Há uns largos meses, numa entrevista que me fez Pedro Rolo Duarte, na Antena 1, disse-lhe, a certa altura, que me acompanhava um sentimento estranho que eu classificava como uma forma de medo. Perante o seu espanto, tentei explicar-lhe o que sentia.
Não era um receio definido, objectivo. Era, antes, uma certa forma de insegurança no quotidiano, que se reflectia num vago temor pelo futuro daqueles que aqui deixasse quando partisse e ainda num "medo", esse sim claro, de algum dia não poder garantir os meus proventos e vir a depender materialmente dos meus filhos.
Porquê esta forma de ansiedade, numa otimista inveterada, que ao longo da sua vida pouco ou nada se queixou e que sempre considerou que o custo/benefício da sua existência era fancamente positivo? Não sabia, não sei ainda, responder, apesar de ser uma mulher analisada.
Relembrei, hoje, o que lhe disse então, por ter visto na 1ª página do Público, a notícia de que a confiança dos portugueses teria atingido o seu nível mais baixo desde 1985. É que o medo de perder o trabalho está a minar a confiança dos portugueses.
E eu sei, por experiência própria - ser mãe de dois políticos da oposição, do ponto de vista laboral, só me tem trazido dificuldades acrescidas -, o que representa esse receio. Mais, no meu caso pessoal, não foi só receio. Foi "guia de marcha" para ser substituída. Por alguém que, claro, tinha a filiação partidária adequada...
Felizmente a minha cabecinha funciona bem e as injustiças tornam-me mais forte. Acabei a ganhar com a saída, porque arranjei, de seguida, coisa melhor! Mas nem todos têm a mesma têmpera, nem as mesmas possibilidades. E nem por isso devem ser abandonados à sua sorte. É essa percepção que me leva a estar sempre solidária com os mais fracos!
H.S.C
Análise séria e acutilante, humorada ou entristecida, do Portugal dos nossos dias, da cidadania nacional e do modo como somos governados e conduzidos. Mas também, um local onde se faz o retrato do mundo em que vivemos e que muitos bem gostariam que fosse melhor!
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
As imparidades da CGD...
O Ministro Teixeira dos Santos terá admitido ter conhecimento de que a Caixa Geral dos Depósitos "tinha várias operações que podiam implicar imparidades e que estava a gerir essas situações".
Vejamos um exemplo para se perceber melhor a questão. Um empresário terá entregue à Caixa 9.5% do capital de uma empresa que a instituição havia avaliado a 4,75 euros por acção. Tratava-se de liquidar uma dívida de 305,9 milhões do dito empresário ao banco público.
Mas, há sempre um mas, na altura em que o negócio se fez, as acções valiam em bolsa apenas 3,11 euros, ou seja, haviam sofrido uma depreciação de 25%. Logo, o valor real entregue à CGD seria não de 305,9 mas sim 243,9 milhões de euros, que representavam uma quebra de 62 milhões de euros relativamente ao que o banco dispenderia para comprar em bolsa as mesmas acções. Contudo, o empréstimo foi dado como saldado...
Acontece que o "caso" não fica por aqui. Ao mesmo empresário foi dada a faculdade de recompra dessas mesmas acções, no prazo dos próximos 3 anos, pelo mesmo valor. Ou seja, se as acções vierem a valorizar-se, o empresário compra-as abaixo do seu valor e a CGD não ganha nada.
Se as acções se desvalorizarem o empresário não as recompra e a Caixa "encaixa" a imparidade e aguenta mais essa perda!Por outras palavras, só a Caixa, o banco de todos nós, é que perde ou não ganha, assumindo todo o "risco".
Entretanto, o Presidente da CGD lamenta o facto do negócio se ter tornado público e o Ministro das Finanças gere as imparidades... Melhor não é possível!
H.S.C
Vejamos um exemplo para se perceber melhor a questão. Um empresário terá entregue à Caixa 9.5% do capital de uma empresa que a instituição havia avaliado a 4,75 euros por acção. Tratava-se de liquidar uma dívida de 305,9 milhões do dito empresário ao banco público.
Mas, há sempre um mas, na altura em que o negócio se fez, as acções valiam em bolsa apenas 3,11 euros, ou seja, haviam sofrido uma depreciação de 25%. Logo, o valor real entregue à CGD seria não de 305,9 mas sim 243,9 milhões de euros, que representavam uma quebra de 62 milhões de euros relativamente ao que o banco dispenderia para comprar em bolsa as mesmas acções. Contudo, o empréstimo foi dado como saldado...
Acontece que o "caso" não fica por aqui. Ao mesmo empresário foi dada a faculdade de recompra dessas mesmas acções, no prazo dos próximos 3 anos, pelo mesmo valor. Ou seja, se as acções vierem a valorizar-se, o empresário compra-as abaixo do seu valor e a CGD não ganha nada.
Se as acções se desvalorizarem o empresário não as recompra e a Caixa "encaixa" a imparidade e aguenta mais essa perda!Por outras palavras, só a Caixa, o banco de todos nós, é que perde ou não ganha, assumindo todo o "risco".
Entretanto, o Presidente da CGD lamenta o facto do negócio se ter tornado público e o Ministro das Finanças gere as imparidades... Melhor não é possível!
H.S.C
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Viver
O que mais surpreende na Humanidade?
"Os homens...porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar asaúde. E, por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro. Vivem como se nunca fossem morrer...e morrem como se nunca tivessem vivido"
(Resposta atribuída ao Dalai Lama)
"O lucro, o benefício, o ganho" sempre foram, nas suas diversas manifestações, os fios condutores da humanidade (insisto no h minúsculo), como se eles constituissem o supremo objectivo para que fomos criados. Com efeito, levamos uma vida inteira a trabalhar para os conseguirmos alcançar e morremos por causa dos excessos que para tal cometemos, na maior parte das vezes, completamente inglórios.
Julgo tratar-se de um problema de educação, que nos prepara para tudo menos para ser solidários. Nem mesmo na famosa trilogia revolucionária francesa - liberdade, igualdade, fraternidade - se fala de "solidariedade", muito embora se tente incluí-la no conceito de que todos somos irmãos. Ora ser solidário é bastante mais do que amizade fraterna. Pena é que ainda hoje o não tenhamos compreendido.
No entanto, se nos debruçarmos sobre aquilo que o Homem mais quer, a resposta é sempre a mesma: ser amado. Se assim é, porque nos teremos transformado em máquinas cuja função principal é produzir cada vez mais para depois guardar sem partilhar e até mesmo sem consumir?
É isto que dá à resposta do lider espiritual do povo tibetano tanta actualidade num mundo em que a ganância de uns provocou a desgraça de tantos...
H.S.C
"Os homens...porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar asaúde. E, por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro. Vivem como se nunca fossem morrer...e morrem como se nunca tivessem vivido"
(Resposta atribuída ao Dalai Lama)
"O lucro, o benefício, o ganho" sempre foram, nas suas diversas manifestações, os fios condutores da humanidade (insisto no h minúsculo), como se eles constituissem o supremo objectivo para que fomos criados. Com efeito, levamos uma vida inteira a trabalhar para os conseguirmos alcançar e morremos por causa dos excessos que para tal cometemos, na maior parte das vezes, completamente inglórios.
Julgo tratar-se de um problema de educação, que nos prepara para tudo menos para ser solidários. Nem mesmo na famosa trilogia revolucionária francesa - liberdade, igualdade, fraternidade - se fala de "solidariedade", muito embora se tente incluí-la no conceito de que todos somos irmãos. Ora ser solidário é bastante mais do que amizade fraterna. Pena é que ainda hoje o não tenhamos compreendido.
No entanto, se nos debruçarmos sobre aquilo que o Homem mais quer, a resposta é sempre a mesma: ser amado. Se assim é, porque nos teremos transformado em máquinas cuja função principal é produzir cada vez mais para depois guardar sem partilhar e até mesmo sem consumir?
É isto que dá à resposta do lider espiritual do povo tibetano tanta actualidade num mundo em que a ganância de uns provocou a desgraça de tantos...
H.S.C
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Vicky Cristina
Confesso já que sou iberista para que compreendam melhor o que escrevo. Corre-me nas veias, pelo lado materno, "sangre de españa", que não escondo nem renego e por vezes se manifesta em querelas políticas familiares. Mas cada um aqui em casa pensa livremente e não seria esta pequena diferença que nos abalaria. Pelo contrário, dá mais sal às nossas divergências nacionalistas. É que antes de ser europeia, muito antes mesmo, sou portuguesa, pese embora o politicamente incorrecto da situação! O mesmo se passa com o acordo ortográfico, que só obrigada, cumprirei...
Vicky Cristina é, a meu ver, uma obra maior de Woody Allen. Os protagonistas, Penélope Cruz e Javier Bardem, são os espanhóis que faltavam a um filme que fala de amores difíceis e duma cidade maravilhosa como Barcelona.
O realizador sempre se ocupou deste tema, que sabe como ninguém, satirizar. Mais apreciado na Europa do que na "sua" América, que lhe perdoa mal, entre outras coisas, o facto de ser judeu, Woody consegue explicar como se alimenta um amor que renasce quando vive a três e fenece enquanto dupla. O assunto não é fácil e no imaginário de muitos de nós está longe de ser apenas virtual...
A crítica não apreciou muito este triunvirato. Ignoro se por motivos morais ou outros. Quaisquer que tenham sido as razões, pessoalmente discordo da menorização da fita. Para os apreciadores do estilo Allen, Vicky é uma lufada de ar fresco nesta Europa cinzenta e infeliz!
Só por isso já valeria a pena ir vê-lo. Mas há, felizmente, muito mais. E há, sobretudo, Javier Bardem, que lava a alma feminina e a leva a sonhar que ainda existe esse tesouro perdido que se chama "latin lover".
H.S.C
Vicky Cristina é, a meu ver, uma obra maior de Woody Allen. Os protagonistas, Penélope Cruz e Javier Bardem, são os espanhóis que faltavam a um filme que fala de amores difíceis e duma cidade maravilhosa como Barcelona.
O realizador sempre se ocupou deste tema, que sabe como ninguém, satirizar. Mais apreciado na Europa do que na "sua" América, que lhe perdoa mal, entre outras coisas, o facto de ser judeu, Woody consegue explicar como se alimenta um amor que renasce quando vive a três e fenece enquanto dupla. O assunto não é fácil e no imaginário de muitos de nós está longe de ser apenas virtual...
A crítica não apreciou muito este triunvirato. Ignoro se por motivos morais ou outros. Quaisquer que tenham sido as razões, pessoalmente discordo da menorização da fita. Para os apreciadores do estilo Allen, Vicky é uma lufada de ar fresco nesta Europa cinzenta e infeliz!
Só por isso já valeria a pena ir vê-lo. Mas há, felizmente, muito mais. E há, sobretudo, Javier Bardem, que lava a alma feminina e a leva a sonhar que ainda existe esse tesouro perdido que se chama "latin lover".
H.S.C
Duas coisas...
Hoje apenas duas notas. A primeira para os Óscares que premiaram um filme e um actor aqui já referidos nestas cónicas. Trata-se de "Quem quer ser bilionário?" e desse fabuloso Sean Penn, em Milk, que ontem ganhou a sua segunda estátua dourada. Ambos prémios justos e difíceis de atribuir entre obras e gente de grande qualidade. Fiquei satisfeita.
Sobrou Penelope Cruz que protagoniza o maravilhoso filme de Woody Allen, Vicky Cristina. Não aprecio muito a actriz. Mas o realizador e Bardem são capazes de transformar pedra em platina... O último constitui, mesmo, o que se chama "um bocado de mau caminho"!
A segunda nota vai para um jovem blogue de autoria de um homem particularmente culto e competente na sua profissão. Trata-se do nosso Embaixador em Paris, Francisco Seixas da Costa.
Sou, habitualmente, parca em elogios públicos. Mas, neste caso, são mais do que merecidos. Sigo, há bastante tempo, a carreira deste diplomata, a quem ousei escrever enquanto nos representou no Brasil, dando voz ao orgulho que sentia por haver alguém que defendia, com brio, a cultura nacional.
Em boa hora decidiu Seixas da Costa entrar na blogosfera. Fê -lo, uma vez mais, com a qualidade a que nos habituou, numa discreta mistura de intimismo e divulgação, que me levam a seguir atentamente tudo o que se lá escreve. Aconselho vivamente os que me lêm a espreitarem o duas-ou-tres.blogspot.com e a deliciarem-se com os seus textos.
Em boa hora decidiu Seixas da Costa entrar na blogosfera. Fê -lo, uma vez mais, com a qualidade a que nos habituou, numa discreta mistura de intimismo e divulgação, que me levam a seguir atentamente tudo o que se lá escreve. Aconselho vivamente os que me lêm a espreitarem o duas-ou-tres.blogspot.com e a deliciarem-se com os seus textos.
Não pertenço ao que se costuma chamar a "família política" de Seixas da Costa. Por isso o meu conselho tem mais valor. É que, para mim, cultura e sensibilidade não têm filiação!
H.S.C
domingo, 22 de fevereiro de 2009
Quem quer ser bilionário?
Passo meses a fio sem ir ao cinema. Depois, bom, depois entro numa espiral e vou ver quatro ou cinco filmes de uma vez. Quando era mais nova gostava de fazer duas sessões seguidas. Começava na das nove e meia e pegava-lhe a das onze. O mundo era mais tranquilo nessa época e ninguém tinha medo de andar de carro à noite. Hoje continuo a gostar de fazer o mesmo, mas já não me aventuro a voltar sozinha para casa de madrugada ...
Neste pacato Domingo que antecede o Carnaval decidi ir ver o "Quem quer ser bilionário?", um filme britânico, muito violento, que decorre em Mombay, na India, e que, uma vez mais, fala de discriminação. Numa India que, hoje, é em simultâneo, um dos maiores centros financeiros e um dos maiores aglomerados de miséria humana.
O ritmo da obra é alucinante, mostrando esse lado miserável sem qualquer complacência. Parece que as autoridades do país não terão gostado especialmente do retrato feito pelo realizador. Mas para nós europeus é a chance de conhecer uma realidade que nos devia fazer acordar para a profunda injustiça que existe no mundo actual. Na India dos marajás talvez estas imagens não chocassem tanto. Mas, na época das democracias, como pode manter-se uma tão desigual distribuição da riqueza?
Num só fim de semana duas fitas falam de duas faces duma mesma realidade: a intolerância e a miséria. Não sei dizer qual é pior. Sei apenas que, afinal, muitos de nós, eu incluída, nos queixamos "de barriga cheia". Dá que pensar...
H.S.C
Neste pacato Domingo que antecede o Carnaval decidi ir ver o "Quem quer ser bilionário?", um filme britânico, muito violento, que decorre em Mombay, na India, e que, uma vez mais, fala de discriminação. Numa India que, hoje, é em simultâneo, um dos maiores centros financeiros e um dos maiores aglomerados de miséria humana.
O ritmo da obra é alucinante, mostrando esse lado miserável sem qualquer complacência. Parece que as autoridades do país não terão gostado especialmente do retrato feito pelo realizador. Mas para nós europeus é a chance de conhecer uma realidade que nos devia fazer acordar para a profunda injustiça que existe no mundo actual. Na India dos marajás talvez estas imagens não chocassem tanto. Mas, na época das democracias, como pode manter-se uma tão desigual distribuição da riqueza?
Num só fim de semana duas fitas falam de duas faces duma mesma realidade: a intolerância e a miséria. Não sei dizer qual é pior. Sei apenas que, afinal, muitos de nós, eu incluída, nos queixamos "de barriga cheia". Dá que pensar...
H.S.C
sábado, 21 de fevereiro de 2009
Milk
É sábado. Acabo de ver o filme Milk. E de levar um verdadeiro murro no estômago perante uma história que conhecia vagamente, porque vivi aquela época e a luta das minorias sempre me interessou.
Confesso que nas primeiras cenas me senti vagamente incomodada. Pelo que via e pela minha própria reacção. Considero-me uma criatura com um razoável grau de abertura e com muito poucos preconceitos. Mas fui educada numa sociedade muito intolerante e, de vez em quando, vêm ao de cima uns resquícios dessa educação. O que me entristece bastante.
Foram esses tais vestígios que no princípio da fita foram despoletados. Felizmente que a qualidade da obra e a magnífica interpretação de Sean Pen rapidamente calaram a reticência inicial.
Trata-se de uma película a não perder. Porque se nos esclarece sobre a luta dos homosexuais, também nos intrui sobre nós próprios. E diz-nos muito sobre o caminho que eles e aqueles que o não são conseguiram percorrer.
Há uma década, comentários eventualmente jocosos não surpreenderiam. Hoje, o silêncio que pairava na sala era revelador do percurso feito. E a emoção que eu senti perante o sofrimento de tantos homens e mulheres deu-me bem a medida do que, afinal, eu também aprendi!
É uma película fundamental para ficar a saber alguma coisa sobre o que significa ser diferente!
H.S.C
Confesso que nas primeiras cenas me senti vagamente incomodada. Pelo que via e pela minha própria reacção. Considero-me uma criatura com um razoável grau de abertura e com muito poucos preconceitos. Mas fui educada numa sociedade muito intolerante e, de vez em quando, vêm ao de cima uns resquícios dessa educação. O que me entristece bastante.
Foram esses tais vestígios que no princípio da fita foram despoletados. Felizmente que a qualidade da obra e a magnífica interpretação de Sean Pen rapidamente calaram a reticência inicial.
Trata-se de uma película a não perder. Porque se nos esclarece sobre a luta dos homosexuais, também nos intrui sobre nós próprios. E diz-nos muito sobre o caminho que eles e aqueles que o não são conseguiram percorrer.
Há uma década, comentários eventualmente jocosos não surpreenderiam. Hoje, o silêncio que pairava na sala era revelador do percurso feito. E a emoção que eu senti perante o sofrimento de tantos homens e mulheres deu-me bem a medida do que, afinal, eu também aprendi!
É uma película fundamental para ficar a saber alguma coisa sobre o que significa ser diferente!
H.S.C
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