segunda-feira, 6 de abril de 2015

Página de um diário (5)

Um diário serve para fazer a catarse daquilo que nos apoquenta. E eu hoje estou apoquentada com a Joana. Almoçámos e senti-a triste. Mas o que me preocupa é a razão da sua tristeza. 
Chegara à conclusão de que só tinha cometido erros. Quando lhe perguntei a que é que se referia contou-me que se, por acaso, os seus três maridos se encontrassem para falar dela, nenhum deles a reconheceria. Perante a minha surpresa explicou-me que no seu primeiro casamento se tinha enganado sobre quem era o João e que este se tinha enganado sobre quem ela era. Percebera, quando se divorciara, que decerto, uma parte deste engano, adviera de pistas falsas que involuntariamente haveria dado.
Meditando sobre isto decidira que, num novo casamento, não cometeria os mesmos erros. Encontrou o Tiago e casou. Mas de novo se divorciou. E, agora, porque a mulher por quem este se apaixonara era aquela que ela havia deixado de ser.
Finalmente decidiu ser ela própria. E encontrou o Manuel. Apesar da sua profissão o levar a ausências regulares que lhe eram dolorosas, a verdade é que, apesar disso ou por causa disso, eram felizes e Joana sentia-se compensada. Até ao dia em que descobriu... que o Manuel era igualmente feliz com a sua outra família a residir no Porto.
De facto, o que é que se pode dizer a alguém, depois de ouvir uma história destas? Eu só consegui dizer-lhe que, pelo menos, ela tinha três histórias para contar. É pouco e fraco consolo, mas há quem nunca tenha vivido sequer uma...

HSC 

Página de um diário (4)

Aveiro, 1 de Abril de 2015

Apareceu-me sem ser esperada, como é seu hábito quando se encontra aflita. Atabalhoada, contou-me que o Francisco, seu ex-marido, queria voltar para casa, ao fim de cinco anos de total ausência física ou apoio material. Ela estava indecisa e eu fiquei estupefacta perante a sua indecisão.
Lembrei-lhe os dez anos em que, sem falhas, ela me ia contando as aventuras maritais, as mentiras sucessivas, os abusos financeiros, enfim, as faltas de respeito. Lembrei-lhe as razões que a tinham levado a divorciar-se e a serenidade que depois parecia ter encontrado.
Ela não me ouvia, seduzida que estava pelo fado do “quero voltar para casa, é de ti que afinal gosto”. Recordei-lhe que cinco anos era tempo demais para chegar a uma tal decisão, mas percebi que ela não queria um conselho, queria apenas que eu a ouvisse.
Horas depois, quando já me preparava para jantar, bateram-me à porta. Julguei que fosse ela de novo. Enganei-me.
Era o Francisco com a última namorada conhecida. Devo ter feito cara de grande espanto, porque ele se desculpou de me não ter avisado antes da sua vinda.
Mas vinha por uma boa causa: gostava que eu fosse madrinha do seu futuro casamento...

HSC

Pessoas de quem eu gosto:Tolentino de Mendonça (8)


Acredito que nada na vida acontece por acaso. Há sempre uma qualquer razão que dita que encontremos certas pessoas. No caso do Padre Tolentino de Mendonça o acaso que me levou até ele foi a dor com a morte de um filho. Nada mais dramático para me aproximar de alguém.
Há muito que conhecia a sua escrita e desejava poder falar-lhe. Mas todos me diziam que o seu tempo disponível era muito escasso e, por isso, nem sequer tentava. Até que...a perda do Miguel me deu a coragem de o procurar e de pôr nas suas mãos as dificuldades pelas quais estava a passar.
Quando não se tem à nascença a dádiva da fé, como foi o meu caso, é preciso ir à luta para a encontrar. Foi o que sempre fiz desde que, aos 20 anos, escolhi baptizar-me. Desde então, essa busca jamais me abandonou. 
Eu não queria que o desaparecimento do Miguel fragilizasse a força de que carecia para continuar a viver e que ele sempre me pedira que jamais perdesse.
Foi assim, neste estado de espírito e completamente desarmada, que o procurei. Ninguém, naquela altura me poderia ter ajudado mais. Não com sermões - nunca mos deu - mas ouvindo-me sem me julgar e lançando as sementes que o tempo havia de fazer frutificar. 
Irão passar neste mês de Abril três anos sobre a nossa primeira conversa. Três longos anos em que a minha alma se foi da morte libertando. Não sei, ainda hoje, como teriam sido estes 1095 dias sem a sua ajuda. Mas sei que é por causa deles que estimo tanto o Padre Tolentino!

HSC

domingo, 5 de abril de 2015

Pessoas de quem eu gosto: Isabel Galriça Neto (7)



Já aqui tenho falado dela a propósito do seu apaixonado empenho no desenvolvimento de uma rede de Cuidados Paliativos no nosso país. É a luta da sua vida e, seja o que for que venha a fazer-se nessa área, não deixará de ter a sua marca.
A Isabel é médica e tenho-a como a minha outra anja, com a vantagem de serem ambas de carne e osso. Também neste caso não sei quando nem como a conheci, porque antes de isso acontecer, eu já tinha ouvido falar dela muitas vezes.
Costumo dizer que se tivesse uma irmã gostaria que fosse como ela, possuísse a doçura do seu olhar e o amor pelo próximo que sempre lhe reconheci. 
A nossa amizade, tipicamente fraterna toma, contudo, em certas ocasiões, a forma da mãe e filha, cujos lugares se alternam consoante os temas que abordamos. 
Não estamos juntas muitas vezes, mas quando isso acontece, os nossos jantares demoram horas e na altura de nos separarmos ficou sempre muito por dizer. Tê-la como amiga é uma dádiva que me não canso de agradecer!

HSC

sexta-feira, 3 de abril de 2015

A Paixão segundo S. Mateus


HSC

Deus feito homem!


"A mensagem arrebatadora do Evangelho - e aquela que resume toda a essência do cristianismo - é a de um Deus que assume a plenitude da condição humana. Com os seus luminosos momentos de alegria, os seus lampejos de júbilo, as suas inevitáveis dores, a sua irrenunciável agonia. Como se a missão do criador ficasse incompleta sem esta experiência radical de abraçar por inteiro o ser débil, indeciso e angustiado que o barro divino moldou.
Até ao fim dos séculos, Jesus será inseparável da circunstância deste percurso terreno em que voluntariamente se irmana ao mais comum dos homens. Nasce pobre, numa gruta. Enaltece os humildes. Elege simples trabalhadores como discípulos. Rejeita sem vacilar o ilusório fulgor dos bens materiais. Perdoa os pecadores: «Eu não vim para condenar o mundo, mas para o salvar.» (João, 12-47). Enfrenta os fariseus com palavras tão actuais na manhã de hoje como há dois mil anos: «Vós, os fariseus, limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e de maldade.» (Lucas, 11-39). E não hesita em dar a mais humana das interpretações à pétrea Lei de Moisés: «O sábado foi feito por causa do homem e não o homem por causa do sábado.» (Marcos, 2-27).
Condenado sem apelo nem recurso, renegado pelos seus, vilipendiado pela multidão que aclama Barrabás, confrontado perante a prepotência de Caifás e a cobardia moral de Pilatos, crucificado entre dois salteadores como um delinquente pelo crime de blasfémia. Deus feito homem num mundo de homens que sonham ser deuses.
Pouco antes confessara aos discípulos em Getsemani que sentia «uma tristeza de morte». E ali mesmo implora numa prece que poderia brotar da voz interior de qualquer de nós: «Pai, tudo Te é possível, afasta de Mim este cálice!» (Marcos, 14-36).
Um cálice que, no entanto, beberá até ao fim. Imerso na condição humana da gruta à cruz."

Este texto lindíssimo é do Pedro Correia e foi postado no Delito de Opinião. Gostava muito que ele pudesse ter saído das minhas mãos, mas a tanto não cheguei.
Todavia, a tristeza profunda que sentem os católicos nesta sexta feira da Paixão, está nele tão bem retratada que me permiti partilhá-la aqui convosco!

HSC

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Silva Lopes


Quando toda a gente fala da morte de Manoel de Oliveira, eu venho aqui lembrar Silva Lopes que hoje faleceu e a quem me ligam sentidos laços de afecto. Devo-lhe alguns passos importantes da minha vida profissional.
Depois de Jacinto Nunes com quem comecei a minha carreira, Silva lopes foi quem se lhe seguiu. Trabalhámos juntos em várias ocasiões. Foi meu colega em 1957 no Ministério da Economia e seria meu governador no Banco de Portugal, no difícil período que medeou entre 1980 e 1985. 
Era um homem de enormes qualidades humanas e um profundo conhecedor das questões económicas e financeiras do nosso país. Arriscaria mesmo dizer que seria um dos melhores economistas portugueses. Muito do pouco que sei foi aprendido com ele, pelo que a sua morte me entristece profundamente.

HSC