quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Uma carta de amor


Afinal consegui ter a coragem de vir. Acabei de chegar depois de uma viagem turbulenta. A mala - desta vez não vim apenas com a carteira - demorou a ser libertada e houve alguma confusão com outro vôo que aterrara à mesma hora oriundo não sei de onde.
O tempo estava abafado e o céu estava rosado, como tantas vezes acontece aqui em Paris, por volta do fim da tarde. Tomei um táxi e à medida que me aproximava de casa, o coração começou a ficar apertado. Afinal passaram muitos meses sem cá retornar. A paisagem, tão minha conhecida, estava igual.
Meti a chave à porta com o vagar de quem não sabe se é capaz. Rodei-a devagar, mas ao ouvir o som do ferrolho a mexer-se, parei. Precisei de inspirar duas ou três vezes, antes de rodar de novo a fechadura.
A nossa Maria, como sempre, havia deixado tudo em ordem. Nem as tulipas amarelas de que tanto gosto, ela esquecera. Comoveu-me o cuidado posto em deixar a casa como um brinco, a lembrar outras chegadas bem mais felizes. Os cortinados meio abertos deixavam entrar a luz do fim de dia.
As pernas tremeram-me. Não era medo, mas sim angústia. Aquela que nos paralisa todos os movimentos, a contrastar com a alegria com que costumavamos entrar os dois, por volta desta hora. Agora sou só eu e foram necessários setecentos dias para arriscar tornar à cidade e à casa.
As fotos, nos lugares habituais, pareciam esperar, como antes, o meu primeiro gesto. Mas eu não bugia, pregada ao chão da entrada.
Quanto tempo terá passado? Não sei. Sei apenas que se tornou necessário abrir a luz e só depois fui capaz de me mexer. Mas pouco. Hesitei, mas sentei-me no teu cadeirão, à espera de sentir esse abraço e esse cheiro, tão especiais, mistura de tabaco e alfazema. 
Diria que senti uma réstea desse odor, quando apoiei a cabeça. Mas ele trouxe consigo uma espécie de calafrio que assaltou o meu corpo e me lembrou o dia em que voltei do cemitério. Aquele que te apartou irremediavelmente de mim.

HSC

30 comentários:

João Menéres disse...

Já lá vão mais de dois anos...
Além de filho, pressente-se que lhe tinha um amor muito mais especial.
O Miguel devia dar-lhe muito carinho !...

Melhores cumprimentos.

Anónimo disse...

Querida doutora Helena:

Habitualmente rio consigo, hoje (neste post) as lágrimas vieram-me aos olhos. Belíssimo texto!

Um beijinho,
Vânia Baptista

Anónimo disse...

Mãe Querida
Alguém verdadeiramente essencial segura suas mãos e conforta o seu coração.
23 violetas para si
http://youtu.be/Hq_-2A_JH_8

23

Rosa Afonso disse...

Que amor é este? Por quem? Não fica claro, mas ainda assim, há uma essencia e uma emoção que perpassam, e isso é o que importa.

Isabel Mouzinho disse...

Diante de um texto destes, tão emotivo e tão bonito, fico sem palavras.

Deixo-lhe, apenas, um abraço, grande e silencioso.
Isabel

Helena Sacadura Cabral disse...

Rosa Afonso
Uma carta de amor tornada pública pode ter vários destinatários, nomedamente quando é escrita por alguém que vive da escrita.
Esta teria um destinatário que já morreu.

Virginia disse...


Um filho é insubstituivel.

A presença dele ou dela, no entanto, ficará para sempre viva dentro duma Mãe.

Texto magnífico...nada se esquece...

mina jesus disse...

Meu Deus Drª.Helena que linda carta ao seu filhote.Fiquei arrepiada e com lágrima ao canto do olho.

Que mãe coragem! Obrigada por ser a mulher, mãe a avó que é! sempre a conseguir lavantar o meu ego, sempre e quase todos os dias que passo por esta sua e muito boa estrada.Abraço Mina

Silenciosamente ouvindo... disse...

Apenas um bj.
Irene Alves

Sandra disse...

Belo!

Anónimo disse...

Hand on hand.

Ghost Casper

Fatyly disse...

Como sempre e bem ao seu estilo pessoal. Força, muita força... porque ele assim o queria e com toda a certeza lhe terá pedido muitas vezes.

Um abraço sincero

Maria do Porto disse...

Esta carta é um POEMA!
Triste, mas BELO...
Um beijinho...

Anónimo disse...

Uma carta de Amor.
2332 número de seguidores - capicua.
Sorte de quem recebe uma carta assim.
Os números falam por si.
Líndíssima!
FT

Anónimo disse...

L' Amour c'est L'Amour toujour...
Merci e bisou.
Pierrô

CF disse...

Sai sempre tudo tão perfeito, quando deixamos falar o coração...

TERESA PERALTA disse...

Maravilhosa esta carta de amor.
Um abraço bem apertadinho que dê muita força a esse querido coração.

Anónimo disse...

Que este amor seja abençoado por toda a eternidade.

http://youtu.be/5ZGGqe293MM

A

© Piedade Araújo Sol disse...

da mãe para o seu filho, que infelizmente já partiu, memórias que ficam e dor que nunca se apagará.

comovida estou!

:(

maria isabel disse...

Doutora Helena

Diz o poeta que todas as cartas de amor são ridículas????

Esta é Lindaaaaaaaaa!!!!!!

Abraços apertados

Anónimo disse...

É tão comovente o amor de MÃE (infelizmente sei também do que estou a falar). Fica para sempre uma dor que nunca é indescritivel.Permita-me que escreva aqui uma quadra de um poeta popular que diz:
Com três letrinhas apenas
Se escreve a palavra mãe
Que sendo das mais pequenas
É a maior que o mundo tem

Obrigado por escrever do modo que o faz.Muita força e um abraço
J.P.

Francisco Seixas da Costa disse...

Embora generosos, estou em crer que muitos dos seus comentadores não terão entendido exatamente aquilo a que a Helena se referia. Um abraço solidário

Helena Sacadura Cabral disse...

Francisco
Todos nós temos uma imagem, cuja leitura é, no meu caso, aqui muito clara.
E que, confesso, me reconforta.
Porque terei sabido defender a minha intimidade num tempo em que a maioria a expõe. E os meus leitores são, de facto, muito generosos!

Paulo Abreu e Lima disse...

E se me permite: defender a sua intimidade com esta carta de amor é uma bênção ao alcance de muito poucos.

Beijinhos amigos,
Paulo

maria isabel disse...

Eu penso que entendi...

daí achar linda

Anónimo disse...

Maria (publicamente anónima)
Bom dia Dr.ª Helena!
Que maravilha! Aliás, como tudo o que a Senhora escreve. Mas esta carta é uma pérola!
A começar pelo título “Uma carta de amor”. Onde leio muita ternura, tristeza, saudade e o regresso a um lugar cheio de recordações. Mesmo não sabendo a que se refere, isto é certamente íntimo, ou não. Até pode ser imaginário! Como muitas cartas de amor! E estas normalmente são claras apenas para os destinatários.
Fico sempre maravilhada com o modo como a Senhora expõe sem se expor. É maravilhoso. E a Senhora tem esse “Dom”. Deixa um pouco ao critério do leitor e isso, para mim, é muito bonito. Acho uma grande sabedoria da parte de quem escreve e a Dr.ª Helena tem essa sabedoria. E muito mais… confesso que fico sempre confortada com a sua escrita.
Se me permite vou deixar aqui uma quadra da minha autoria que explica um pouco o que eu penso, em algumas situações, como leitora…

Quando for grande querei
Saber ler nas entrelinhas,
Agora, por certo não sei
Porque ainda sou pequenina

Beijinho e tenha um bom dia
Maria M

Anónimo disse...

Ainda um dia vou escrever uma Carta aberta a HSC,
Estou a ganhar coragem.

:-)

Anónimo disse...

Que carta de sonho.
E imaginei alguém a cantar-lhe assim
http://youtu.be/tXW792NlW04
Momento de puro afecto.
Boa partilha.

Anónimo disse...

Maria (publicamente anónima)
Só agora vi que deixei passar um erro na quadra que enviei no pasado dia 8. Venho pedir desculpa e corrigir.Obrigada

Quando for grande quererei
Saber ler nas entrelinhas,
Agora, por certo não sei
Porque ainda sou pequenina

Beijinho
Tenha um bom fim-de-semana
Maria M

Anónimo disse...

Grande MULHER!