sábado, 12 de outubro de 2013

O supermercado e a vida

Hoje, como quase sempre acontece, fui ao Minipreço - passe a publicidade - abastecer-me para a semana. Ao chegar à caixa, uma senhora muito atenciosa ajudou-me a meter as compras no meu saco e disse-me que era minha vizinha e minha admiradora. Sorri, agradeci e preparava-me para sair quando me lembrei que ela referira a vizinhança. Voltei atrás e ofereci-lhe boleia, que aceitou de imediato. Pelo caminho contou-me que ela e o marido estavam desempregados há mais de dois anos. Confidenciou-me que tinham perdido tudo e que já era a segunda casa que estava em risco de perder. Falou-me que tinha um filho adoptivo porque ela era estéril e que o marido estava muito deprimido porque não conseguia prover ao sustento da família, sobretudo depois de, há cerca de três meses, ela ter conseguido arranjar um emprego.
Tudo isto sem se queixar. Só, talvez, com os olhos embaciados pela revelação que naturalmente acontecera.
Cheguei a casa comovida e triste. Diria mesmo aflita. Dois aspectos me impressionaram nesta conversa: o desemprego e a esterilidade. Para além, claro, da confissão feita a uma pessoa que se aprecia, mas que é uma desconhecida.
Todos conhecemos exemplos de miséria envergonhada. No caso desta senhora há, ainda, um marido que parece ter colapsado por a sua companheira ter encontrado trabalho.
Pode, de facto, existir uma imensa solidão na vida conjugal e familiar.

HSC

Nota: por um qualquer mistério do blogger este meu post desapareceu. Tive de o rescrever. Nunca se consegue repetir exactamente o original. Mas não é isso que importa! 

25 comentários:

Fatyly disse...

Há de facto e conheço dois casos que puseram termo à sua vida, porque quem se afasta primeiro é a família e depois os amigos e por vezes são os desconhecidos e vizinhos que deitam a mão "acrescentando água no feijão".
Um deles era tão novo...CARAMBA!!!! (desculpe a expressão)

ann.dorinha disse...

Sabe Helena, acho que hoje em dia são poucas as pessoas que se predispõem a ouvir os outros. A saber ouvir assim, simplesmente. E a ter um gesto tão banal mas tão importante como uma boleia.

Obrigada por esses gestos (mesmo que não tenha sido comigo)
:)

Anónimo disse...

Visito-a neste espaço e gosto muito dos seus relatos das vidas sofridas deste povo. Uma palavra de compreensão, um olhar interessado. Gostava que soubesse que a aprecio muito.
Com estima,
Pedro.

Virginia disse...


Gostei muito de ler este post porque demonstra o que pode ser a solidariedade nos bairros da cidade, onde as pessoas mal se conhecem, mas onde é possível, apesar de tudo ajudarem-se mutuamente. Quando vivia na Ramada Alta no centro do Porto, onde fica a minha escola, conhecia tudo e todos e eles a mim, pois ou eram alunos ou eram funcionários da escola, ou eram colegas ou pessoas das lojas onde eu ia há vinte anos. Tinha o lado positivo e negativo. Desde que mudei para o Campo Alegre - uma espécie de Restelo em miniatura, sinto uma solidão maior, apesar de estar perto dos filhos e netos. As pessoas do meu prédio são pseudo snobs, o estilo que nos olha de alto a baixo....nah!!

Bom Domingo

maria isabel disse...


Neste momento também tenho muito pouco, mesmo assim ajudo (sempre que posso)quem tem ainda menos.Não posso ver na farmácia idosos a ver quanto custa tudo que está na receita ou escolher qual o medicamento que faz mais falta.O meu medo é que o rumo que este país leva, a pessoa que me ajuda está quase a deixar de conseguir ajudar.
Conheço tantas situações assim.

Anónimo disse...

Eu tenho sido até hoje e dou graças a Deus uma pessoa cheia de sorte! Tive uns pais que não sendo ricos sempre me deram os bens essenciais e principalmente amor, empregada desde os 18 nunca soube o que era não ter dinheiro no final do mês, tenho um marido dedicado e filhos saudáveis e trabalhamos os dois porque não temos outro tipo de rendimento e graças a Deus já os dois na casa cos 50 temos tido saúde. Com isto quero dizer que não tenho grandes queixas da vida mas que sou boa ouvinte e cada dia que passa há mais pessoas a precisar de alguém que as ouça a troco de um sorriso as pessoas falam e desabafam, foi o que acontceu consigo!
Como sempre a senhora soube ouvir, saiba que fez uma boa e grande ação!
Desculpe a extenção do comentário!
Um beijinho
FL

Anónimo disse...

Eu tenho sido até hoje e dou graças a Deus uma pessoa cheia de sorte! Tive uns pais que não sendo ricos sempre me deram os bens essenciais e principalmente amor, empregada desde os 18 nunca soube o que era não ter dinheiro no final do mês, tenho um marido dedicado e filhos saudáveis e trabalhamos os dois porque não temos outro tipo de rendimento e graças a Deus já os dois na casa cos 50 temos tido saúde. Com isto quero dizer que não tenho grandes queixas da vida mas que sou boa ouvinte e cada dia que passa há mais pessoas a precisar de alguém que as ouça a troco de um sorriso as pessoas falam e desabafam, foi o que acontceu consigo!
Como sempre a senhora soube ouvir, saiba que fez uma boa e grande ação!
Desculpe a extenção do comentário!
Um beijinho
FL

João Eduardo disse...

Simplesmente comovido, não existem mais palavras para a difícil situação e abismo que este país está a levar à maioria dos portugueses....

Anónimo disse...

Criaturas como a sra.-com tão bom coração e tão bem formadas- existem cada vez menos. Admiro-a por isso e pela alegria de viver, apreciando até as coisas mais simples da vida, por ex.: um belo de um semifrio do IKEA comido descontraidamente e sempre com aquele sorriso inconfundível. Bem-haja!!!!

Helena Sacadura Cabral disse...

Caro/a Anonimo/a das 22:29
Já me ri por sua causa, eu que tanto gosto deles...

Anónimo disse...

Não há palavras para classificar a difícil situação que arrasa famílias inteiras. Penso que o pior de tudo, é mesmo o desemprego. Uma situação de desemprego arrasta consigo todos os males. Mas infelizmente, não vemos uma luz ao fundo do túnel. O flagelo do desemprego parece estar para durar. Eu pergunto. Como pode um pais sobreviver, crescer economicamente, melhorar finanças, enfim tudo isso que gostávamos que acontecesse, sem colocar a maior parte da população activa a produzir? Não sei quem pode responder. Mas parece-me que sem trabalho não será, e parece-me que todos não somos demais. Quando todos sabemos os números do desemprego…a serem verdadeiros…não é possível melhorar qualquer economia.
É bom termos este olhar sobre a sociedade que nos rodeia e perceber as mudanças a que estamos a assistir e a Drª Helena mostra, aqui nestas palavras, que sabe tê-lo. Sabemos que não conseguimos mudar o mundo, mas…podemos alertar quem não olha para o lado, ou quem não vai ao supermercado, ou quem não viaja nos transportes públicos…etc.etc.
Bom fim-de-semana

Zezinha Ramires disse...

A Senhora é uma pessoa especial :)
Quem sabe ouvir o próximo traz a Paz e o Amor dentro de si!!! Bem haja.

Anónimo disse...

Cara dr.ªHelena,porque hoje 13 de Outubro é um dia poderoso para a fé,proponho a todos uma oração.

************************

Avé Maria cheia de graça,
O Senhor é convosco.
Bendita sois Vós entre as mulheres
e Bendito é o Fruto do Vosso ventre,Jesus.
Santa Maria, Mãe de Deus,
rogai por nós, pecadores,
agora e na hora de nossa morte.
Amém!

Que Deus a abençõe e a todos os que sofrem e buscam paz em seus corações.

Deixo uma vela e espero que permaneça acesa e dê luz a quem necessita.

Matumbo Feliz Kifala

João Menéres disse...

Comovente, mas muito doloroso.

Melhores cumprimentos.

Anónimo disse...

Cara Helena,

É isso mesmo, a "miséria envergonhada" que aumenta dia para dia.

Este país, infelizmente, bateu no fundo e não vislumbro saída.

Isabel BP

Alcipe disse...

A crítica que Orwell fazia aos intelectuais de esquerda no seu tempo (não terem em atenção as pessoas, não terem qualquer empatia pelas pessoas comuns, pela decência dos humildes, não terem o mínimo de preocupações éticas, viverem das e nas ideias gerais e abstractas) aplica-se tão bem a esta elite de economistas liberais e ajudantes que governa hoje o Mundo! Não acha, querida Amiga? Sendo economista de formação, a Helena ainda é capaz de dar atenção às pessoas...

Alcipe disse...

A crítica que Orwell fazia aos intelectuais de esquerda no seu tempo (não terem em atenção as pessoas, não terem qualquer empatia pelas pessoas comuns, pela decência dos humildes, não terem o mínimo de preocupações éticas, viverem das e nas ideias gerais e abstractas) aplica-se tão bem a esta elite de economistas liberais e ajudantes que governa hoje o Mundo! Não acha, querida Amiga? Sendo economista de formação, a Helena ainda é capaz de dar atenção às pessoas...

patricio branco disse...

nunca como agora vi os sm cheios a toda a hora, bichas em todas as caixas, etc.
no mini preço as prateleiras ficam parcialmente vazias 2 vezes por dia, impressionante. optimo que tenha sido renovado, na decoração, etc.
pergunto me se é dos preços que fazem, promoções, pontos, se por algumas outras razões tambem, esta compradeira.
há outro tipo de comercios que tambem ajudam.
a inflacção é baixa, embora não concorde que não se leve actualmente em conta para o seu cálculo a carga fiscal, os cortes salariais, seria então da ordem dos 20%, apenas se contabiliza o preço dos serviços e bens básicos.
mas sem duvida que são lojas ajudam na crise, lhe deram a volta por cima ou por baixo, não sei.

o desemprego dói, é cruel, há todo um sector da sociedade e gerações que ficam destruidos para o resto das suas vidas, etc

Anónimo disse...

É, de facto, muito triste.
Tanto sofrimento e tantas provações!
Agora sei que e quase poderia pedir que transmitisse à sua vizinha que o mau tempo há-de passar, se Deus quiser.
Todavia, compreendo muito bem o marido da senhora.
O desemprego torna-nos dependentes e, ao fim de algum tempo parece-nos uma humilhação viver "às custas de alguém". Eu sei que não se trata de "viver às custas de ..." mas é o que nos parece (também eu já pensei o mesmo em relação aos meus pais, enquanto estive desempregada).

Finalmente, o mês passado comecei a trabalhar e foi um alívio quando na semana passada pude ir à mesma cadeia de supermercados e fazer umas compras necessárias com dinheiro oriundo do meu ordenado.

Um beijinho
Vânia

Anónimo disse...

O meu comentário anterior não deve ter sido submetido.

De facto, a "miséria envergonhada" aumenta e nada se faz para a minimizar mas antes para a agravar.

Isabel BP

Helena Sacadura Cabral disse...

Meu caro Alcipe
Enquanto fui pequena desejei ser médica para ajudar as pessoas; desejei ser escultora para mostrar a beleza que existe nas pessoas feias; desejei finalmente ser economista para que houvesse cada vez menos pobreza.
Em tudo o que desejei, o fulcro foram sempre as pessoas.
Talvez por isso, continuo a preferir o amor ao ódio e a bondade à inteligência.
Tem toda a razão, Alcipe. Muito mais que economista, o que sou é humanista. E tive, como sabe, um óptimo professor!

Isto e aquilo disse...

Magnífico o post e tudo o que ele encerra e também o seu comentário ao Alcipe, que diz tudo ;)

Beijinho
Isabel Mouzinho

Anónimo disse...

Olá D. Helena,

"Pode, de facto, existir uma imensa solidão na vida conjugal e familiar", pois pode.

É uma luta diária, íntima e silenciosa que o casal trava para conseguir, primeiro, entender a causa de tanta desavença, segundo, aceitar a reacção do outro sem personalizar, terceiro, determinar o que se quer e, por último, enfrentar, dia-a-dia, o que não se tem, até o dia em que, no silêncio, reconhecem-se um ao outro e unem-se, porque a Pessoa (mãe + pai + filho(s)) é bem mais importante do que a casa onde se vive, do que o carro que se conduz, do que a roupa que se veste, do trabalho que se tem, do que os olhos dos outros vêem.

E a revolta vai dando lugar a uma imensa indiferença. Indiferença não pela Pessoa, mas pelo que os rodeia e pela falta de justiça social que envolve a Pessoa. E a tal “vergonha” cria uma carapaça aos lamentos dos supostos pobres que vivem do rendimento mínimo, dos supostos necessitados que vão perder parte de uma reforma de sobrevivência (quero dizer-lhe que o seu filho ontem esteve muito bem na explicação que fez ao país), dos funcionários públicos, porque têm de trabalhar mais uma hora por dia, da “propaganda” deturpada da esquerda que só defende aqueles que têm trabalhos seguros, enfim, uma carapaça aos supostos sentimentos indignados daqueles que não sabem o que é perder trabalho, casa, dignidade e gritam e gritam como se a crise só os afectasse a eles que perdem apenas privilégios …

Ninguém fica feliz por ver os outros a perder o que quer que seja, apenas se desenvolve uma carapaça, por vezes, até uma certa compaixão, porque sabem lá eles do que se queixam, enquanto se queixam já nem é mau …

E da esterilidade não lhe falo, mas gostaria que pudesse transmitir a essa Mãe que a esterilidade não está em gerar ou não filhos (no útero), mas sim na incapacidade de se gerar sentimentos de amor, cuidado e devoção ao filho, seja ele adoptivo ou biológico, porque acima de tudo, é filho.

Cumprimentos,
Cláudia

Anónimo disse...

Tal como o seu primeiro post "fugiu" também o meu comentário que no sábado escrevi, fugiu e como nunca escrevemos igual limito-me a escrever agora que saber escutar é uma grande virtude e uma grande ajuda!
Beijinho
FL

Manuela Silva Mergulhão disse...


Também o meu comentário fugiu" tal como o meu saco de compras na sesta feira estava a pagar o pão no P Doce " o saco a meus pés foi num fechar de olhos fugiu, oxalá quem o levou lhe tenha servido de alguma coisa.
No dia seguinte voltei ás compras.
Cumprimentos. Manuela