a ficha técnica chega ao fim. Não por acaso foi o que aconteceu quando fui ver este "Amor" implacável, inesquecível, de Haneke (onde a nossa Rita Blanco desempenha um pequeno papel), o filme mais premiado no Prémios do Cinema Europeu 2012, distinguido com os galardões de melhor filme europeu, melhor actor e melhor actriz e também vencedor da Palma de Ouro em Cannes, na edição deste ano. A não perder."


Quando as palavras dos outros dizem melhor do que as nossas o que pensamos de alguma coisa, manda a humildade e a inteligência que nos limitemos a dar-lhes a vez e a voz. É o caso deste texto excelente que pertence à Teresa Ribeiro e foi postado no Delito de Opinião.
O que aqui se diz é exactamente aquilo que realizador do filme pretendeu que nós víssemos. E meditássemos. Para nos envergonharmos do modo como tratamos os "nossos velhos" e àquilo a que, por amor, eles podem ser levados a fazer.

HSC

domingo, 16 de dezembro de 2012

O elo da vida

Por norma a casamentos, baptizados e enterros só vou aos meus. Nos dois primeiros já estive presente. Ao terceiro, que venha tarde, também estarei.
Todavia abri duas excepções ultimamente. Numa fui a madrinha e contei-vos aqui como foi gostosa a festa lá em Matosinhos.
A outra deu-se ontem e constituiu a única razão para, neste fim de semana, estar em Lisboa. Casou-se uma das minhas maiores amigas, a Alexandra Abreu Loureiro, que, por sua vez, é filha de um casal que muito estimo. 
Comigo acontece com frequência ter ligações de profundo afecto quer com os pais quer com os filhos. No caso vertente, o pai da noiva, cardiologista, trata do meu coração há mais de vinte e cinco anos e a minha amizade pela filha anda pelas duas décadas. Costumo dizer que não tendo tido filhas nem netas, as coisas bonitas que tenho irão para algumas amigas especiais, entre as quais ela se conta.
A cerimónia religiosa foi lindíssima e a que se lhe seguiu não podia ter decorrido melhor. 
Porque falo disto? Porque, uma vez mais, aquilo que ali senti foi um fortíssimo sentido de família, onde quatro gerações marcaram a sua presença: filhos, pais netos e bisnetos. Nunca consigo deixar de me maravilhar com este elo vital e de me comover com ele. 
Fiquei à direita do pai da noiva e esse gesto foi, muito para além do social, a tradução pública da estima que nos une. Estavam lá convidados que pelas regras da pura etiqueta o mereceriam bem mais do que eu. O facto de ter sido eu a eleita tem a ver com esta dupla amizade que me une aos pais e à filha.
Quando cheguei a casa lembrei-me do que foi a festa do casamento do Miguel, dada por mim e na qual, apesar do divórcio dos pais, o sentimento de unidade familiar fez da ocasião um verdadeiro hino de alegria.
É assim que o tempo passa por nós e pelas pessoas de quem gostamos. Sem qualquer nostalgia, senti que, de algum modo, a alegria da Alexandra era, também, um pouco a minha!

HSC