domingo, 3 de fevereiro de 2013

Um domingo diferente

Como é que eu hei-de explicar isto? Vou tentar, apesar de saber que a amizade como o amor não se explicam. Acontecem.
Tenho um grupo de amigas da minha idade com quem, confesso, estou pouco. Gosto muito delas, mas o meu mundo é completamente diferente daquele em que as mesmas gravitam. Foram excelsas mães e óptimas companheiras dos seus maridos mas, porque nasceram ou casaram abonadas, nunca trabalharam e limitaram-se a fazer da carreira dos cônjuges e da dos filhos, o seu mister.
Ao contrário, eu não nasci nem casei abonada, não recebi heranças, não fiz da vida dos meus a minha vida, e trabalho e estudo desde os treze anitos. De uma maneira muito carinhosa, porque gostam de mim - continua felizmente, a haver quem goste -, reclamam que eu não lhes ligo nenhuma. Fico aflita porque lhes reconheço alguma razão, mas não lhes posso dizer que o nosso convívio só é possível em doses homeopáticas porque os nossos interesses não são exactamente os mesmos.
Assim, de vez em quando, muito de vez em quando, marco um almoço com o apoio de uma que, pertencendo ao meio, teve uma carreira de fotógrafa excelente que acabou por abandonar para seguir a profissão agitada do marido, mas mantém uma vida bastante activa.
Hoje foi o dia do almoço. Éramos cinco e não fossem algumas cautelas da minha parte, teríamos sido oito, número que é manifestante excessivo para a capacidade da minha camioneta afectiva.
Diverti-me, marquei um restaurante familiar que elas não conheciam, gozei da sua presença, mas cheguei a casa a pensar como a minha vida é distinta. Depois, deu-me um daqueles ataques de riso sobre mim própria e as minhas boas acções, que hão-de levar-me ao paraíso. É que sendo adoráveis criaturas, tão diversas de mim, pergunto porque me estimarão tanto? São os insondáveis desígnios da Providência. Só pode ser!

HSC

19 comentários:

Brown Eyes disse...

É uma pessoa excepcional!

Julia Macias-Valet disse...

Coucou Milady :)

Ui...se as suas amigas lêem este post são capazes de não ficarem contentes, não ?

A escolha da foto para o post é sintomática da idéia que se tem das mulheres que não trabalham ou que deixaram de trabalhar : umas flauzinas que passam o tempo a arranjar as unhas, a afofar as almofadas nos sofas e a compor as flores nas jarras :)

No que me diz respeito, deixei uma carreira internacional ha muitos anos para poder apoiar a do meu marido na sua e ter uma família numerosa. Foi uma opção que fiz mas sinto na pele constantemente comentários desagradáveis...hélas ! :(

Anónimo disse...

As pessoas normalmente gostam de quem tenta ser verdadeiro consigo mesmo.

Teresa Peralta disse...

Percebo muito bem o que quer dizer, mas, tenho a certeza que é um prazer partilhar a sua companhia e amizade. A amizade, admiração e respeito, também, se descobrem, nas diferenças!.. Eu, não poderia viver sem amigas e, apesar de o tempo útil, de convívio, ser cada vez mais pequeno, tento compensar as falhas, aproveitando o melhor possível esses encontros, que adoro, porque considero um dos maiores abrigos que existem, e porque me divirto, sempre, muito...
Um grande abraço

Helena Sacadura Cabral disse...

Minha querida Júlia
Elas podem ler o post. E não se importam, porque consideram que a "original" sou eu...
Para elas eu sou "aquela", de entre elas, que tem a "mania de estar agarrada ao computador a trabalhar.
É isso que me faz estima-las, apesar das nossas diferenças!

Anónimo disse...

Porque a Drª. Helena é única!!!

miminhos cruzados disse...

É muito fácil gostar da senhora.

Um abraço,
Vânia

zia disse...

A amizade é por vezes "estranha", contudo precisamos dela...
Todo o carinho da amizade sem rosto,
lb/zia

Sérgio Saraiva disse...

Eu que sou de outra geração, vou dar a minha opinião, um pouco bruta, e crua. Sinceramente, nos dias de hoje, não aconselho ninguém a esse tipo de vida de abdicar de objetivos próprios, como sendo uma carreira, ou outros, para "dar suporte ao marido".
Não só por uma questão de manter a cabeça ocupada, mas também por uma questão de "seguro", afinal, um dia que precise... Depois é o tipo de relação desequilibrada, em que uma das partes sustenta e outra é sustentada. Mas percebo que seja uma tentação, e até uma certa ordem natural das coisas: o macho vai à caça em busca do alimento, enquanto a fémea fica a tratar dos afazeres da casa.
Outros tempos...

Fatyly disse...

Estimam porque respeitam a sua forma de ser: frontal e honesta e amiga do seu amigo e tudo que faz é sem "falsas modéstia e politicamente correcto"!

Eu e a minha mãe também gostamos muito de a ouvir e sobretudo de ler...e nunca a vimos pessoalmente:) porque também se podem criar empatias desta forma.

Nunca deixe de ser quem é!

Beijos meus e dela

Pedro disse...

Sabe, Helena, quantas vezes comecei este comentário?
Mais que muitas.

E tudo para lhe dizer que a leio com muito prazer.

Quando estou contente, venho lê-la.
Quando estou triste, venho lê-la.
Quando não sei o que fazer - venho lê-la.
Quando estou ocupadíssimo - sem tempo para nada - venho, numa fugida, lê-la.

A Helena tem magia na sua escrita. Cativa-nos.

Culpa sua - porque é uma pessoa extraordinária, porque consegue dizer coisas importantes de uma forma simples. Porque é humana e inteligente.

E também porque, ainda que não a ouça quando a leio, sinto sempre a sua gargalhada inconfundível.

Obrigado, Helena.


Blondewithaphd disse...

Separa-nos um hiato geracional mas revejo-me em absoluto nas palavras e pensamentos que aqui li. Acho que na vida é mesmo assim: damo-nos em grupos e cada um deles é distinto dos outros. E sim, há grupos aos quais pertencemos sem saber realmente porquê.

Raúl Mesquita disse...

Cara Helena:

Os anos ensinaram-me que o principal motor da Amizade é a admiração. Não quero ter a pretensão de responder à sua pergunta tão cheia de sentido.

As minhas amigas e os meus amigos admiram-me, sem nunca o terem dito expressamente, mas deram-me provas disso. Eu admiro-as e admiro-os e faço o mesmo. São laços inquebráveis por maiores que sejam as diferenças.

Um beijinho,

Raúl.

Anónimo disse...

Independentemente das vidas terem sido diferentes e os caminhos não se cruzarem acho que as pessoas que a conhecem e a estimam e gostam da sua presença é porque a Helena a meu ver pelo que leio e oiço deve ser uma pessoa muito agradável de conviver, humorada, bem disposta, positiva, harmoniosa e nos dias de hoje digo-lhe muito sinceramente que não é fácil encontrar assim pessoas!
Anda tudo muito atarefado com a crise e o seu bem estar!!!!
Uns bons dias para si e digo-lhe que eu gosto muito de lêr o seu blogue...
Continuação de "tão boa" disposição...
Grande Abraço
MCRodrigues

Sino disse...


Eu também pergunto o mesmo?!
Mas acho sincero e corajoso o que diz.
Fátima Freitas.

Isabel Tomas disse...


Ó Helena,se nós que não a conhecemos pessoalmente,gostamos tanto de si,imagine-se lá os amigos.
É bom sentir que somos queridos.

Maria disse...

As diferênças dão encanto à vida quando se sabe ouvir e respeitar o outro. E aprende-se
Abraço
Carmen

Anónimo disse...

Vaidade, vaidade tudo é vaidade!

Pois é D. Helena... no fim acabaremos todos da mesma maneira. Não gostei.

Nadiá disse...

A sua Pluralidade encanta quem a conhece e quem não a conhece pessoalmente.

A Senhora é Especial.

Também como o Pedro...venho sempre lê-la, em qualquer estado d'alma.

Grata pelas suas partilhas.