quarta-feira, 19 de julho de 2017

Isto não está a correr bem

Os fogos voltaram a atear-se e algumas disfunções continuaram a manifestar-se. O país está a banhos, meio adormecido. Mas as televisões não param de pôr questões a que ninguém dá resposta.
Agora os bombeiros só falam por interposta pessoa e duas vezes por dia. Foi a decisão superior tomada. Mas alguém acredita que este país acate estas decisões, quando o jornalistas andam no encalce de respostas?
O governo que até aqui tinha tudo a seu favor, parece ter caído subitamente num período de desgraças e até o nosso efusivo Presidente Marcelo parece ter apanhado um resfriado que o deixou completamente afónico.
É preciso ser criativo, Senhor Primeiro Ministro, porque Portugal já não aceita uma roda da fortuna que encrencou. António Costa, por favor, saque lá de uma ideiazinha que nos tire desta anemia deprimente. É que que já ninguém suporta que a geringonça possa correr mal!

HSC

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Quem responde?

Passa hoje um mês sobre a tragédia de Pedrogão. Outros incêndios se detectaram, entretanto. Agora foi em Alijó, onde mais uma vez o SIRESP não funcionou... Admite-se?
Entretanto e com tantas doações amealhadas, eu não consigo perceber bem quem é o fiel depositário do dinheiro que foi enviado. Mas algo parece evidente: é que ele não começou ainda a ser distribuído e aplicado. De que é que se está à espera, já que não é dinheiro público que está em causa, mas sim dinheiro que, solidariamente, os portugueses doaram aos que tanto sofreram e sofrem.
A União das Misericórdias depositou-o nalgum banco? Em qual? E em que conta? Era bom sabermos. Os sacrifícios daqueles que ajudaram, merecem conhecer o destino dado àquilo que doaram!

HSC

domingo, 16 de julho de 2017

Manobras de diversão

"... Era esperado que se a PT-Altice abocanhasse a TVI-PRISA, como numa queda em dominó, a NOS se fizesse à  SIC-IMPRESA. Postas as coisas em movimento a questão fundamental é só uma:
Como será a paisagem audiovisual portuguesa?... Decorrem imediatamente daqui dois assombros:
  1. Em que outro paí­s europeu (ou mesmo mundial) CINCO indústrias (a televisão aberta, a televisão por cabo, a Internet, as comunicações móveis e as comunicações fixas) ficam agregadas numa empresa? E se a NOS executar os seus propósitos acrescentem-se MAIS TRÊS: a exibição cinematográfica e a distribuição cinematográfica. E os direitos de futebol.
  2. Que liberdade de mercado, económica, comercial e de escolha se antevêem quando tantas áreas industriais de tamanha dimensão e incidência se limitam a um duopólio?
Enquanto a discussão não enveredar por este caminho é poeira nos nos olhos. Boa sorte."

           José Navarro de Andrade in http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/

As perguntas básicas são, de facto, estas. Mas quem é que está preocupado com elas? E, sobretudo, alguém se  lembra de quando tudo isto começou e com quem começou?!

HSC

sábado, 15 de julho de 2017

E Deus Criou o Mundo



Conheço o Carlos Quevedo desde que, nascido em Buenos Aires em 1952, decidiu renascer em Lisboa, vinte e seis anos depois. Por sorte minha, seria o Independente que havia de mo revelar como o mais português dos argentinos.
A amizade que me liga a ele é daquelas que nem um terramoto abala. Estamos muitas vezes juntos? Não. Mas esse facto só aumenta a alegria genuína de nos vermos.
Desde 2015, ele é o autor e produtor do programa "E Deus Criou O Mundo", na Antena 1, onde procura fomentar o debate inter-religioso. No pilar deste programa assenta a fé dos três principais credos monoteístas, o Judaísmo, o Cristianismo e o Islão, todos oriundos do Médio Oriente e cujas orientações morais servem de guia para milhões de pessoas em todo o mundo.
O debate assenta em três membros das comunidades religiosas mais influentes em Portugal – Khalid Jamal, Isaac Assor e Pedro Gil -, que abordam temáticas da actualidade e da religião.
Com uma enorme persistência, o Carlos Quevedo pegou no conceito e no nome do programa e fez este livro. que resulta do muito que se passou no mesmo se passou.
O livro está organizado em quatro partes: as duas primeiras abordam o enquadramento das religiões, e a terceira mostra as posições que as três religiões têm sobre a vida dos crentes na família, no casamento e no divórcio e, finalmente, como o judaísmo, o catolicismo e o islão encaram a morte.

No dia 12 fui à segunda apresentação, no Grémio Literário, já que a primeira foi na Feira do livro e eu não não tive dela conhecimento.
António Rebelo de Sousa escalpelizou a obra. Khalid Jamal e Pedro Gil falaram da importância de contrariar a moderna e persistente corrente de excluir a religião do debate publico, mostrando os riscos e a fobia que tal representa.
Foi muito importante, para mim, ter podido assistir a esta sessão, já que não só sou uma fervorosa adepta do debate inter religioso, como defendo que a fé, todas as fés, fazem parte do mundo em que vivemos e por isso não devem ser afastadas dele.
Só este tipo de debate nos poderá levar a compreender que há razões para um mesmo Deus ser adorado de maneiras diferentes, sem isso ter de resultar em desconfiança e receio. E que, na verdade, cabe aos homens e mulheres de fé instituir a tolerância e derrubar séculos de ignorância e amnésia cultural.


HSC

sexta-feira, 14 de julho de 2017

A mini remodelação

“...Mas é claro que se há mudanças mais do que óbvias para qualquer cidadão, como seja a necessidade de substituição de quem se demitiu ou de quem mostrou não servir, há outras que precisam de ser devidamente explicadas aos cidadãos e aos militantes, que são os olhos e os ouvidos do partido, e os seus embaixadores junto do eleitorado. Tomar os outros por parvos (os eleitores não são estúpidos) não é um bom princípio em política.”

“...Ouvir os outros continua também a ser um bom princípio, em especial se aqueles a quem se recorrer for gente que não depende do partido, nem anda à caça de uma promoção, de um estatuto ou de uma mordomia, para si ou para os familiares e amigos mais próximos. E hoje em dia, devíamos todos sabê-lo pelos maus exemplos que fomos tendo, dos mais recentes aos mais remotos e que ainda estão bem frescos, não é só a mulher de César que tem de ser e parecer séria. É César e a família toda, incluindo filhos, sobrinhos, afilhados, sem esquecer as concubinas e a criadagem. Por isso houve quem, sendo sério, por causa de uns míseros bilhetes para ir à bola, seja agora obrigado a ver pela televisão o que falta do campeonato, com claro prejuízo para todos.”


             Excertos de um post de Sergio Almeida Correia no Delito de Opinião

Vale a pena ler o post na integra. Mas os dois excertos que aqui publico correspondem ao meu sentir e ao de muitos outros portugueses. Há gestos que carecem de explicação e a substituição de quem não se demitiu deve ser explicada para que o nome dessas pessoas não fique envolto em neblina. O que, como se sabe, é frequente neste soalheiro país!

HSC

quarta-feira, 12 de julho de 2017

O governo luz


Já aqui o disse. Sigo sempre que posso o Governo Sombra. Hoje, num intervalo deste imenso calor que me mata, resolvi fazer uma pausa e ouvir o programa de sábado à noite. No meio de assuntos tão sérios não pude deixar de me rir com a argumentação usada pelo Pedro Mexia que queria ser Ministro das Forças Desarmadas. E como ele costuma ser o mais comportadinho de todos, foi completamente inesperado o seu desejo.
Ricardo Araujo Pereira, com quem me vou reconciliando muito devagarinho - é impossível negar-lhe a inteligência e o humor - também esteve no seu melhor quando falou de comunismo primário, ao referir-se à manifestação feita pelo PCP relativamente a Maduro e à banda que tocou no dia da Venezuela. Dali à Coreia do Norte foi um palmo e a galhofa foi incontrolável quando ele  acabou a contar a história do taxi em que viajou.
Enfim, João Miguel Tavares acabou por se considerar um anti comunista secundário porque gostava do Jerónimo de Sousa, arrastando-me consigo, que, como ele, sou fã da sua forma de genuinidade.
Enfim, quando retomei a escrita estava menos preocupada com Tancos e as armas roubadas, já que, na última versão, à hora do almoço, se avançava  que parte das armas até eram para ser abatidas. Assim, já se compreende melhor os buracos na vedação e os vidros partidos no paiol. Aquilo era mesmo tudo para abater, desculpem, desaparecer...quando se remodelasse o governo luz!

HSC

terça-feira, 11 de julho de 2017

O raio 13

"Caro Pedro Correia. Muito boa tarde. Passo-lhe "pro bono" uma informação que me chegou de fonte fidedigna, um muito alto político, como se usa agora dizer. No caso dos incêndios, chegaram à conclusão, inequívoca, de que o raio nº 13, se dirigiu atrevidamente à floresta nº 69, e rachou de alto abaixo a árvore nº 17.
Já no caso de Tancos, ainda não conseguiram identificar com rigor absoluto o raio fura redes, pois que não se conhecem antecedentes e jurisprudência que ajude. Parece, no entanto, que o raio pode ter sido um primo do nº13, mas mais meigo, e provavelmente enfiou-se no buraco /malha que as redes de galinheiro têm. A questão do buraco é, aliás, relevante, pois sendo a rede alcançável da estrada, ainda nenhum jornalista o fotografou. Ou se fotografou, está-se apenas à espera de confirmar se foi raio primo do nº 13 ou outro."
                             
   (António Cabral, comentário a post de Pedro Correia no DO)

Ora aqui está uma investigação que talvez conduza ao apuramento de responsabilidades. Por mim este raio 13 ou um seu primo devem ter altas responsabilidades nos dois casos e andam verdadeiramente a monte! Ide, urgentemente, no seu encalece.

HSC

CAMINHOS E DESTINOS A memória dos outros


Apresentar um livro de um autor com o qual nos identificamos muito, não é tarefa fácil. Assim quando o Embaixador Marcello Duarte Mathias me pediu que apresentasse o seu ultimo livro, tive dois tipos de reacção. De um lado, senti muita satisfação de poder falar de um escritor que admiro muito e de quem conheço quase tudo o que escreveu. Por outro lado, temi que a plateia que me esperava pudesse achar estranha a escolha do meu nome para tal tarefa. Julgo que correu bem. E, como várias pessoas me pediram o texto da apresentação, decidi que a melhor forma de falar sobre o livro seria publicar aqui as palavras que, então, disse


CAMINHOS E DESTINOS
A memória dos outros

Começo por fazer duas advertências para tranquilidade vossa. A primeira respeita ao hábito que tenho de fazer apresentações curtas, que terei adquirido em mais de duas décadas de ensino universitário. De facto, creio, mais de quinze minutos de oratória, levam a plateia a viajar por outros mundos.
Assim, pelo menos desta vez ficarão todos libertos da última moda nesta matéria, ou seja, três apresentadores seguidos de um pequeno número musical, como me aconteceu nos últimos eventos a que fui...
A segunda advertência vem do facto de eu gostar muito – nas suas diversas formas - da escrita do Senhor Embaixador, pelo que as minhas palavras sendo, espero, lúcidas, podem também ser parciais.
De facto, toca-me o seu olhar, sem excessos, sobre o mundo que o rodeia, mas sem nunca se privar de exprimir sentimentos; emociona-me o intimismo com que escreve, sem jamais ultrapassar a barreira da privacidade; surpreende-me a análise crítica que tece sobre uma série de assuntos que vão da política, à carreira, à literatura, à defesa da língua e que, por razões várias, constituem preocupações que também partilho.
Esclarecidas estas duas questões não posso deixar de declarar que só por muita ousadia da minha parte é que aceitei vir apresentar este livro. Com efeito, se por um lado contava com a benevolência de quem me convidou, por outro, admitia ir encontrar um público que pudesse estranhar a escolha  do meu nome, pouco intelectual das letras e sem filiação em correntes literárias.
Gosto muito de escrever, mas a única certeza que tenho é a de que devo à leitura de certos autores, uma boa parte de quem sou. Mas nunca me apelidei de mais do que de “escrevinhadora”.
Bem haja pois, Senhor Embaixador, pela confiança que em mim depositou.
Entremos então, na tarefa que aqui me trouxe. A primeira questão que gostaria de colocar é a de definir o que, para mim, constitui apresentar um livro. Do meu ponto de vista, o primeiro objectivo é expressar o que sentimos acerca do seu conteúdo. Para depois tentar descobrir o que as suas linhas acabam por revelar do autor. E isto, claro, tendo em conta que essa revelação será, por sua vez, também ela, sempre feita pelo olhar do “outro”, daquele que apresenta.
Ou seja, a apresentação de uma obra envolve, sempre, uma dupla percepção na qual, escritor e apresentador caminham lado a lado, mas sem que este último tenha alguma certeza de que aquilo que lobriga desse caminho é mais sobre o autor do que sobre si mesmo.
Dito por outras palavras, cada um acaba por ver na obra e no escritor, uma parte de si próprio. E, a meu ver, se alguém aceita dar a conhecer um livro é porque sente que nesses dois percursos feitos, existem  encruzilhadas comuns de que vale a pena falar.
Assim, as minhas palavras são, naturalmente, a consequência daquilo que no livro mais me impressionou, me tocou, me surpreendeu, num itinerário que, obviamente, neste caso concreto, tem múltiplas veredas.
Para quem, como eu, conhece a escrita diarista de Marcelo Mathias, encontra aqui uma prosa que, numa primeira leitura, parece diferente, até porque nos ensaios a tendência não é intimista. Mas à medida que nos embrenhamos nos vários textos, acabamos por perceber que esse lado personalista continua bem vivo nas análises feitas.
São muito diversos os temas que preenchem as páginas deste volume de crónicas e ensaios. Livro que também é um determinado retrato do nosso tempo, feito por entre escritores e políticos, através da memória de uns e do percurso de outros.
Retratos e memórias que, confesso, nalguns casos, me são muito familiares, mercê de duas circunstâncias. Uma, o facto pertencer à mesma geração de quem escreve este livro. Embora não tenhamos tido as mesmas mundividências, a sociedade que nos rodeou foi a mesma. Outra, a circunstância de ter nascido no seio de uma família que não só se interessava e discutia uma parte significativa das temáticas que aqui se abordam, como sempre incentivou os mais novos a nelas participarem.
Daí que, percorrer as páginas lindíssimas sobre Biarritz e sobre o esplendor de Sophia, ou ler os comentários sobre o livro Equador, ou sobre as Cartas de Amor de Pessoa a Ofélia –cuja utilidade ainda hoje não percebi -, me tenham feito sentir uma proximidade quase fraterna, já que me recordaram as animadas conversas com o meu irmão mais velho, também ele  Embaixador.
Não faltam nestas folhas apreciações profundas sobre alguns nomes literários como Tabucchi, Torga, Eugénio Lisboa, Almeida Faria, ou Vasco Graça Moura, para só citar estes, de quem sou mais próxima ou cuja leitura continua  mais fresca.
Ler as palavras de e sobre Graça Moura acerca da identidade cultural da Europa não deixa ninguém indiferente. Nem eu própria, que continuo a sentir que a minha identidade é só uma, a de ser portuguesa e de dificilmente admitir viver noutro lugar que não seja Portugal.
Igualmente presente está a visão do diplomata acerca de alguns colegas de carreira e da forma como vêem a Diplomacia. Aqui, perdõem-me todos os outros, mas escolho decididamente fazer referência a António Pinto da França, personagem fascinante e um homem de quem se diz que tem relógio e tem tempo, mas desconhece a urgência. A sua permanente curiosidade permite-lhe viver em osmose com o tempo dentro e fora dele, algo que faz lembrar um fundo quase oriental. Não é frequente encontrar alguém assim!
Julgo, enfim, poder dizer que estamos perante um livro, que fala de lugares e de países – Biarritz, Goa, India, França, América – mas também de pessoas, sejam elas políticos, escritores, pensadores ou diplomatas. 
Trata-se, a meu ver, de um livro, com uma acentuada marca francófona – que bem que sabe aos que, como eu, são francófilos – e se ocupa na política de personagens que vão de Giscard a Balladur ou a Sarkozy - e de escritores como Malraux, Aragon, Drieu La Rochelle ou Camus. De caminho, percebe-se como estes homens enriqueceram a França e e como a pátria fez deles os seus heróis contraditórios.
Permitam-me aqui uma pequena anotação sobre esta família de notáveis diplomatas. A França está mesmo no seu ADN e não é certamente por acaso que o livro tem essa inclinação francesa que referi.
É que três gerações sucessivas serviram Portugal naquele país. O avo Marcello foi embaixador em Paris em duas longas temporadas; o pai Marcello - autor deste livro - foi embaixador na UNESCO que tem sede em Paris. E o neto Marcello, outro diplomata por quem nutro uma grande ternura, a caminho de França vai.
Por coincidência ainda se deu o caso de Marcello pai ter servido na UNESCO ao mesmo tempo que o seu irmão Leonardo chefiava a missão bilateral em Paris. Três gerações diferentes: o mesmo apelido; o mesmo patriotismo; a mesma vocação; o mesmo destino!
Et cela va sans dire, todos tão diferentes, todos tão interessantes! 
E se isto não fosse já muito, seguem-se páginas preciosas sobre as epístolas trocadas entre Saint-John Perse e Calouste Gulbenkian, ou a correspondência entre Roosevelt e Estaline, tão reveladoras do período político que se aproximava. 
Impossível citar todas as peregrinações interiores de outros, de que o autor se ocupa ou entrar no detalhe sobre os ensaios que este livro contem. A escolha dos textos é um labirinto conduzido, no fundo, pelo trabalho de quem, há muitos anos, pensa sobre o que os outros pensam, sem contudo, se esquecer de pensar sobre si próprio.
É por isso que a nossa memória é,  também, sempre um bocado da memória dos outros e a nossa revolta, mais ou menos contida, resulta uma amálgama entre a que sentimos e a dos que nos rodeiam, pese embora estes últimos possam, até, nem ser pessoas de quem estejamos próximas.
Confesso que os primeiros textos que li foram aqueles que considerei terem laivos mais pessoais. Explico-me melhor.
Gosto, como já disse, da escrita intimista, de tipo diarista,  na qual considero o Embaixador Marcello Mathias um autor verdadeiramente especial. Assim, comecei por Biarritz, essa estância de que o meu Pai tanto falava e a que, mais tarde voltaria tantas vezes. Nestas suas linhas está tudo o que o meu olhar tinha, outrora, registado. Como também está, uma outra Biarritz, que só o autor conheceu, e cuja partilha me encantou.
Não menos interessantes e surpreendentes são essas linhas das Memórias femininas, memórias cruzadas, em que tão subtilmente se recorda a frase de Louis Scutenaire que afirma que “o homem olha, a mulher vê”, num paradigma com o qual me identifico plenamente.
Há, aliás, em todo o livro a marca de um reconhecimento do feminino - ao qual eu jamais serei indiferente - que está presente mesmo quando não se fala dele.
Quase no final do livro o autor escreve um ensaio sobre esse estranho ano de 1938 em que nasceu. Recorrendo à belíssima definição do professor Adriano Moreira, 1938 foi 'tempo de vésperas'. Os homens ainda viviam em paz mas os lúcidos já pressentiam que a guerra - a horrível II Grande Guerra - estava ao virar da esquina. Este ensaio é sobre tudo o que vai acontecendo enquanto o essencial ainda não aconteceu.
Às vezes receio - a minha idade avisa-me –, que as loucuras do mundo de hoje não estão longe de um pressentimento sombrio. Espero não ter razão!

No fundo, e repito-me, o que fascina neste Caminhos e Destinos é o fio condutor que une a diversidade de deambulações entre a critica, a crónica, o ensaio e que nos leva, afinal, a percorrer um caminho que, sendo dos outros é, simultaneamente, também nosso.
A Memória dos outros é o fulcro deste livro. Só é possível falar dela, porque ela, ou melhor, elas,  representam uma pluralidade de recordações que constitui um perfil da sociedade portuguesa, suas gentes, ambientes e costumes
Como é dito no prefácio deste livro ‘escrever é ir ao encontro do que nos comove, intriga ou indigna, de tudo aquilo que afinal nos chama porque nos é próximo ou, pelo contrário, suscita a nossa curiosidade porque se filia num passado feito de outros cenários e recordações. Em definitivo, toda a memória é sempre memória dos outros.’». Foi ela - a minha e a dos que me rodeiam - que aqui encontrei. E que, como sempre, me comoveu e deixou presa da primeira à ultima folha destes CAMINHOS E DESTINOS.

HSC

sábado, 8 de julho de 2017

Cerca de 9 anos e 2753 post´s

Hoje deu-me para ver "às quantas" ando. Ou melhor "às quantas andei" neste ultimo quarto de século. Não foi pouco o trabalho desenvolvido, sobretudo quando se olha para grande parte das mulheres da minha geração...
De facto, no Fio de prumo, em oito anos e meio - 3102 dias -, publiquei 2753 post´s, o significa quer terei escrito quase todos os dias. No quarto de século, os livros publicados, foram 27. Radio e televisão já nem consigo contar, porque foram vários anos. No ensino universitário terão sido perto de uns milhares de aulas a tentar partilhar o que sabia.
E, se a tudo isto juntar mais os 25 anos anteriores, em que apenas fui economista, confesso, creio ter dado à sociedade uma boa parte daquilo que dela recebi.
Além disso fui, cumulativamente, mulher e mãe, ao longo dos últimos sessenta anos. Como fui filha e sou avó, tentando dar o melhor de mim.
Se pensar nas oito décadas que levo de vida, talvez seja chegada a altura de começar a arrumar os equipamentos tecnológicos e passar a uma nova etapa, em que possa aproveitar melhor as companhias que a vida me tem proporcionado.
Começou, acredito, o tempo de "savoir se retirer", como diria Aznavour. Ou seja, é chegada a hora pensar em sair! Sem tristeza e com a plena sensação de um dever cumprido

HSC

Não vale a pena discutir com pessoas malucas. Elas ganham

“Não é preciso ser-se um perigoso militarista para perceber que o caso de Tancos é grave. Por causa do armamento e munições que desapareceram, por causa do desmazelo que revelou – e, sobretudo, por causa da reacção estapafúrdia do ministro da Defesa, que admitiu que as armas podiam perfeitamente destinar-se ao terrorismo, murmurando qualquer coisa sobre o Google (como se pedisse a carta de vinhos num restaurante), sobre roubos de armas noutras latitudes (no Afeganistão e nos filmes com gangsters americanos). Uma pessoa ouve durante uns minutos e passa em frente – os malucos ganharam outra vez, e não está em causa a competência do ministro da Defesa para tratar de outros variados assuntos. Demissões? Sim, no pessoal da caserna, para mostrar que as chefias estão atentas e têm mão pesada com quem não as ameaça grandemente. Mas chamar à pedra o CEME ou o CEMGFA vir em pontas prestar declarações? O ministro apresentar respeitosamente o seu pedido de demissão? Não. Fosse por alguma declaração sobre questões de género no Colégio Militar, e outro galo cantaria. Agora, armas? Essa ninharia? O que são 53 quilos de plástico explosivo e foguetes anti-carro, senão ninharias? Não vale a pena discutir com pessoas malucas.”

Francisco José Viegas in http://origemdasespecies.blogs.sapo.pt/ 

HSC

sexta-feira, 7 de julho de 2017

E se fosse um governo de direita?!


"Quantas vezes ouvimos um General ir ao Parlamento dizer que se sentiu humilhado? E quantas vezes ouvimos isso na véspera de um ministro da Defesa ser ouvido no mesmo Parlamento? E alguma vez essas audições aconteceram quando o mesmíssimo Parlamento discute as cativações or
çamentais que podem ter fragilizado as funções de soberania? E alguém consegue lembrar-se de quantos ministros já tiveram que ir de urgência ao Parlamento ou quantas respostas por escrito teve o governo que enviar em tão poucos dias aos deputados?
Podia fazer este Expresso Curto só com perguntas, mas o estilo seria forçado e cansativo, e, mais relevante, falharia o essencial: as respostas. Ora, respostas é o que o País precisa. Precisa o Parlamento, precisam os deputados, precisa o povo que os elegeu e precisa toda a população.

A sucessão de acontecimentos extraordinários ligou Pedrógão e Tancos para sempre. O governo bem pode tentar dizer que são coisas diferentes (e são), que não têm uma a ver com a outra (e não têm), que uma teve razões extraordinárias (e teve), que outra podia ter acontecido há mais tempo (e podia), que se devem separar os dois casos (e até devia), mas a vida é mesmo assim e a vida política sempre foi e será assim. Quem não perceber isto, não percebe a política, muito menos a razão pela qual existe: servir o país."...

                          Ricardo Costa in Expresso Curto

Tudo o que eu dissesse a mais seria desnecessário. Ricardo expressa os nossos receios e põe o fulcro, como todos nós, nas respostas urgentes à perguntas, mais de 15 dias passados sem que saibamos como é possível ter informações tão contraditórias sobre estes dois assuntos.
Estamos sem governo? Não. Até temos um governo de esquerda suportado pela esquerda. 
E vamos continuar assim por muito tempo?! 
O que se não teria já dito se tivéssemos um governo de direita e quantas cabeças não estariam já a prémio?!

HSC

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Woody Allen


O septeto com que o cineasta se reúne frequentemente para actuar num clube de jazz em Manhattan anda em digressão pela Europa. O Coliseu dos Recreios foi a sua última paragem. E eu lá estava numa espécie de retorno ao Carlyle de Nova Iorque, onde por mais de uma vez o vi. 
Não se trata de o considerar um brilhante clarinetista. Não é. Mas tem aquele quê especial, que, mesmo não sendo o maior, me arrasta sempre com imenso prazer.
Não creio ter dúvidas de que o seu lugar é detrás das  câmaras e que lhe será mais fácil estar atrás delas do que em cima de um palco, em directo e impossibilitado de poder refazer cenas. Mas nada disto impediu o público do Coliseu e eu própria de sair satisfeita com o espectáculo e aprovado a lista de canções escolhidas. 
E à hora quase certa, a banda apareceu e todos os olhos se viraram para o clarinetista que entrava no palco com a banda. Sentado numa ponta, Woody Allen cruzou as pernas e deu os primeiros sopros, lembrando um clube de jazz modesto, e disse-nos: "Tocamos para nós e para nos divertirmos e ficamos surpreendidos por nos quererem ver. Adoramos voltar a Lisboa, onde já tivemos alguns momentos muito simpáticos." 
Era o seu agradecimento à importância dada a uma banda de cabeças brancas, mas cujos sopros, viu-se, ainda estavam ali para as curvas num desafio claro aos pianista, contrabaixista e baterista.
Quando voltaram para o encore, Woody Allen perguntou à banda se ainda havia tempo para mais uma. Todos concordaram e foi uma bela despedida para um público ávido de Nova Orleães, com gente que não precisava de pautas para tocar mais três músicas antes da partida e uma última à When the saints go marching in.
O grupo teve, além de Woody, Eddy Davis no banjo, Conal Fowkes no piano, Simon Wettenhall no trompete, Jerry Zigmont no trombone, John Gill na bateria e Greg Cohen no baixo.
Na biografia oficial  de Alen, no site da internet alguém escreveu: "É um dos grandes entertainers da era moderna. A par dos filmes e da comédia, é um músico empenhado, que tocou clarinete a vida toda." Foi exactamente isto que alguns puderam testemunhar ontem.

Eu, pessoalmente, testemunhei muito mais do que isso. Voltei 50 anos atrás, a um período em que pensava não saber, afinal, o que já sabia. Apesar de não sentir saudades foi, no entanto grato, confesso, poder repetir um prazer de há quatro décadas. E... senti-lo de uma outra forma, talvez, quem sabe, mais intensa!


HSC