segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

O PAI DA CLARA

Não, não venho falar de Clara Pinto Correia. Já muitos, antes de mim, o fizeram e com mais conhecimento de causa do que eu, que pouco a conheci. Venho falar de um homem que era meu amigo, salvou a minha vida e era pai da Clara. Venho falar do Professor José Pinto Correia, consensualmente aclamado como um dos maiores vultos da Gastroenterologia nacional e internacional, e que deixou pegadas demasiado marcadas para que o tempo o consiga apagar. Foi das melhores mais brilhantes pessoas que conheci. E que, enquanto viveu foi o médico que sempre me acompanhou.

Conhecemo-nos numa reunião da então JUC – Juventude Universitária Católica- e a partir daí, foram várias as razões que nos juntaram, para além da saúde. Havia um lado de humor e até de diversão nele, que só os mais próximos sabiam.

Conheci, assim, os pais muito antes das filhas. Mas a existência delas, sentia-se nos pais que conheci. Havia neles um amor repartido, treinado na partilha, um cuidado que sabia multiplicar-se sem perder profundidade. Não falavam de uma filha só, mas de um pequeno mundo construído a várias vozes.

Nos gestos, via-se a experiência de quem criou mais do que uma vida: a paciência, a atenção ao detalhe, a capacidade de ouvir. Clara vinha desse espaço cheio, onde ninguém cresce sozinho, onde se aprende cedo a existir com o outro ao lado.

Ao conhecer os pais, percebi que Clara — e as irmãs — eram fruto desse equilíbrio discreto: um amor firme, silencioso, que não distingue para diminuir, mas que sustenta todas por igual.

 

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