quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A cigarra e a formiga

Portugal gosta de se mostrar moderno, de ser conhecido, de conviver com os grandes, de se sentir um deles mesmo que os "eles" não tenham sobre nós o mesmo olhar. 
Mas Portugal arde todos os dias um pouco mais, desaparece todos os dias um pouco mais e a consternação daqueles que tudo perderam dói todos os dias um pouco mais.
Como se isto não bastasse, na Madeira - essa pérola do Atlantico -, num momento de festa religiosa tradicional, uma árvore cai e mata ou deixa às portas da morte, mais de uma dezena de pessoas. Num segundo, tudo muda e o que era alegria fica toldado de dor.
E tudo isto acontece porque o país não se dá ao trabalho da formiga, de preparar o futuro. A Madeira é um constante factor de inquietação, esburacada que foi para se mostrar ao mundo com as vestes da modernidade. Pobres madeirenses que conseguem sobreviver a todas estas adversidades. Pobres portugueses cuja credulidade e confiança merecia um presente bem melhor.
Há dinheiro para tudo o que encha o olho, sejam estradas ou estádios cuja utilidade nem sempre se percebe. Mas não há dinheiro para manter um património florestal e cuidar no inverno de preparar o Verão que há-de surgir. Pobre país onde há dinheiro para ser cigarra e não há dinheiro para ser formiga...

HSC

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Cronologia de uma desresponsabilização política

“A 19 de Junho, dois dias após o incêndio de Pedrógão Grande, a equipa do ministério da Administração Interna informou que a rede SIRESP estava “a funcionar com toda a normalidade” e que “em nenhum momento esteve inoperacional”. A 6 de Julho, quase três semanas depois e com muitas averiguações feitas aos serviços da Administração Interna, o governo assegurou que as falhas no SIRESP eram de “menor relevância”. Entretanto, a 17 de Julho, António Costa abria a porta ao reconhecimento de que o SIRESP havia deixado de funcionar num momento crítico, afirmando que “temos de ter uma rede que funcione em todas as circunstâncias – é inadmissível que não funcione, em particular as redes de comunicações de emergência”. E a 28 de Julho, a ministra da Administração Interna assume a existência de um “problema efectivo” no SIRESP, mas deixa o aviso aos seus críticos: “é uma falta de sentido de Estado estar sempre a lançar lama sobre o SIRESP e a desestabilizar”.

“…Tudo isto colocou o governo numa posição desconfortável. É que esta quarta versão dos factos, negada de início e depois forçada pela investigação dos jornais, é incómoda (expõe a incompetência governativa na articulação com o SIRESP) e particularmente problemática para o primeiro-ministro. António Costa assumiu a pasta da Administração Interna no governo de José Sócrates e, nessas funções, liderou a renegociação e a assinatura do contrato do SIRESP – ou seja, isso torna-o co-responsável político do problema que o SIRESP se tornou e pelo conteúdo no contrato desta PPP.
Não surpreende, portanto, que três dias depois, a 12 de Agosto, surja a quinta versão dos factos, desta vez pela boca do primeiro-ministro, para que fique definitiva: o SIRESP “colapsou” mesmo e a responsabilidade afinal é da PT. Vendo para além dos relatórios e dispensando as conclusões da comissão de peritos que o parlamento convocou, António Costa já apresentou a sua (nova) versão dos factos. Uma versão particularmente conveniente, diga-se. Por um lado, iliba o governo e anula as suas co-responsabilidades. Por outro lado, faz de bode expiatório uma empresa (Altice, detentora da PT) à qual declarou guerra e contra a qual tem direccionado as suas críticas – e, já agora, ameaça-a com a mudança do SIRESP para outra operadora. Situação win-win.
Faltam quatro dias para se completarem dois meses desde o incêndio de Pedrógão Grande. Sobre o que correu mal, há versões em abundância, mas certezas ainda só uma prevalece: o governo tudo fará para se descartar de responsabilidades, tanto operacionais como políticas. Sim, Marcelo vincou que há que “apurar tudo, mas mesmo tudo” sobre o que aconteceu em Pedrógão Grande. Mas os actos contam mais: se, no final, aceitar este atira-culpas político, fará também ele parte do logro.

                       Alexandre Homem Cristo in Observador

Que cada um tire as suas próprias conclusões perante a cronologia aqui apresentada. Já nem falo dos 13 milhões de euros cuja rota se continua, de forma lamentável, a desconhecer.

HSC

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Porque escrevo?

Num artigo publicado no El Mundo, o cronista Fernando Sanchez Drago insurgia-se com a resposta dada por outro seu colega, que, quando lhe perguntaram porque escrevia, respondera "por dinheiro".
O texto tinha graça porque, antes da fazer a crítica, ele havia feito a si próprio a mesma pergunta, para a qual admitindo várias razões possíveis, chegara à única inteiramente certa de que o fazia porque queria fazê-lo.
Depois de ler a crónica pus a questão a mim mesma. Escrevo para entender o mundo? Não, porque para isso não necessitaria de escrever. Será para me conhecer melhor? Também não. Conheço-me razoavelmente. Escrevo porque não sei fazer outra coisa? Também não, porque manifestamente sei fazer muitas outras coisas. Escrevo para denunciar o que está mal, o que considero injusto? Muito pouco, porque sou bastante avessa ao que se chama de escrita comprometida.
Convém, contudo, lembrar aqui um pormenor. É que eu não me considero escritora, nunca tive essa pretensão e sempre me vi como uma cronista que escreve sobre o mundo que a cerca, mas que não pretende impor a sua visão a ninguém. O que se entende, já que se me não levo, eu própria, muito a sério, tentar fazer da escrita uma missão seria, no mínimo, ridículo.
Mas também não escrevo por dinheiro, como podem provar os blogs que mantive e mantenho, onde até hoje, não usei publicidade, pesem embora os vários aliciamentos nesse sentido. Porém, não tenho posições definitivas sobre a matéria - cada vez as tenho menos - e por isso não avanço nada sobre o futuro.
Aliás, até julgo haver uma certa forma de elitismo da minha parte nesta posição, que aceito, mas não me agrada. E, se um dia considerar que é essa a razão maior, dou-lhe um rápido pontapé. 
Então, porque escrevo eu? De facto, faço-o porque me dá gosto fazê-lo e isso é, para mim, razão mais que suficiente para continuar este caminho!

HSC

sábado, 12 de agosto de 2017

Uma outra odisseia

Depois de todas as aventuras pelas quais passei ultimamente, entendi que teria direito a ir jantar á Bica do Sapato e dar um abraço ao meu amigo Fernando.
“Direito”, sim, eu teria, se não existissem na CML umas cabecinhas pensadoras sobre o trânsito lisboeta. É que, antes, havia dois parques de estacionamento e só num deles havia cancela. Agora surgiu uma ideia genial, para cobrar mais uns cobres aos ricaços que têm carro para ir comer fora, numa sexta feira à noite, e, surprise, a cancela foi colocada logo à entrada, para servir como receita dos dois estacionamentos.
Mas, mais inteligente ainda, nova surprise, foi criada uma via à direita de quem quer virar à direita, que serve para seguir...em frente. Confuso? Nada de nada. Clarinho como água: o engarrafamento é total e há sempre uns “xicos espertos” que se metem pela via de seguir em frente e viram à direita “roubando” um lugarzinho a quem está disciplinadamente na fila.
Em resumo, demorei de Santa Apolónia à Bica do Sapato, que fica em frente, apenas 55 minutos!
Os estabelecimentos daquela zona estão a viver momentos de desespero e a perder clientes que tentam fugir dali por não estarem dispostos a aguentar tal situação.
Seria bom que uma qualquer das tais cabecinhas pensadoras fosse lá ver a odisseia que resulta das medidas tomadas!

HSC

Abrir a televisão

Já aqui tenho dito que convém fazer férias da televisão nacional, para se poder manter um certo grau de sanidade mental. Hoje quebrei a regra, porque queria saber o que se passava com Pedrogão Grande, assunto que irá continuar a ser preocupação minha.
Apanhei de imediato mais incêndios. Desta vez, perto de Alvaiazere, onde tenho amigos, o que me deixou preocupada. Mas a seguir o nosso PM apareceu a falar de Pedrogão e eu fiquei a ouvir. Já tinham sido reconstruídas cinco casas e oito estavam a caminho. Algumas fábricas começavam a receber o auxílio necessário com medidas da Segurança Social. Quanto ao inquérito e às suas conclusões ainda teríamos de esperar. 
Quanto aos 13 milhões de dádivas nada foi dito. Continuamos, portanto, bem. Daqui a uns tempos vem o inverno e já ninguém fala de fogo. Só na lareira...

HSC

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Há pessoas assim...

A cativante boa disposição, a bonomia, a alegria, o sentido de humor, a abertura aos outros, a atenção ao novo faziam com que conversar com o António, passear com o António, ouvir o António a dissertar sobre as coisas que de que gostava, fosse uma festa, que todos antecipávamos com anseio quando sabíamos que o íamos encontrar e nos deixava reconciliados com a vida.

Era mais ou menos desta forma que um colega descrevia o Embaixador Pinto da França, por ocasião da sua morte e que, hoje, sem qualquer razão aparente, me veio à memória.
Analisando a questão a fundo, talvez não tenha sido tão aparente como isso e antes decorra de uma constatação que ontem acabei por fazer, quando fui retirar os seis belos pontos que levei na cabeça, depois do voo rasante, de há oito dias, no meu terraço.
Preparava-me para ir sozinha tratar deste assunto, como já antes acontecera, quando o meu filho se prontificou para “me levar” ao hospital. Prova real de amor filial, já que sei o que ele sente pelo meio hospitalar, depois da morte do irmão. O que significava “levar-me”, mas não “acompanhar-me”. E só uma mãe é capaz de perceber estas  subtis distinções...
Em simultâneo, uma amiga minha, que está a gozar os seus magros oito dias de férias, nem sequer admitiu discutir acompanhar-me à dita efeméride. Levou-me e esperou por mim, com aquela bondade de que eu continuo a beneficiar, sem bem saber porque a mereço.
Ora foi esta minha maravilhosa amiga e a anja Isabel Galriça Neto que me fizeram lembrar o António Pinto da França, um ser humano muito especial, que vivia sempre em osmose com o tempo dentro e fora dele. Há pessoas assim. E eu sou tão privilegiada que conheço mais do que uma!

HSC 


Nota: Esqueci-me de dizer que a coisa não doeu nada, porque o clinico que se ocupou da tarefa era muito bom profissional e também...um pedaço de mau caminho!

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O punk e o clássico...

No meio de todos os azares que convosco partilhei esta segunda feira, eu tinha aceitado ir ao jantar de aniversário de uma pessoa de quem gosto bastante e que eu sabia ter muito gosto em me ter a seu lado.
O dilema que se colocava, nesta altura, era como conciliar a roupa que uso nestas efemérides, com o punk penteado que será meu timbre por algum tempo, nomeadamente pelo menos até à próxima quinta feira em que irei tirar os pontos. Se eles saírem, claro, dado que me parece terem-se envolvido de tal modo com o meu couro cabeludo, que não vai ser nada fácil separa-los.
É evidente que este " gravíssimo tema" já fora alvo de bastante risada das minhas amigas que estavam à espera de ver a insólita combinação do pós moderno penteado, com aquele toque de classicismo que os meus trajes desta natureza, sempre têm. Até porque, como os uso muito pouco, são obrigados a atravessar vários eventos!
Para o azar ser completo, a minha cabeleireira de bairro tinha ido para férias, pelo que fui obrigada a ir àquela onde só piso para trabalhos especiais, como corte ou madeixas. Dispenso-vos a descrição da aventura da lavagem da cabeça, onde os pontos se parecem mais a pequenos alfinetes. Foi trabalho demorado mas lá acabei no brushing propriamente dito, que podem supor o trabalho que deu. Mas saí em beleza, com o cabelo curtíssimo, todo penteado para trás.
Vesti-me de negro, pus uma bela capa de tafetá, presente antigo de um dos filhos e lá me apresentei, menos mal, ao espanto dos amigos. A alegria suplementar da noite foi concluir que, na minha idade, já posso misturar todos os estilos, que ninguém leva a mal...

HSC

domingo, 6 de agosto de 2017

Bruxa encartada, precisa-se!


Tirando 2012, altura em que perdi o meu filho mais velho, 2017 tem sido um ano para esquecer. Fiz duas intervenções cirúrgicas, morreram uma série de bons amigos e se hoje escrevo estas linhas é por um verdadeiro milagre. Com efeito, anteontem dei uma queda no meu terraço que podia ter sido fatal. 
Não foi. Mas, para variar, salvaram-me os amigos, já que a família estava toda fora. Filho e netos para um lado, mano e cunhada para outro. Assim, falei para uma amiga médica e, a deitar sangue, chamei um taxi -  o desgraçado taxista estava tão assustado, que voou - e lá dei entrada nas urgências do hospital.
Apesar de não ter morrido, tive de actualizar a vacina contra o tétano e fazer um TAC à cabeça, na qual acabei por levar seis pontos, que me doem quando quero rir. O que, no meu caso, é uma maçada porque eu não gosto nada de tristezas. 
Como tenho a cabeça rapada de um lado - maravilhosas mãos da cirurgiã que tentou que a clareira fosse a mais reduzida possível - agora penteio-me de outra forma, estilo punk, que na minha idade me deixa muito mais sedutora... 
Por favor, arranjem-me uma bruxa encartada, que passe recibo verde. Estou mesmo necessitada! 

HSC

Fez bem Senhor Presidente!

Depois de ter recebido no seu gabinete os representantes de Pedrogão Grande, Marcelo Rebelo de Sousa deslocou-se, neste fim de semana, às zonas mais afectadas pelos fogos em Portugal.
Fez bem, Senhor Presidente, porque é em si que aquelas pessoas depositam a confiança que necessitam para acreditar que um dia as suas vidas vão voltar à normalidade.
Regresse a essas zonas sempre que puder - e marcando bem que as visitas nada têm a ver com as autárquicas - para lhes dar o ânimo e a esperança de que carecem para continuar a viver, pois o Senhor é o garante de que elas jamais serão esquecidas.

HSC

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O perdão

Quando se fala em perdão, tem-se logo a ideia de que nos referimos aos outros e que a palavra envolve algo de religioso. É natural que assim seja, já que para a Igreja Católica o perdão é constantemente referido na Bíblia e está muito presente nas palavras dos apóstolos.
Mas, na verdade, a palavra usa-se em vários sentidos. Perdoar é a ação humana de se libertar de uma culpa, de uma ofensa, de uma dívida e de muitas coisas mais. O perdão é um processo mental que visa eliminar qualquer ressentimento, raiva, rancor ou outro sentimento negativo sobre determinada pessoa ou por si próprio.
Tudo isto nós sabemos e, com mais ou menos dificuldade, vamos tentando que o relacionamento com o nosso semelhante não seja afectado pela intolerância.
Mas o que me faz abordar este tema é algo de que falamos pouco e praticamos ainda menos. Falo do perdão essencial de nós próprios, das nossas fraquezas, das nossas dificuldades. 
Sempre tentei ter para comigo uma posição muito próxima daquela que tenho para com os que me rodeiam. E se me não custa pedir desculpa por um erro cometido contra alguém, também me esforço bastante por perceber as razões profundas do meu comportamento e, portanto, por me libertar de complexos de culpa que, por norma, têm mais a ver com o peso da opinião dos outros do que com a minha própria.
Levei muitos anos a compreender que o meu equilíbrio pessoal passa pela minha capacidade de me perdoar e de não ser excessivamente dura para comigo. Não sou asceta. Sou humana, tenho falhas, cometo erros. Aceitar isto foi o primeiro passo para me aceitar tal como sou e, confesso sem modéstia, a sentir-me confortável com as tentativas que faço para me tornar uma pessoa melhor. 
Julgo que seria bem importante que desde pequenos pudéssemos abertamente falar da necessidade do perdão pessoal nas nossas vidas. Evitar-se-iam múltiplos complexos de culpa e o sofrimento que os mesmos implicam.

HSC

terça-feira, 1 de agosto de 2017

À atenção de Fernando Medina


A zona onde vivo está infestada de baratas enormes que enchem passeios, garagens e carros. São voadoras e constituem uma desagradável imagem de quem aqui vive. Habito esta casa há cerca de 30 anos e nunca um destes bichos por cá apareceu. Agora andam displicentes pelo chão, paredes e tetos de habitações várias. 
Ao que pude apurar a CMLisboa fazia desinfestações periódicas nos esgotos da cidade. Algo se deve ter passado neste campo. Ou foram as cativações, ou foram as árvores plantadas nas principais vias rodoviárias ou foi proteção do PAN, ou uma outra qualquer razão fez com que tenhamos de conviver com tão nojentos bichos. 
Aqui no meu prédio os condóminos já procederam a duas desinfestações caras e ineficazes, porque localizadas e a intervenção tem de ser a nível de esgotos centrais.
Por favor Senhor Presidente da Câmara de Lisboa, Senhor Presidente da Junta da Lapa e Senhor Presidente da Junta da Estrela, isto é um problema de saúde pública que urge resolver. Resolvam-no com a maior brevidade!

HSC

terça-feira, 25 de julho de 2017

O segredo...de justiça!

"Acabo de assistir com perplexidade pela televisão a um primeiro-ministro e dois ministros dizerem que não podem revelar a lista de mortos em Pedrógão Grande porque está em "segredo de justiça". Querem enganar quem? Como eles obviamente sabem, a identidade de vítimas mortais nunca pode estar em segredo de justiça, uma vez que a morte de alguém é um facto público que tem que ser obrigatoriamente inscrito no registo civil, que qualquer pessoa pode consultar. A fuga deste governo às suas responsabilidades é de tal ordem que já não há limites para a sua falta de vergonha."

                  Luis Menezes Leitão in Delito de Opinião

Confesso que considerar a lista de nomes dos mortos no incêndio de Pedrogão Grande, algo do âmbito do segredo de justiça, deixa-me igualmente perplexa. Por essa ordem de ideias, nunca saberíamos a lista de mortos na guerra que, por maioria de razão, não poderia ser revelada...E muito menos homenageada!
A inépcia - estou a ser muito educada - tem limites. Fazer de nós parvos também. Este governo, desde que a roda da fortuna se inverteu, está a ultrapassar a red line, de uma forma chocante.
E o Presidente da República tem que ser menos afectuoso para com este tipo de situações, já que, sendo de Direito, sabe muito bem até onde aqueles limites podem ir.
O problema da proximidade do povo distribuindo beijos e abraços reside aqui, em situações como esta. É que um dia, o povo vai pedir-lhe contas, porque considera que só ele é que pode e deve resolver os conflitos. Não queria, confesso, estar na pele de Marcelo Rebelo de Sousa!

HSC

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Venezuela: o outro drama

Ouvi a reportagem feita pela SIC sobre o outro drama que os portugueses estão a atravessar e que se chama Venezuela. Todos os dias chegam à Madeira de onde seus Pais partiram, centenas de "filhos" que fogem daquele país, onde no passado, os avoengos foram buscar aquilo que a sua terra lhes não podia proporcionar. É lancinante ouvi-los contar as suas vidas, enquanto a nossa se divide tranquilamente entre a sopa e a fruta.
Há muitos anos, com uma ponte aérea - que hoje não sei se será alguma vez possível -, e em tempos de ditadura, o país acolheu e absorveu meio milhão de portugueses. Agora o que é que o governo terá decidido fazer, se é que decidiu já alguma coisa, relativamente a este melindroso assunto?
Pessoalmente deveríamos ser informados do que se está a pensar fazer, até porque, de uma maneira ou de outra, todos nós seremos chamados a ajudar estes portugueses, alguns já nascidos no pais que acolheu os seus ascendentes. 
Para quando uma declaração do Primeiro Ministro sobre a matéria, já que a do Ministro dos Negócios Estrangeiros, para mim foi muito pouco clara?

HSC

domingo, 23 de julho de 2017

A carta de uma mãe de Pedrogão Grande

O Jornal Publico dá, hoje, a conhecer a carta de Nádia Piazza, a mãe da criança de 5 anos que morreu no incêndio de Pedrogão Grande. Quem já perdeu um filho, conhece esta dor. Mas perdê-lo por incapacidade de o salvar de um fogo é, seguramente, uma dor insuportável. É por isso que sinto obrigação de vo-la dar a conhecer. E de vos falar da Associação que entretanto foi criada, para que nada fique no esquecimento. 
Senhor Presidente da República, seja o garante deste movimento de cidadãos e dê-lhes toda a sua atenção. Porque eles vão merecê-la e precisar dela por muito tempo ainda!

CARTA

"Estamos tão cansados, mas não podemos estar. Os mortos não se calam e não nos deixam cansar. Gritam por Justiça! Exigem Mudança!

A Associação das Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande, o grande, brutal e devastador incêndio que lavrou do dia 17 a 24 de Junho de 2017, nos concelhos de Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra, é um movimento cívico que partiu dos familiares e amigos das vítimas mortais desta tragédia. Uma associação cujo mote é apurar responsabilidades e ajudar a construir um futuro em que tal tragédia e crueldade não volte a acontecer!
Esta é a descrição do que pretendemos ser, com a ajuda de todos e a lembrança de todos aqueles que partiram. Porque hoje somos uma comunidade traumatizada. Uma comunidade sujeita a uma tal brutalidade que não se nos apaga da memória... O cheiro a terra ardida é algo que nos envolve, que nos macilenta e que se entranhou em cada um de nós.
A perda de dezenas de vidas e de forma tão trágica que roça a loucura deixou uma sociedade e todo o seu contexto à volta num luto imposto. A vida acabou ali, naquela estrada para muitas pessoas. Inocentes. E acabou também parte de uma vida para os que ficaram. Os que ficámos, ficámos mais pobres, mais sós, apenas com o alento das memórias, mas com a revolta de toda esta situação. São filhos sem pais. São pais sem filhos... são casas sem gente, é gente sem gente, não é natural!
Olho à volta e as pessoas não se riem, choram sozinhas, acanhadas, não se olham nos olhos, com vergonha pela sua impotência, com medo; o cenário é deprimente e não nos ajuda a superar com dignidade a tragédia. O Inverno não tarda e com ele as ruas despidas de vida. Despidas de ainda mais vida.
Há rancor, ressentimento com o território e com as entidades públicas. O Estado falhou. A Nação não existiu.
Mas não falhou apenas nesta tragédia. O Estado vem falhando ao longo de décadas. O Estado padece de uma cegueira crónica, está enfermo de um tal sentimento de negação de si próprio. Nega o seu estado de país rural, um país orgulhosamente rural e por isso mesmo rico.
Enquanto Estado é um conceito frio, masculinizado, distante, de um ente que impõe tributos e leis aos seus súbditos, um amontoado de entidades supostamente hierarquizadas, com dirigentes supostamente competentes, e que supostamente deveriam cumprir e fazer cumprir um conjunto de leis e regras que se vão aprovando (ou não!) conforme as vontades políticas da estação. Assim se vai governando Portugal. Sem pactos de regime e visão a longo prazo. Vão-se puxando o tapete uns aos outros, não se apercebendo que, por fim, só restam cacos, dor e tristeza para governar.
Nação, por sua vez, é um conceito acolhedor, integrador, feminino, belo, quase maternal, que agrega o seu Povo e o seu Território. É o que dá sentido à reunião das pessoas num determinado território a que chamamos “a nossa terrinha”, “o nosso cantinho a beira-mar plantado”, a proa desta “jangada de pedra”. Portugal.
O Estado falhou nesta tragédia levando consigo o sentimento de pertença de Nação que tínhamos. O Estado não protegeu a sua Nação. Não assegurou o seu Território e com ele o seu Povo...
Fomos vítimas desta ausência insuportável de Estado. Ontem e hoje. Mas não amanhã. Porque já chega de incêndios que ceifam vidas. Incêndios como os de 2003, 2005 e Junho de 2017, e que contabilizam, até a data, 100 vítimas mortais em solo português, não podem voltar a acontecer. É hora de todos dizermos “Basta!”. Este Estado que não quer ver secou uma parte importante da sua Nação, aquela que moveu este país por séculos, o Interior.
A primeira muralha e frente de defesa do País no passado contra as invasões estrangeiras, o celeiro do País em tempo de vacas magras, o emissor de soldados nas guerras ultramarinas, o mercado de mão-de-obra barata em tempos de construção europeia... Quando o Interior e os seus recursos já não eram precisos, substituídos pela oferta de bens e serviços mais baratos, o Povo e o Território do Interior foram abandonados À sua sorte. Emigrem! E assim o fizeram, abandonados à sua sorte.
Não houve solidariedade em tempos de vacas gordas, não houve estratégia para o Território quando os dinheiros dos Fundos Estruturais Europeus chegavam a rodos. Foram anos de esquecimento, de esvaziamento progressivo e consistente das instituições regionais e locais, depois seguiram-se as empresas e, por fim, as pessoas. Sobreviver é preciso.
Foram sucessivas décadas de descaso com o Interior, de negligência com o Território, com a Floresta e a Agricultura. Tendo como consequência a emigração das pessoas em idade ativa, restando uma população envelhecida e empobrecida a exigir cuidados redobrados do pouco Estado que restou e que nos foi esventrado e sobretudo das autarquias locais e misericórdias.
Parecia propositado... o Interior tornou-se terra de ninguém, envergonhado de o ser, abandonado e, assim, por fim, vergado.
Deveríamos dar graças por nos termos tornado a maior região eucaliptizada da Europa... Fomos “agraciados” pela falta de oportunidade! O Território estava a saldos e ninguém quis saber.
O Interior tornou-se um canteiro de ervas daninhas, sem jardineiros — as suas gentes. Um barril de pólvora em que se soma a indústria do fogo institucionalizada e um qualquer ano eleitoral. Os ingredientes ideais para a tempestade perfeita.
A tragédia de 17 a 24 de junho de 2017 estava mais que anunciada. Foi apenas uma questão de tempo... e o tempo não pára! E com ele foram muitas vidas abreviadas. Cedo demais... Cedo demais!
Por ti, meu filho..."
Nádia Piazza, mãe de uma criança de cinco anos que morreu a 17 de Junho de 2017 em Pedrógão Grande


HSC