quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Palavras de Mario Soares

Não tenho nada contra Mario Soares. Pelo contrário julgo que ele evitou uma perigosa deriva ao país. Mas houve quem registasse afirmações suas quando era poder e o país atravessava uma crise financeira grave. São tão oportunas que vale a pena lembra-las.
E tal não significa que goste ou apoie este governo. Não apoio nem gosto. Mas isso não quer dizer que preconize, na avaliação política, dois pesos e duas medidas! 
Aqui fica um apanhado, que me foi enviado, de afirmações proferidas por Mario Soares. É fácil comprova-las.

DN, 27 de Maio de 1984
“Os problemas económicos em Portugal são fáceis de explicar e a única coisa a fazer é apertar o cinto”
DN, 01 de Maio de 1984
“Não se fazem omoletas sem ovos. Evidentemente teremos de partir alguns”.

“Quem vê, do estrangeiro, este esforço e a coragem com que estamos a aplicar as medidas impopulares aprecia e louva o esforço feito por este governo.”
JN, 28 de Abril de 1984
“Quando nos reunimos com os macroeconomistas, todos reconhecem com gradações subtis ou simples nuances que a política que está a ser seguida é a necessária para Portugal”.
RTP, 1 de Junho de 1984
“Fomos obrigados a fazer, sem contemplações, o diagnóstico dos nossos males colectivos e a indicar a terapêutica possível”.
RTP, 1 de Junho de 1984
“A terapêutica de choque não é diferente, aliás, da que estão a aplicar outros países da Europa bem mais ricos do que nós”

“Portugal habituara-se a viver, demasiado tempo, acima dos seus meios e recursos”.

“O importante é saber se invertemos ou não a corrida para o abismo em que nos instalámos irresponsavelmente”.
JN, 28 de Abril de 1984
“[O desemprego e os salário
s em atraso], isso é uma questão das empresas e não do Estado. Isso é uma questão que faz parte do livre jogo das empresas e dos trabalhadores (…). O Estado só deve garantir o subsídio de desemprego”.

“O que sucede é que uma empresa quando entra em falência… deve pura e simplesmente falir. (…) Só uma concepção estatal e colectivista da sociedade é que atribui ao Estado essa responsabilidade.
RTP, 1 de Junho de 1984
“Anunciámos medidas de rigor e dissemos em que consistia a política de austeridade, dura mas necessária, para readquirirmos o controlo da situação financeira, reduzirmos os défices e nos pormos ao abrigo de humilhantes dependências exteriores, sem que o pais caminharia, necessariamente para a bancarrota e o desastre”.
“Pedi que com imaginação e capacidade criadora o Ministério das Finanças criasse um novo tipo de receitas, daí surgiram estes novos impostos”. 1ª Página, 6 de Dezembro de 1983
DN, 19 de Fevereiro de 1984
“Posso garantir que não irá faltar aos portugueses nem trabalho nem salários”.
RTP, 1 de Junho de1984
“A CGTP concentra-se em reivindicações políticas com menosprezo dos interesses dos trabalhadores que pretende representar”
Der Spiegel, 21 de Abril de 1984
“A imprensa portuguesa ainda não se habituou suficientemente à democracia e é completamente irresponsável. Ela dá uma imagem completamente falsa.”
“Basta circular pelo País e atentar nas inscrições nas paredes. Uma verdadeira agressão quotidiana que é intolerável que não seja punida na lei. Sê-lo-á”. RTP, 31 de Maio de 1984
La Republica, 28 de Abril de 1984
“A Associação 25 de Abril é qualquer coisa que não devia ser permitida a militares em serviço”
Correio da Manhã, 29 de Outubro de 1984
“As finanças públicas são como uma manta que, puxada para a cabeça deixa os pés de fora e, puxada para os pés deixa a cabeça descoberta”.
JN, 28 de Abril de 1984
“Não foi, de facto, com alegria no coração que aceitei ser primeiro-ministro. Não é agradável para a imagem de um politico sê-lo nas condições actuais”
RTP, 1 de Junho de 1984
“Temos pronta a Lei das Rendas, já depois de submetida a discussão pública, devidamente corrigida”.
6 de Junho de 1984
“Dentro de seis meses o país vai considerar-me um herói”.

HSC

20 comentários:

João Menéres disse...

Mário Soares, talvez devido ao peso dos anos, está desmemoriado do que disse enquanto era um homem lúcido.

Melhores cumprimenyos.

Virginia disse...


Será que o país ainda o considera UM HEROI??


I wonder....

Fatyly disse...

Eu ao contrário de si, eu tenho dito sempre que não gosto nem um bocadinho de Mário Soares devido à péssima descolonização que fez em ou com Angola, o antes e depois, e pelo que nos fez passar de 80 a 86 que privatizou tanta coisa e não foi mais longe porque tinhamos o escudo. Foi o obreiro de termos entrado na CEE e referendou o povo? Enfim...devia era estar de pantufas, a curtir a lareira e a sua choruda reforma, o milhão de euros para a sua Fundação...do que andar a fazer estas tristes figuras.

Quanto ao actual executivo, também "nem apoio e não gosto"... pois "a corda está esticar demais" e não têm a noção exacta da crise humanitária já instalada, porque passamos a meros números e só nos falta a tabuleta ao peito.

Até o Papa Francisco já deu o alerta mundial...porque a arma mais mortífera é "um povo desnorteado pela fome, precariedade e doença"

e já passei por isso.

Não abro mão da esperança de um futuro melhor e por mais que queiram que eu vá de focinho ao chão, não vou, não caio...só no dia em que morrer!

Um beijo sincero e desculpe o desabafo!

Twoefes disse...

Ele já não se lembra nem quer saber do que disse em 1984! O que lhe interessa agora e o que lhe está a causar maus fígados é o dinheirinho a menos que recebe das suas reformas.

Mafaldinha disse...

Como todo o "bom" político esquece no minuto seguinte as inanidades proferidas no anterior. Pena é que seja desta massa que retiramos quem nos vem governar, ou melhor quem apenas se sabe governar a si próprio. Desculpe cara Helena, a minha crítica nada tem de pessoal.

TERESA PERALTA disse...

É impressionante, como tudo isto, ainda hoje, está na Ordem do dia.. Ao ler, senti um "Déjà vu"!!...
Boa noite Helena, com um grande abraço.

Anónimo disse...

Que pena a memória das pessoas ser tão curta! O que a Sra. transcreve devia ser divulgado pela comunicação social para que cada um fizesse a sua análise. Entrámos num período em que "quanto pior melhor". O desfile diário de certas figuras, os discursos inflamados e populistas, as agressões verbais e a falta de serenidade estão a tornar-se muito perigosos.

Anónimo disse...

Na conjuntura actual, 29 anos antes não tem nada a ver.

Compreende-se a falta de visão, incompetencia e desumanidade de um governo que cobra 23% de IVA num chá e meia torrada e aplica igualmente a mesma taxa a artigos de luxo tipo sapatos e malas estrangeiros?

Este é só um exemplo da burrice e maldade destes governantes.

patricio branco disse...

mário soares revela se aos 80 e tal anos o mesmo lutador de toda a vida, desde os 14 ou 15 quando começou a ter consciencia politica. podia hoje estar retirado, gozando a sua pensão de ex presidente, o seu motorista e bom carro, secretários e gabinete fornecido pelo estado, mas não.

claro que há diferenças nele ao longo dos anos e cometeu mesmo erros feios e prejudiciais como quando favoreceu/permitiu as vitorias de cavaco silva candidatando se às eleições directamente ou por procuração, pedindo no entanto agora a sua demissão...
mas um congresso como o que organizou é afinal um debate de ideias e um manifesto politico a que muitos se associaram e ainda bem que haja ainda destas iniciativas.

registo o preambulo de politicos no poder como cavaco ou passos ao referirem se agora a mário soares: tenho todo o respeito por ele e seu passado e como ex pr mas por isso mesmo não vou comentar, etc.

mas gostei de ouvir um ex pr dizer demita se sr pr, e isso é o mesmo que dizer mude de rumo na presidencia sr presidente, actue doutra maneira. e cavaco silva não anda muito descontraido, nota se.

mario soares sem ou com erros é afinal o combatente e resistente democratico de sempre, e assim será até ao ultimo dia, um animal politico...

braulia disse...

Pesso desculpa Drª Helena por usar seu espaço para comentar os comentários de esse senhor, mas é que já me está causando mal estar ler e ouvir o que de ele vem!Será que no partido a que ele pertence ninguem vê o mal que mesmo aos socialistas ele lhes causa? Ou estão todos convencidos que nós, o Povo Português sufremos todos de falta de memõria? Mais uma vêz pesso-lhe desculpa pela invasão de seu espaço. Muito obrigada por seus escritos, tanto aqui no "fio" como nos seus livros.Gosto e aprecio. Sinceros cumprimentos.

Dalma disse...

Excelente HSC! O que publica é bom para esclarecer os que não compreendem que ele ESTÁ A SER USADO por quem tem interesse nisso!
Já tenho idade suficiente para me lembrar da crise que ele geriu, bem ou mal geriu-a! Talvez bem para a situação. Até me lembro de receber o S.N em Certificados de Aforro, pois à data não havia liquidez suficiente para o recebermos doutra forma...

Mas, tal como outro tipo de memórias também a memória política é curta!

Excelente repito, este reavivar da memória!

Carla Isabel disse...

eu apenas acho que a diferença é que ele disse...agora apenas aplicam desmedidamente...
Eu e o meu marido somo funcionários públicos, temos 4 filhos e apartir de Janeiro levamos com mais 8% cada um, quando ja vivemos com o dinheiro contado...se sairmos mais tarde, temos que pedir mais 1h no ATL dos miudos, ou seja pagamos mais. Em suma, trabalhamos mais, recebemos menos, estamos menos tempo com os nossos filhos e pagamos mais!

Raúl Mesquita disse...

Cara Helena:

Mário Soares é, ideologicamente, creio, um homem dividido. Tal facto é grave. Politicamente, para ele, dá, deu jeito. É responsável por muito do que se passa nas medidas actuais, mas nunca iria tão longe. Num dos lados da sua (di)visão política há um lado humanista que o actual governo não tem, com a sua obsessão "mais-do-que-Tatcher".


Raúl.

Anónimo disse...

Concordo com Patrício Branco e do Anónimo das 23.38.
Soares praticou inúmeros erros como governante, nunca pôs em prática uma política verdadeiramente socialista (ou seja, social democrata), mas merece-me muito mais respeito do que aquela esfinge de Belém, de uma insensibilidade social chocante, cuja única preocupação é o que pensam os mercados, manter este inqualificável governo de pé e ainda por cima opta por receber a importância da sua reforma do BdP, em vez daquela cujas funções exerce (mal), como PR!
As contradições de Soares não me chocam tanto quando comparadas com a crueldade socio-economica deste governo. Ou com as “aventuras” de Cavaco com o BPN.
Soares não é nenhum santo, mas gostei de o ver apelar e sugerir que quer este governo, quer este PR se demitissem, desandassem, desaparecessem!
Com consideração,
P.Rufino

fátima freitas disse...

Dra Helena,até que enfim alguém diz as coisas como elas são.Outra coisa não esperava de si.O que eu me pergunto é onde estava Mário Soares enquanto Sócrates desbaratava os recursos nacionais!

rmg disse...


Que eu saiba o post é sobre as contradições "históricas" de um senhor e não sobre se os outros senhores são melhores ou piores ou lá o que se queira ou pense .
Eu já gostei muito do senhor e agora nem por isso : "il faut savoir quitter la table" , como canta o Aznavour numa canção já muito falada por aqui .

Aliàs ainda ontem escrevi noutro blog sobre isto mesmo e não tinha nada a ver com política : cá no burgo, fale-se de A que a conversa acaba invariávelmente a compará-lo com B que afinal é muito pior .

E assim vão todos escapando , porque um dia o tal B será substituído por um C que , meu Deus , nunca se viu nada igual !

RuiMG

PS - Isto não impede que tenham razão , o outro senhor e os outros senhores são muito piores .
Mas não era disso que estávamos a falar ...

Anónimo disse...

Cara dr.Helena,

deixo tal qual recebi.

http://idiossincrasias.org/2012/10/sua-alteza-real-d-mario-soares-o-chulo-de-portugal/

E assim deixou Portugal...o herói!?

Zé Povo Lixado


Anónimo disse...

Desculpe lá Dra Helena, a austeridade desse tempo não era nada ao pé da de agora. Logo, comparar comentários do Mario Soares daquela altura com os comentários dele atualmente, não faz grande sentido.
Obrigado

João Menéres disse...



Se as palavras de M. S. ( transcritas do JN, de 28 de Abril de 1984 ) eram válidas para a situação da altura, que diria ele hoje ?

Cumprimentos.

rmg disse...




Desculpe que lhe diga mas , se viveu esses tempos , ou está um pouco desmemoriado ou tinha uma vida mais folgada que outros (eu vivi , já tinha 3 filhos no liceu e nenhuma folga).

De qualquer modo as agruras do passado são uma vaga lembrança e as agruras do presente são uma dura realidade , seja em que aspecto da vida fôr , mesmo quando se sofreu muito mais do que se sofre agora.

A mente humana é assim feita e ainda bem : vai relativizando os desgostos passados .
O presente é que não se pode relativizar , esse está sempre aí bem palpável , não é?

Sabe o que lhe digo ?
Os tempos não eram mesmo nada melhores , nós é que éramos mais novos .

RuiMG