quinta-feira, 18 de julho de 2013

Esse supremo luxo

Hoje tive saudades. De quê, perguntarão. De um tempo lá muito para traz, em que eu era menina.
Não sou saudosista, tenho-o dito imensas vezes. O passado, bom ou mau, ficou arrumado e só muito raramente volta à superfície.
Mas esta tarde, o cheiro da alfazema lembrou-me a casa dos meus avôs maternos e a imensa ternura que sempre recebi deles. Era uma casa sem luxos, mas cheia de amor e de alegria.
No começo do verão as roupas eram postas a arejar e arrumadas de novo entre saquinhos de alfazema que as perfumavam até serem usadas. E quando as camas eram feitas de lavado, aquele odor de campo enchia os nossos pulmões. Foi essa acalmia, essa bonomia de um tempo que apenas se desenrolava entre cheiros e risos despreocupados que, de repente, recordei. 
Tenho alguma pena que essa forma de vida já não exista e que, ao contrário, a crispação e a agressão verbal sejam o nosso quotidiano. Agora a voracidade da vida é tal que já nem sequer sabemos o que é esse supremo luxo de perder tempo...

HSC

13 comentários:

Isto e aquilo disse...

Muito bonito este post, Helena!
Também não me acho saudosista, mas todos nós temos momentos assim, em que um perfume, um sabor, uma canção, trazem até nós, de novo, momentos, lugares, pessoas que lhes associamos. E então uma certa nostalgia é inevitável.
A mim, por exemplo, o cheiro do creme Nívea relembra-me sempre as praias e as férias grandes da infância...

Beijinho
Isabel Mouzinho

Dalma disse...

Já regressada das deliciosas temperaturas de 19/23° dei com a sua reflexão sobre os tempos de infância. Eu fui sempre menina da cidade, pois os meus avós já nela viviam. Mas nessa altura as pequenas cidades eram quase campo e por isso essas memórias também as tenho! Mas não será a nossa idade que nos torna nostálgicas desses pequenos nadas, que agora para nós parecem ter tanta importância?!
Nessa altura o tempo ( psicológico) tornava as férias de verão intermináveis, hoje não é assim, o excesso de actividades das crianças sempre num lufa-lufa, deles ou dos pais não lhes dá tempo para essas pequenas coisas.
Sim, os meus netos não vão ter saudades desses cheiros porque não os conhecem...

Isabel Oliveira disse...

Querida Helena, permita-me esta intimidade, mas isso de ter boas recordações não é ser saudosista, é Estar de bem com a sua alma. Não conheci minhas avós, meu avô paterno por mais rude que fosse foi o unico que conheci e quando ele se foi eu escolhi recordar-me dele com uma imagem de tranquilidade e carinho. Ao meu jovem filho já lhe expliquei que as nossas memórias somos nós que as escolhemos, as boas e as más, mas estas ultimas temos sempre a opção de as eliminar para guardar espaço para o que de bom podemos guardar. Eu também sou do tempo da memoria olfactiva e visual, do tempo em que se andava mais devagar, do ter tempo, e espero ainda conseguir ensinar isso a alguém (que isto de andar a correr não nos faz chegar mais depressa ao destino). Sintamos saudades é sinal de que vivemos algo de bom. Beijinho Isabel

Anónimo disse...

É, como eu costumo dizer:
"Vivemos com pulseiras eletrónicas"(os relógios) "e não nos apercebemos!"
Todavia, em tempo de férias faço questão de os deixar em casa, a descansar!

Quanto às saudades...
como é bom sentirmos, de vez em quando, essa ternura, essa paz e essa alegria com que fomos abençoados na infância.

Um beijinho enorme,
Vânia Batista

Teresa Peralta disse...


Que lindo texto! Veio, até, de encontro às minhas necessidades....Como sou muito susceptível a todos os cheiros, entendo que as memórias só estão completas quando, também eles, participam nas recordações que vamos construindo. Adoro o odor fresco da alfazema e, também tenho muitas saudades de perder tempo com o tempo...
Um Abraço muito grande

João Eduardo disse...

##
Helena, gostei muito do post. É saudável recordar esses velhos tempos. Apesar da atual forma de vida ser muito diferente, ela continua a ser ditada pelos homens, mas é aos do bom senso que cabe defender os bons hábitos, divulga-los, dinamizá-los, mesmo que seja contra a maré desta gente de má fé que parece que nasceu num planeta de macacos~. Acho que a nossa dignidade é a última a morrer, pelo que defendamos o que é de bom do passado e adapta-los aos tempos modernos. Claro quem não gosta de se deitar nuns lençóis com um cheiro agradável do amaciador que se colocou na máquina. Isso faz lembrar a correria nos campos em que as flores sorriam enquanto os pássaros se divertiam com os incestos. Agora temos aí uns passarões que não tem piada nenhuma e só queremos vê-los pelas costas, não fazem falta nenhuma. Oxalá que não lhes falte amanhã aquilo hoje já tiraram a milhões de portugueses. Beijinhos

Paula Ferrinho disse...

E os cheiros ficam mesmo "colados ao tempo", como se assim, fosse mais fácil lembrar....
Um beijinho, Helena!

Paulo Abreu e Lima disse...

Não sei se sou saudosista, mas gosto de recordar as coisas boas do passado. Sou capaz de estar umas horas a falar com a minha mãe ou com o meu pai do "antigamente" com muito gosto. Por exemplo, apetecia-me não sair deste seu post, de um tempo que nunca mais volta, mas que ainda podemos ir até ele. Isto é saudosismo? Não. Apenas descanso.

Anónimo disse...

Incrível como um simples cheiro nos consegue transportar para tão longe, fazer lembrar sítios, momentos e até mesmo pessoas. como o "computador" humano é perfeito ...

Anónimo disse...

Olá,

não acho que relembrar o passado seja mau. É sinal de que temos uma história. E quando este nos vem assim de forma espontânea à mente e nos traz boas lembranças, a sensação é muito agradável.

A minha vida corre muito depressa. E, apesar disso, a sensação de que estou atrasada ou já não vou a "tempo de" é frequente.

Lamentavelmente, são menos as vezes que ocupo o meu tempo a fazer o que gosto ou com quem mais gosto ...

E quando tenho um momento de pausa ou lazer inesperado, a primeira sensação é de que alguma coisa deve estar a correr mal!

Deveríamos poder escolher viver de outra forma.



Cumprimentos,
Cláudia

Helena Sacadura Cabral disse...

Não, cara Raquel, a discussão está a fazer-se agora e, por isso, a tomada de posições é da maior actualidade!

Carochinha disse...

Hum... Alfazema! Que delícia! Que imagem maravilhosa surgiu na minha cabeça, como deveria ser o ambiente dessa casa! :)
Bom fim-de-semana Helena!

Manuela Silva Mergulhão disse...

Saudades mesmo do cheirinho a alfazema continuo a fazer saquinhos e pinto dou ás amigas e ás crianças.