sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Igreja: Inveja e Misericordia (27)


Inveja e misericórdia na sempre atual parábola do filho pródigo: Oitava meditação do P. Tolentino Mendonça ao Papa (síntese)

Um dos grandes perigos do caminho interior é o olhar autocentrado, «no qual o eu é o princípio e o fim de todas as coisas», afirmou na manhã desta quinta-feira o P. Tolentino Mendonça, durante os exercícios espirituais do papa Francisco e de membros da Cúria Romana.
A oitava meditação do retiro que começou no domingo e termina esta sexta-feira, em Ariccia, próximo do Vaticano, centrou-se na parábola do filho pródigo (Lucas 15, 11-32).
A narrativa traz à luz «uma família humana como aquela de onde vem cada um de nós», e por isso é um espelho, revelando «uma história que nos agarra por dentro», na qual se vê «problematizada a relação entre irmãos» que manifesta o «delicado significado do vínculo filial» da trama «subtil e frágil de afetos que tecemos uns com os outros».
«Dentro de nós, na verdade, não há apenas coisas belas, harmoniosas, resolvidas. Dentro de nós há sentimentos sufocados, muitas coisas a aclarar, patologias, inúmeros fios a ligar. Há regiões de sofrimento, questões a reconciliar, memórias e cesuras para deixar a Deus para que as cure», afirmou.
O tempo atual, prosseguiu o poeta e biblista português, é dominado por «um desejo à deriva» favorável ao surgimento de «filhos pródigos», através de atitudes como o arbítrio fácil, o capricho, o hedonismo.
Estes modos de estar desenvolvem-se num «vórtice enganador» ditado pela «sociedade dos consumos», que promete satisfazer tudo e todos ao identificar «a felicidade com a saciedade». Estamos assim cheios, plenos, satisfeitos, domesticados». Mas esta saciedade que se obtém com os consumos é «a prisão do desejo».
À necessidade de liberdade do filho mais novo, impelido por «fantasias de omnipotência», acrescentam-se «as expetativas doentias» do filho maior, «as mesmas que com grande facilidade se infiltram em nós».
Trata-se, apontou o P. Tolentino Mendonça, da «dificuldade de viver a fraternidade, a pretensão de condicionar as decisões do pai, a recusa de se alegrar com o bem do outro. Tudo isto cria nele um ressentimento latente e a incapacidade de colher a lógica da misericórdia».
Aos passos falsos do filho menor, animado por um desejo à deriva, sobrepõe-se um perigo que consome o filho maior: a inveja, que é uma patologia do desejo, caracterizada pela falta de amor, uma «reivindicação estéril e infeliz».
O filho maior, que não conseguiu resolver a relação com o irmão, está ferido pela «agressividade, barreiras e violência». O contrário da inveja é a gratidão que «constrói e reconstrói o mundo», sublinhou o primeiro diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.
Ao lado das figuras dos jovens, emerge a do pai, «ícone da misericórdia»: «Tem dois filhos e compreende que relacionar-se com eles de maneiras diferentes, reservar a cada qual um olhar único».
A misericórdia «não é dar ao outro o que ele merece». A misericórdia é compaixão, bondade, perdão. É «dar a mais, dar mais além, ir mais longe». É um «excesso de amor» que cura as feridas. A misericórdia é um dos atributos de Deus. Por isso crer em Deus é crer na misericórdia. A misericórdia é um Evangelho a descobrir, concluiu o sacerdote.
Amedeo Lomonaco
In Vatican News
Trad.: SNPC

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Igreja: A rigidez (26)


Maior obstáculo à vida de Deus em nós não é a fragilidade mas a rigidez:
Sétima meditação do P. Tolentino Mendonça ao Papa (síntese)
O que mais se opõe à vida de Deus dentro de nós não é a fragilidade, mas o orgulho, sublinhou na tarde desta quarta-feira o P. José Tolentino Mendonça, na sétima meditação que propôs ao papa Francisco e a membros da Cúria Romana que desde domingo participam nos exercícios espirituais da Quaresma que decorrem em Ariccia, próximo do Vaticano.
O poeta e biblista português associou a sede à Paixão de Jesus e recordou que a pobreza de cada ser humano é o lugar onde Jesus intervém e que o maior obstáculo à vida de Deus é a inflexibilidade e a presunção. Por isso é preciso aprender a beber da própria sede.
A Igreja, prosseguiu, não pode isolar-se numa torre de marfim e deve ser discípula, abraçando uma experiência de nomadismo, afirmou o vice-reitor da Universidade Católica, que mencionou o risco de impor a outros caminhos exigentes, enquanto que fiéis permanecem sentados. É preciso que as comunidades cristãs estejam atentas para que o sedentarismo não se torne também espiritual, como uma atrofia interior.
Depois de realçar que os não crentes podem olhar com frescura surpreendente para a vida de fé, o P. Tolentino Mendonça referiu-se ao pensamento do teólogo peruano Gustavo Gutiérrez, assinalando que o poço de onde se bebe a água que sacia a sede é a vida espiritual concreta, mesmo que ferida de contingências e limitações.
«A humanidade que temos dificuldade em abraçar, a nossa própria e a dos outros, é a humanidade que Jesus abraça verdadeiramente, dado que Ele se inclina com amor sobre a nossa realidade, e não sobre a idealização de nós mesmos que construímos. O mistério da incarnação do Filho de Deus, em suma, comporta para nós uma visão não ideológica da vida», destacou.
A sede, em certo sentido, humaniza o ser humano e constitui uma via de «amadurecimento espiritual». É preciso muito tempo para perder a mania das coisas perfeitas, para vencer o vício de sobrepor as falsas imagens à realidade. Como escreve Thomas Merton, Cristo quis identificar-se com o que não gostamos de nós próprios, dado que tomou sobre si a nossa miséria e o nosso sofrimento. S. Paulo testemunha a fé com uma hipótese paradoxal: «Quando sou fraco é então que sou forte».
«O grande obstáculo à vida de Deus dentro de nós não é a fragilidade ou a fraqueza, mas a dureza e a rigidez. Não é a vulnerabilidade e a humilhação, mas o seu contrário: o orgulho, a auto-suficiência, a autojustificação, o isolamento, a violência, o delírio do poder. A força de que temos verdadeira necessidade, a graça que precisamos, não é nossa, mas de Cristo», frisou.
«Se nos dispusermos à escuta, a sede pode ser um mestre precioso da vida interior», assinalou o P. Tolentino Mendonça, que seguidamente se centrou nas três tentações de Jesus no deserto, antes do início da vida pública, narrativa proclamada no Evangelho das missas celebradas no passado domingo, o primeiro da Quaresma.
Sobre a tentação do pão, o biblista assinalou que Jesus conhece as necessidades materiais humanas, mas recorda que não só de pão vive o homem; a sua resposta não é para nos fazer evadir desta realidade, para a fazer considerar como um lugar que deve ser marcado pelo Espírito.
Acerca da segunda tentação, o sacerdote evocou a passagem do povo de Israel no deserto, a caminho da Terra Prometida, quando exigiu a Moisés que lhe desse de beber; para acreditar, queremos ver a nossa sede satisfeita, mas Jesus «ensina-nos a entregar o silêncio, o abandono e a sede como oração».
Na última tentação, em que Jesus responde a Satanás «o Senhor teu Deus adorarás; só a Ele prestarás culto», o P. Tolentino recordou que a Cristo ressuscitado foi dado todo o poder no Céu e na Terra.
O diabo quer ser adorado, mas o seu poder é aparência, enquanto que o do Ressuscitado faz parte do mistério da cruz, da oferta extrema de si. É um risco enorme quando a tentação do poder, em escala mais ou menos maior, nos afasta do mistério da cruz, quando nos afasta do serviço aos irmãos. 
Jesus, ao contrário, ensina a não nos deixarmos escravizar por ninguém e a não fazer de ninguém escravo, mas a prestar culto só a Deus e a servir: «Nós não somos proprietários, somos pastores».

Debora Donnini 
In Vatican News

Igreja: As Lágrimas do Mundo ( 25 )


Jesus recolhe todas as lágrimas do mundo: 
Sexta meditação do P. Tolentino Mendonça ao papa (síntese)
Na manhã desta quarta-feira, quarto dia dos exercícios espirituais da Quaresma do papa Francisco e da Cúria Romana que desde domingo decorrem em Ariccia, próximo do Vaticano, a sexta meditação do P. Tolentino Mendonça centrou-se nas lágrimas das mulheres dos Evangelhos, que evocam a sede de Jesus.
Recorrendo a citações extraídas da Bíblia e de vários autores, o pregador português sublinhou que as lágrimas manifestam sede de vida e de relação.
Muitas são as mulheres presentes nos Evangelhos, diferentes nas suas condições existenciais, etárias, económicas. Aquilo que as une é seu estilo, em benefício da evangelização, caracterizado pelo serviço, mas sobretudo são as lágrimas, expressão de emoções, conflitos, alegrias e feridas.
«As lágrimas dizem que Deus incarna-se nas nossas vidas, nos nossos fracassos, nos nossos encontros. Nos Evangelhos inclusive Cristo chora. Jesus encarrega-se da nossa condição, faz-se um de nós, e por isso as nossas lágrimas são englobadas nas suas. Ele leva-as verdadeiramente consigo. Quando chora, recolhe e assume solidariamente todas as lágrimas do mundo», sublinhou o poeta e ensaísta. 
 O desejo de vida
São precisamente as mulheres dos Evangelhos que concedem cidadania às lágrimas, mostrando a importância deste sinal, afirmou o sacerdote português, fazendo referência à psicanalista Julis Kristeva.
Esta não crente dizia que quando um paciente deprimido chegava ao ponto de chorar no divã, acontecia uma coisa muito importante: estava a começar a afastar-se da tentação do suicídio, porque as lágrimas não narram o desejo de morrer mas «a nossa sede de vida».
 Deus conhece a dor do pranto
Desde crianças o pranto indica sede de relação. Muitos santos, como Inácio de Loyola, choravam copiosamente. E o filósofo Emil Cioran (1911-1995) afirmava que no juízo final serão pesadas apenas as lágrimas, que dão um sentido de eternidade ao nosso devir, e que o dom da religião é precisamente o de nos ensinar a chorar: as lágrimas são o que nos pode tornar santos depois de se ser humanos.
«A nossa biografia pode ser contada também através das lágrimas: de alegria, de festa, de comoção luminosa; e de noite escura, de laceração, de abandono, de arrependimento e de contrição.
Pensemos nas nossas lágrimas derramadas e naquelas que permaneceram um nó na garganta e cuja falta nos é pesada ou ainda nos pesa. A dor daquelas lágrimas que não foram choradas. Deus conhece-as todas e acolhe-as como uma oração. Portanto tenhamos confiança. Não as ocultemos dele.
 Procura de relação
Para Gregório de Nazianzo as lágrimas são, em certo sentido, um quinto batismo. E Nelson Mandela, na prisão, teve os olhos tão atacados que perdeu a capacidade de derramar lágrimas, mas ainda assim não se extinguiu a sua sede de justiça.
Quando se chora, ainda que haja um esforço para não mostrar ao outro que se choram a verdade é que choramos sempre para que o outro veja. «É a sede do outro que nos faz chorar».
A concluir, o P. Tolentino Mendonça mencionou a mulher que chora e lava os pés de Jesus com as suas lágrimas. Muitas vezes toma-se uma distância crítica face à religiosidade popular, que se exprime com abundância de lágrimas. E por vezes é difícil, para os pastores, perceber a religião dos simples baseada não em ideias mas em gestos.
É precisamente a impressionante qualidade do que a mulher dá a Jesus que permite constatar que Simão, o chefe da casa, não disse nada. «É esta inédita hospitalidade que Jesus pretende exaltar», «esta sede, de que as lágrimas são sinal e que nos toca aprender».
O retiro quaresmal do papa Francisco e dos seus colaboradores da Cúria Romana termina na sexta-feira.

Debora Donnini 
In Vatican News