quarta-feira, 27 de agosto de 2014

O essencial e o acessório

Se há luta que, ao longo dos anos, tenha travado comigo mesma, é, sem dúvida, a de tentar saber distinguir, sem muitos rodeios, entre o essencial e o acessório. Mas nem sempre é fácil, sobretudo nos dias de hoje, em que este último se traveste, frequentemente, do primeiro.
Com efeito, para fazer esta distinção é necessário possuir robustez moral, força de vontade hercúlea e, sobretudo, o desejo de fazer da nossa vida algo de que possamos orgulhar-nos. Não pelo orgulho em si, mas para podermos chegar ao fim com a sensação de que terá valido a pena viver.
A existência da grande maioria de nós desenrola-se entre dois mundos distintos. O da profissão e o da família ou, se quisermos ser mais precisos, entre o labor e os afectos. No primeiro, nem todos temos o que se apelida de vocação, a qual, só por si, quando levada a bom termo, é redemptora da vida. Grande parte de nós tem uma profissão - que muitas vezes até nem escolheu - da qual vive, de que até gosta, mas que não corresponde a qualquer tipo de chamamento interior. Tem aquela como poderia ter outra, igualmente satisfatória.
No segundo, o que antes valia bastante, vale agora muito pouco. A família é, nos dias que correm, um núcleo alargado de pessoas, onde os laços de sangue são apenas um dos factores que as ligam entre si. Existem outros, não menos importantes.
Ora é no equilíbrio entre estes dois pratos da balança da vida de cada um que é forçoso descobrir o essencial, o que vale de facto a pena, o que justifica que sejamos quem somos. Com a agravante de que a sociedade actual tende a dar prevalência à vida profissional em detrimento da familiar. Erro crasso que, mais tarde ou mais cedo, se irá pagar muito caro. Em particular, quando perante a reforma, somos confrontados com aquilo que fizemos do tempo que já vivemos!

HSC

17 comentários:

Fatyly disse...

Excelente como sempre...e estou plenamente de acordo!

Um enorme abraço

Virginia disse...


Neste caso, sinceramente, penso que é perigoso generalizar. Cada indivíduo é especial, tem prioridades diferentes, percurso diversos, famílias completamente dispares, não há respostas, nem soluções de problemas que sirvam para todos.
De um momento para o outro, a vida dá uma volta e para sobrevivermos, por vezes precisamos de ajudas externas que pensávamos nunca vir a precisar.
Para quem foi educado em famílias tradicionais e católicas, as transformações dos últimos 40 anos foram um autêntico terramoto, quer no plano familiar, quer no profissional sobretudo para as mulheres.
Essencial e acessório variam com as situações, com a idade, com a saúde ou falta dela, com as possibilidades financeiras, com os laços familiares, com o sucesso profissional...

E fico por aqui, pois daqui a nada escrevo um comentário maior que a entrada!!

Anónimo disse...

Concordo, mais uma vez, com tudo o que é dito, e, esmiúço...

É preciso que haja capacidade de perceber-se aquilo que se fez do tempo que já se viveu, o que e como se cultivou. Refiro-me aos afectos, e junto da família, seja ela de sangue, ou construída.

Não raras vezes, assisto a situações várias de "reformados", que, estando agora numa situação de maior fragilidade, seja esta de natureza física, ou social, invariavelmente, esperam/"exigem" afectos dos familiares de sangue, que nunca, na qualidade de pais ou avós/irmãos/tios souberam (conseguiram?) dar.

A parte complicada da questão: esses filhos, netos, sobrinhos, irmãos, porque não são capazes de fingi-los (os afectos)
e, por muito difícil que seja assumi-lo, têm muita dificuldade em exprimir o afecto (muito ou pouco, o que existe) que sentem.

Tenho bem presente as centenas de euros que o último envelope que recebi do meu avô, já no seu leito de morte, tinha, mas os cinquenta escudos prometidos em troca de uma ajuda que lhe dei, e que nunca me foram dados, também cá ficaram muito, e tristemente, registados. Confesso, preferia ter recebido os cinquenta escudos em troca do balde de azeitonas que enchi, aos 500€ daquele último envelope (todos os anos, pelo meu aniversário e pelo Natal, recebi um generoso envelope). Foi, em boa verdade o único "afecto" que conheci deste meu avô.

Percebo, que as agruras da vida levem "os reformados" a sentir necessidade de receber afecto e a insurgir-se com veemência se não sentem que recebem aquilo de que precisam (sob a forma de tempo passado com, refeições feitas em conjunto, passeios, frequência de contacto, enfim...).

Constato que, muitas vezes, não existe ressonância interna (refiro-me aos "reformados") do que não se deu, não se cultivou, não se viveu, não se, naturalmente, foi. E, inevitavelmente, o impacto que esta omissão tem na relação com os que nos rodeiam.

Confesso, com tristeza, porque gostava de ser capaz de exprimir um afecto que não me foi dado e conseguir corresponder ao que me é solicitado, que é, eventualmente, impossível fazê-lo, sobretudo, quando está tão vincada e indelevelmente presente na memória, a esfinge marmórea que foram connosco. Lidar com a culpa que, irremediavelmente, nos fazem sentir, porque não correspondemos áquilo que nos é pedido, também não é menos doloroso. Devolver, sem ferir, nem agredir, a omissão de afecto que houve da outra parte, no passado, também nem sempre é bem acolhido, ou gera a tal ressonância de que falava inicialmente.

Não diria que é maldade, ou retaliação, por parte dos não reformados. É, simplesmente, vazio... Dou por mim a cumprir as formalidades de ordem prática que, em bom rigor, foi o que se construiu como o normal na respectiva relação.

Agrava-se a questão por via da minha relação com os meus cães, alvo de incompreensão, reprovação e... inveja.

Pergunto... sem ressonância interna do que refiro, e aos 70/80 anos, ainda se vai a tempo de reparar relações?
Na verdade, acho que sim. Mas não acho que seja acessível a todos, sobretudo, se estes todos foram forjados na aridez emocional precoce e reforçada toda uma vida.

TERESA PERALTA disse...

Gostei muito e retiro o seguinte: Colocar na balança sempre um peso maior no prato do coração e dos afectos; reflectir muito, para que, ao decidirmos, seja sempre com a consciência de que as opções, apesar de nunca perfeitas, são as melhores que poderíamos tomar. Os remorsos profundos, mesmo que, não assumidos, devem ser bastante difíceis de suportar....
Beijinho e ate amanhã.

Til disse...

Nem sempre,quase nunca, as pessoas distinguem o essencial do acessório e nem sempre sabem priorizar de forma correcta.Digo eu,que provavelmente também não sei...Mas sei o que é importante para mim.Mais do que a profissão é a família,muito mais...Família nuclear.Primeiro os afectos*

Anónimo disse...


Helena, não perca a entrevista com a Judite hoje.
Esqueci-me de assinar o comentário q fiz anterior.

Carla

Helena Sacadura Cabral disse...

Anónimo das 23:33
Levanta um problema importante que é de quem não recebeu, por norma, não é capaz de dar. É por isso que é necessária uma vontade indómita para dar, mesmo quando se não teve nada.

Helena Sacadura Cabral disse...

Virgínia
O essencial e o acessório variam de país para país e de pessoa para pessoa, de classe social para classe social. aquilo que eu pugno é que tentemos perceber o que para cada um de nós é essencial.
Para mim, por exemplo, o silêncio é vital. Mas para outra pessoa ele pode ser mortal.
Fazer essa descoberta é que faz dar sentido à nossa vida.

Anónimo disse...

Cara Helena,


só agora, depois de publicado, percebi a extensão do meu comentário (sou a Anónima das 23:33). Queira desculpar.

Sim, vontade indómita, por muito que eu e outros familiares, até sejamos capazes de dar mais, bastante mais direi mesmo, do que aquilo que nos foi dado, constatemos, pela expressão facial, e até mesmo por aquilo que é (agressivamente) dito pelos próprios que nunca chega, nunca lhes basta, ficamos sempre aquém.

Faz-se o que se pode. O melhor que se pode. A verdade é que também eles fizeram o melhor que conseguiram (puderam).

Que a vida a abençoe Helena, que Deus lhe retribua todo o bem que acaba por proporcionar a todos os que aqui vêm [a mera compra dos seus livros, não me parece agradecimento suficiente; como não sei como retribuir-lhe, olhe, lanço as minhas intenções a seu favor para o mundo :)]

Virginia disse...

Obrigada pela resposta, Helena, concordo que cada um de nós é que escolhe o que é essencial e acessório na sua vida, mas estas duas vertentes variam muito consoante as voltas que a vida dá.

Quando a minha filha adoeceu aos 26 anos com uma crise psicótica em Leeds, a minha vida deu uma volta de 180º.
O que considerava essencial - a minha carreira de professora e autora de manuais - deixou de o ser, pois estava disposta a largar tudo para apoiar a minha filha e impedi-la de se auto-destruir. Ao fim de quase dez anos, diz o meu filho que eu salvei a irmã dum fim quase fatal a todos os esquizofrénicos: o suicídio ou o internamento de anos. Larguei o ensino em 2008 por ela e só por causa dela, embora diga sempre que foi por cansaço.
As minhas prioridades giram todas à volta da sua estabilidade. Os acessórios quase não existem.

O silêncio - sobretudo debaixo de agua quando mergulho na piscina - é daqueles acessórios que me ajuda a enfrentar o essencial! Outro acessório ainda mais importante para fazer face ao essencial é a Música, sem a qual, não aguentaria o stress e a ansiedade do dia a dia.

Desculpe a minha prolixidade, mas neste blogue, sei que posso falar à vontade!

Anónimo disse...


Helena chegou a receber o meu comentário, ao seu texto antes das 11:53?
Ás vezes estas tecnologias pregam-nos partidas :)
O comentário foi feito 1/2 minutos antes, penso que com a pressa não assino e volto a entrar , onde falo da entrevista...
Só quero que as palavras que lhe escrevi, tenham chegado ao seu destino nada mais.
O silêncio para mim, também é fundamental, mas em demasia torna-se penoso.
Mais uma vez obrigada!!!

Carla

Helena Sacadura Cabral disse...

Carla
Irei ouvir. Se não for em directo será em diferido.
Obrigada!

Anónimo disse...


Bom dia Helena!
O comentário a que me referia era a resposta ao seu texto, O Essencial e o acessório, devo ter feito algo que não foi enviado...
Aprendi nestes ultimos 2 anos que o importante para mim é o essencial, a relação, os afectos.
Os pilotos são das profissões onde existem mais divorcios, os controladores aéreos suicidios.
Concordo em tudo consigo, a sua mensagem foi bem explicita , concluí que o que penso é o mais correcto, infelizmente na vida diária não é isso que se passa entre as familias. Por isso
o meu odio... tal como o seu, é algo que nos vai transformando, afastando da nossa idealização...

Carla

Carla

Helena Sacadura Cabral disse...

Carla
Um pequeno esclarecimento. Ódio é, felizmente, um sentimento que não tenho.
Porque odiar é o mais negativo sentimento que existe.
Posso ter raivas esporádicas- felizmente sou optimista - mas elas passam com a rapidez das brisas, porque sei que nada resolvem.

Anónimo disse...


Helena,
odiar é uma expressão muito forte concordo, talvez tenha sido exagerada, em algo que não gosto, todos os vicios sejam de trabalho ou outros são maus.
Esse algo ( ciência ) quando não equilibrada torna-se quase uma obsessão, as pessoas esquecem tudo a seu redor e vivem em função do seu gosto pessoal.
Logo, o que eu podia até gostar, porque é muito interessante, passei a vê-la como uma rival.

Carla

Anónimo disse...

Ó Dra Helena boa tarde! Sei que vou parecer um tolinho mas hoje o essencial é o nosso Sporting ganhar ao Benfica no futebol de 11 e no futebol de praia ganhar o campeonato ao Braga.
Diga lá se não ficava feliz?! Eu,muito mesmo!
Um dia muito Cool.
Saudações Leoninas

Kkkkkkkk

Anónimo disse...

Agora,terminados os jogos,preciso eu e mais alguns, um acessório para a "azia".
Se tiver alguma receita aceito!...vai ser noite de "raivas".
Kkkkkkkk