terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Birdman


Devo ser a única cidadã que ousa não gostar do filme Birdman, concorrente a vários Oscares. Não li até hoje nenhuma crítica que não fosse de marcante elogio. Seguem-se alguma palavras retiradas dessas mesmas críticas que me irão ajudar a explicar porque é que não gostei da pelicula.

Trata-se da história de uma peça cujo personagem principal vive uma crise de identidade, pois perdeu o amor e o reconhecimento de que antes usufruíra. Drama, aliás vivido pela personagem do próprio filme, o actor Michael Keaton - que já foi famoso e estava velho e esquecido - num filme sobre o teatro, uma arte anteriormente famosa para nos questionar sobre a linha ténue que separa o real e o irreal, a fama e o esquecimento, a glória e o fracasso.
Birdman não tem o sopro de tragédia que perpassava em Sunset Boulevard. Mas é uma fabulosa descida aos bastidores do mundo do espectáculo, cruzando teatro com cinema, talento artístico com sucesso de bilheteira, actores de carne e osso com a sua fantasiosa projecção no ecrã, onde o facto se torna mito e por vezes se desvanece na proporção inversa à lenda que forjou.
Birdman é uma película do mexicano Alejandro González Iñarritu, que em 2003 rodou o fabuloso 21 Gramas e que, três anos mais tarde, foi nomeado para o Óscar de Melhor Realização com Babel. Candidata-se agora, de novo, à estatueta que premeia o cineasta do ano.
Keaton, estrela cadente de blockbusters do passado (é evidente a alusão a Batman, o herói de banda desenhada por ele interpretado no cinema em 1989 e 1992), procura demonstrar aos outros - mas sobretudo a si próprio - que sabe voar sem necessitar das asas metafóricas do super-herói a que deu rosto humano.

Ora é exactamente por estas razões que o filme me soou a falso, numa espécie de manta de retalhos na qual os bocados de pano velhos - o real - não casam com os novos - a ficção. Trata-se da descrição de um ser humano profundamente egoista, que só pensa em si mesmo e numa carreira pessoal que convença os outros daquilo em que nem ele próprio acredita. E, quando tudo aponta para a remissão da criatura, ele volta a mostrar ser quem de facto é, perante uma filha da qual afinal se não diferencia, pese embora tentar tutelar a sua vida. 
A interpretação de Michel Keaton é excelente, mas forçada. E, quando a comparação se faz com o “21 gramas” do mesmo realizador que tem como protagonista um Sean Penn fabuloso – também não gostei de Babel com o idolatrado Brad Pitt, apenas salvo por Cate Blanchett, essa sim, excelente – a diferença para este Birdman é enorme!

HSC

8 comentários:

Isabel Mouzinho disse...

Não vi os filmes do mesmo realizador a que alude, Helena, e por isso não posso fazer essas comparações, mas aquilo de mais gostei no filme será talvez justamente aquilo de que a Helena não gostou: do ser humano egoísta e imperfeito, como somos todos mais ou menos, em diferentes graus; e do cruzamento entre o teatro e o cinema, a ficção e a vida, quando na realidade ali tudo é apenas ficção e nesse sentido há uma certa "mise en abîme" que sempre de certo modo me encanta.

(Mas ainda bem que não gostamos todos das mesmas coisas, senão a vida seria uma imensa monotonia...) :))

Piquenina disse...

Junto-me a si no não gostar deste filme.
E como ainda não leu uma crítica que não seja a idolatrar o filme deixo-lhe aqui esta.
http://observador.pt/2015/01/08/birdman-o-palco-ou-o-passaro/

CF disse...

Pronto. Fiquei curiosa... :))

bea disse...

A Helena Não está sozinha. Também não gostei muito do filme que toda a gente adora. Achei o final sem jeito de nada embora as interpretações cinéfilas o considerem um "must". Também não gostei muito de Babel. 21 gramas é um bom filme com um óptimo actor. Michael Keaton não é um actor especial, se bem que neste filme, apesar da personagem não me agradar, tem um bom desempenho.

Na verdade, dos filmes que vi, potenciais candidatos a óscar, foi o que menos me agradou. E nenhum me pareceu extraordinário.

Paulo Abreu e Lima disse...

Sabe que discordo de si. O "truque" de um único plano sequencial faz-nos permanecer atentos ao que é "real", ao que é apenas "ego" e ao que o protagonista converteu em realidade (conseguir voar sem asas - sem ego inflado). Pelo meio ganhou uma filha, percebeu o divórcio e voltou a ser celebridade on stage. Relembrando apenas o nome da obra de Schopenhauer, O mundo como vontade e representação.

CF: fosses connosco! :-)

Anónimo disse...

Até que enfim que encontro alguém, e com uma capacidade de análise e critica excelente como a Helena, que também não gostou do filme. Aliás, odiei. Vi os primeiros 15minutos e pensei desistir, mas dei o beneficio da dúvida e vi até ao fim... foi o tempo mais mal gasto nos meus últimos 10 anos!! Valeu a interpretação da Emma Stone. Ah e se o dito arrecadar os tais 9 Óscares, corto os pulsos... do vizinho!! Agora se falarmos no Grand Budapest Hotel ou Cake, meus senhores, que filmaços!!
Paula

Anónimo disse...

... e a música??? Irritou-me de tal maneira que a meio do filme já tinha os "phones" do Tlm nos ouvidos a ouvir bandas sonoras do Ennio Morricone.
Paula

maria franco disse...

Voltei atrás, mas julgo que será
avisada deste comentário atrasado.
Tem a ver com cinema e como vi hoje um filme magnífico ,
gostaria de o recomendar
pois poderá fazer alguma referência
para alertar quem ainda não o
viu,
isto claro se concordar com a minha opinião sobre o filme.
"Mil vezes boa noite"
http://youtu.be/v2o0nCLLDUQ
Até a música final é linda!
Sempre tudo de bom para si e
obrigada por ser como é.
M.Júlia