Análise séria e acutilante, humorada ou entristecida, do Portugal dos nossos dias, da cidadania nacional e do modo como somos governados e conduzidos. Mas também, um local onde se faz o retrato do mundo em que vivemos e que muitos bem gostariam que fosse melhor!
segunda-feira, 20 de abril de 2026
O nosso Coração
VER E OLHAR
Ver e olhar parecem sinónimos, mas carregam diferenças imensas
entre si. Olhar é um gesto — rápido, automático, quase sempre superficial. É o
movimento dos olhos que percorrem o mundo sem necessariamente o tocarem. Já ver
é um acontecimento. Exige presença, silêncio interior e, sobretudo, disposição
para ser afetado.
Olhar é atravessar uma paisagem; ver é permitir que a
paisagem o atravesse a si.
No quotidiano apressado, olhamos mais do que vemos. Olhamos
rostos sem perceber histórias, olhamos o céu sem notar as suas nuances, olhamos
pessoas sem realmente as encontrar. O olhar capta imagens; a visão constrói
sentido. Por isso, ver é mais raro — e mais transformador.
Ver implica atenção. Não apenas a atenção que foca, mas
aquela que se abre. Dá-se quando
deixamos de projetar expectativas e começamos a receber o que está diante de
nós como é. Nesse momento, o mundo deixa de ser cenário e passa a ser presença.
E nós deixamos de ser observadores distantes, para nos tornarmos participantes.
Há também uma dimensão ética no ver. Quando vemos alguém de
verdade, reconhecemos a sua existência, a sua complexidade, a sua dignidade.
Olhar pode reduzir; ver amplia. Olhar pode objetificar; ver humaniza.
Talvez por isso ver seja, em certa medida, um ato de coragem.
Porque ao ver, não permanecemos intactos. Algo em nós precisa ceder — uma
certeza, um preconceito, uma distração constante. Ver exige vulnerabilidade: é
admitir que o mundo pode nos ensinar algo novo.
No fim, a diferença é simples mas profunda: olhar é passar;
ver é permanecer.
sábado, 18 de abril de 2026
AMAR VIVALDI
É dos compositores que mais me toca. Há dias, em casa de um
amigo, a noite foi dedicada ao músico. Trata-se de um pequeno grupo, ao qual
pertenço, e que se reúne mensalmente, para ouvir um compositor.
A música de Vivaldi não soa distante nem solene, como às
vezes imaginamos o barroco. Pelo contrário — há nela algo de direto, quase
humano, como se falasse connosco, sem precisar de tradução.
Quando ouvimos As Quatro Estações, por exemplo, não estamos
apenas a escutar uma obra estruturada com rigor. Estamos a entrar num mundo
sensorial: o frio corta, os pássaros agitam-se, a chuva aproxima-se. Vivaldi
não descreve — ele sugere, evoca, faz sentir. E, talvez seja isso, que torna a
sua linguagem tão especial: ela não se impõe, convida.
Há também uma espécie de urgência na sua música. Os ritmos
avançam como se não quisessem parar, como se cada compasso tivesse algo a dizer
antes que o tempo acabe. Mas, no meio dessa energia, surgem momentos de
suspensão — linhas melódicas simples, quase frágeis, que parecem respirar. É
nesses instantes que sentimos mais claramente o lado íntimo da sua escrita.
Sendo violinista, Vivaldi escreve para o instrumento como
quem conhece profundamente a sua voz. O violino, nas suas mãos, não é apenas
virtuoso; é expressivo, quase humano. Ora corre, ora canta, ora hesita. Há uma
proximidade aí, como se estivéssemos a ouvir alguém contar-nos algo pessoal,
ainda que sem palavras.
Talvez a linguagem de Vivaldi seja, no fundo, um equilíbrio
entre ordem e emoção. Há estrutura, repetição, lógica — mas tudo isso serve um
propósito maior: comunicar sensação, criar presença, tocar quem ouve.
quarta-feira, 15 de abril de 2026
NA ÉPOCA DOS IMPOSTOS
Falo por mim, mas julgo que, no fundo, ninguém gosta de pagar
impostos, porque mexe com algo muito básico: aquilo é o nosso dinheiro. Foi
ganho com tempo, esforço, às vezes até com sacrifício… e, de repente, uma parte
desaparece antes sequer de passar pelas nossas mãos. Não é uma escolha, não é
opcional — é imposto. E só essa ideia já causa resistência.
Depois há aquela sensação meio irritante de não saber bem
para onde vai. Sabe-se que, em teoria, está a financiar coisas importantes —
hospitais, escolas, estradas — mas no dia a dia, nada disso é assim tão
visível. O que se sente é mais o que sai, do que o que volta.
E também pesa a confiança. Quando há notícias de má gestão ou
desperdício, mesmo que não seja tudo assim, fica a insidiosa dúvida: “estou a
contribuir para algo que funciona… ou só a alimentar um sistema ineficiente?”
Isto corrói um bocado a aceitação.
Ao mesmo tempo, há um certo conflito interno. Porque, sendo
honestos, todos queremos viver num sítio com serviços públicos a funcionar,
segurança, apoio quando é preciso. Só que ninguém gosta muito da parte de pagar
por isso — especialmente quando algo, parece pouco transparente ou injusto.
No fim, talvez não seja tanto o “odiar impostos”, mas mais
uma mistura de perda, falta de controlo e alguma desconfiança. E isso é uma
combinação difícil de engolir. Muito difícil mesmo!
sexta-feira, 10 de abril de 2026
O PRIMEIRO BANHO DE PRIMAVERA
A manhã chegou com aquela luz diferente — mais dourada, mais
inclinada, como se o sol tivesse mudado de ideia sobre o ângulo certo para
acordar o mundo. Era o primeiro dia que o calor pedia pele descoberta, e o rio
lá em baixo parecia saber disso.
A água ainda guardava o frio de fevereiro nas camadas mais
fundas, mas a superfície já se tinha rendido. Espelhava o azul de um céu sem
nuvens e os ramos novos das árvores, que esticavam os primeiros verdes como
dedos depois de um longo sono.
Entrar foi um ritual sem liturgia. Primeiro os pés — o
choque, o riso involuntário, a vontade de recuar e a decisão de não recuar.
Depois os tornozelos, os joelhos, e o momento de suspensão antes da entrega
total. O mergulho.
Debaixo d'água, o mundo ficou quieto de um modo que só a água
consegue. O frio apertou o peito como um abraço brusco de quem tem saudades. E
então o corpo aceitou. A pele começou a perceber que aquilo não era agressão —
era presença.
Quando a cabeça emergiu, havia algo diferente no ar. Não no
ar, em si mas no modo de respirá-lo. Mais fundo. Mais atento. Como se o banho
tivesse lavado também qualquer coisa por dentro, algum resíduo de inverno que
nem se sabia que ainda estava lá.
A Primavera não começa no calendário. Começa quando se entra
nessa água pela primeira vez e se percebe, com todo o corpo, que o mundo voltou
a querer ser habitado.
domingo, 5 de abril de 2026
Viver feliz, apesar da guerra
Viver feliz em tempos de guerra — mesmo quando ela acontece
longe — não é ignorar a dor do mundo. É escolher, conscientemente, não deixar
que o medo ocupe todos os espaços da vida.
A guerra chega-nos pelas notícias, pelas imagens repetidas,
pelos números que parecem impossíveis. Conflitos como o da Ucrânia lembram-nos
que a estabilidade é frágil. Há sofrimento real, perdas irreparáveis, vidas
suspensas. E, ainda assim, aqui, longe das bombas, o sol continua a nascer. As
crianças continuam a rir. O café da manhã continua a ter o mesmo cheiro.
Ser feliz apesar da guerra é um ato quase silencioso de
resistência. É permitir-se celebrar aniversários, fazer planos, amar, aprender
algo novo. Não por indiferença, mas porque a vida não pode ser totalmente
sequestrada pelo horror.
Existe uma culpa subtil que às vezes acompanha essa
felicidade — como se sorrir fosse desrespeitar quem sofre. Mas a felicidade não
é traição; é preservação. Cuidar da própria saúde mental, manter vínculos,
cultivar esperança são formas de não deixar que a violência se expanda para
além das fronteiras físicas.
Também há outra dimensão: a felicidade pode tornar-se
compromisso. Informar-se sem se afogar, ajudar quando possível, praticar
empatia sem perder o equilíbrio. Viver bem, pode ser uma forma de honrar a paz
que ainda se tem.
A guerra ensina, de maneira dura, que nada é garantido.
Talvez por isso a felicidade, nesses tempos, deixe de ser superficial. Torna-se
mais consciente, mais grata, mais atenta aos pequenos detalhes: uma conversa
tranquila, um abraço demorado, uma noite silenciosa.
Viver feliz apesar da guerra é aceitar que o mundo contém luz
e sombra ao mesmo tempo — e escolher, todos os dias, alimentar a luz sem fechar
os olhos à realidade.
sexta-feira, 3 de abril de 2026
A ALELUIA
O Sábado de Aleluia é um dia profundamente simbólico
dentro da tradição cristã, situado entre a dor da Sexta-feira Santa e a alegria
da Domingo de Páscoa. É um tempo de silêncio, espera e esperança. Não há celebrações festivas, não há glória
visível — apenas a quietude de quem aguarda.
É o dia em que a fé é posta à prova, quando tudo parece
perdido. No entanto, é precisamente nesse vazio que nasce a esperança. O
silêncio deste sábado não é ausência, mas preparação. É como a semente que,
escondida na terra, germina sem ser vista.
O Sábado de Aleluia ensina-nos que nem sempre entendemos os
tempos da vida. Há momentos em que tudo parece parado, sem resposta ou direção.
Mas é nesses intervalos que algo novo está a ser preparado.
Assim, este dia convida-nos a confiar, mesmo sem ver. A
acreditar que, depois da dor, vem a renovação. Porque o silêncio nunca é o fim
— é apenas o começo de uma nova vida que está prestes a surgir.
Curiosamente, este sábado sempre me pareceu o dia mais
estranho e, ao mesmo tempo, o mais verdadeiro de todos. Não tem a dor intensa
da Sexta-feira Santa, nem a alegria luminosa do Domingo de Páscoa. É um dia
suspenso… como aqueles momentos da vida em que não sabemos bem o que sentir.
Gosto de pensar que, neste dia, até a esperança fala mais
baixo. Depois de tudo o que aconteceu com Jesus Cristo, imagino o vazio, a
confusão, o silêncio. E, de certa forma, reconheço-me nisso. Quantas vezes já
estive nesse “sábado” interior? À espera de respostas, de sinais, de sentido…
O Sábado de Aleluia ensina-me a aceitar esses momentos sem
pressa. A não fugir do silêncio. A perceber que nem tudo precisa de ser
resolvido imediatamente. Há coisas que só fazem sentido depois, quando a
“Páscoa” chega à nossa vida.
Hoje, tento viver este dia assim: mais calmo, mais atento,
mais verdadeiro. Sem forçar alegria, mas também sem perder a esperança. Porque,
mesmo quando tudo parece parado, acredito que algo está a nascer — mesmo que
ainda não consiga ver.
quinta-feira, 2 de abril de 2026
PÁSCOA CRISTÃ
A Páscoa cristã é uma das celebrações mais importantes do
calendário religioso, pois comemora a ressurreição de Jesus Cristo,
acontecimento central da fé cristã. De acordo com a tradição bíblica, Jesus foi
crucificado na Sexta-feira Santa e ressuscitou ao terceiro dia, no Domingo de
Páscoa, simbolizando a vitória da vida sobre a morte e a esperança de salvação
para a humanidade.
Mais do que um simples evento histórico ou religioso, a
Páscoa representa uma mensagem profunda de renovação, perdão e amor. Para os
cristãos, este período é um convite à reflexão sobre a própria vida,
incentivando a prática da solidariedade, da fé e da reconciliação com Deus e
com o próximo.
A celebração da Páscoa é precedida pela Quaresma, um tempo de
preparação marcado por oração, jejum e penitência. Durante a Semana Santa, os
fiéis recordam os últimos momentos da vida de Jesus, desde a sua entrada em
Jerusalém até à crucificação e, finalmente, à ressurreição.
Além do seu significado religioso, a Páscoa também é
associada a tradições culturais, como a partilha de refeições em família e
símbolos como os ovos, que representam vida nova e renascimento. No entanto,
para os cristãos, o verdadeiro sentido da Páscoa está na renovação espiritual e
na celebração da esperança que nasce com a ressurreição de Cristo.
quarta-feira, 1 de abril de 2026
A CONCAVIDADE DO SILÊNCIO
Hoje li um texto com este título do jesuíta padre Marco
António e apeteceu-me pegar no conceito e, decerto, com menos espiritualidade,
explicar como o vejo e sinto.
A concavidade do silêncio não é apenas ausência de som; é um
espaço que se curva para dentro, como se o mundo, cansado de se expandir,
decidisse, por um instante, recolher-se em si mesmo. Nesse recuo, o silêncio
não se limita a calar ruídos — ele molda uma espécie de arquitetura invisível,
onde o pensamento ecoa com mais nitidez, onde cada sensação ganha contornos
mais densos.
Há silêncios que são planos, superficiais, como paredes lisas
onde nada se fixa. Mas a concavidade do silêncio é diferente: ela acolhe. É uma
cavidade que recebe o que foi dito e o que nunca chegou a ser pronunciado,
guardando fragmentos de intenções, memórias e afetos. Nesse espaço curvo, o som
não desaparece; ele se transforma, torna-se ressonância íntima, quase um
sussurro interno, que só pode ser ouvido por quem se dispõe a escutar além da
superfície.
Talvez seja por isso que o silêncio profundo cause
desconforto em alguns. Porque ao entrar nessa concavidade, não encontramos o
vazio, mas uma amplificação do que carregamos. O silêncio devolve, em forma de
eco, aquilo que tentamos dispersar no ruído quotidiano. Ele não julga, mas
também não suaviza. Apenas revela.
E, ainda assim, há uma estranha ternura nesse movimento. A
concavidade protege. Como um abrigo escavado na matéria do tempo, ela permite
que o ser repouse sem a urgência da resposta, sem a necessidade de preencher
cada intervalo com palavras. Nesse espaço, existir é suficiente.
No fim, talvez o silêncio não seja o oposto do som, mas sua
profundidade mais íntima — o lugar onde tudo o que poderia ser dito permanece
em estado de possibilidade, suspenso, esperando não necessariamente por voz,
mas por compreensão.