quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Democracia moralista


«Basta olhar para a forma como decorre grande parte do debate político português, com a sua gritaria, a sua preferência peloslogan inconsistente, a sua propensão para um radicalismo doentio, para se poder ter uma noção muito aproximada do que se está a passar. Numa época de crise, os defensores de soluções extremistas reclamam-se, aliás, de uma superioridade moral com que pretendem condicionar grande parte da discussão política.
As nossas democracias de opinião, com a propensão excessiva para a valorização das emoções, e em grande parte determinadas pela influência televisiva, não estão especialmente bem preparadas para enfrentar um risco de tal ordem. Bem pelo contrário, este parece ser o tempo dos moralistas, dos radicais e dos sectários. Para obstar a isso, teremos de apostar no triunfo de um pensamento complexo e exigente, capaz de mobilizar amplos sectores das nossas sociedades.»

Estas são palavras de Francisco Assis - roubadas ao Delito de Opinião -, um dos socialistas que, a meu ver, merece ser ouvido com atenção. E que confirmam aquilo que aqui escrevi num post recente.
Mas não é apenas no debate político que a sociedade portuguesa está enferma. É em tudo o resto. Todos se julgam no direito não só de saber de tudo, como, inclusive, ousam criticar as emoções ou o carácter de quem não conhecem. 
Se a ditadura impôs a lei da rolha, a nossa democracia está a começar a impor o pensamento único, a emoção padronizada, o carácter formatado. Tudo acompanhado da chamada liberdade de expressão que lhe confere estatuto especial. 
Quanto tempo demorará, ainda, a perceber que em democracia há uma base inalienável que é o direito a ser diferente e a não ser descriminado por isso? Uma coisa é aceitar a vontade expressa da maioria. Outra coisa é a obrigação de lhe ser igual.

HSC

11 comentários:

zia disse...

Sábias palavras!
Será que os políticos responsáveis
irão sair da zona de conforto e começar a tomarem em mãos os destinos deste país?
Um grande abraço,
lb/zia

Fatyly disse...

Desculpe a expressão...mas de facto os jogos políticos já me enjoam para não dizer metem-me nojo. Todos cantam vitórias em ataques cerrados e no meio disto tudo...o povo é o mais condenado!

Jamais sou igual a quem quer que seja e quem fez esta já não poderá fazer outra!

Teresa Peralta disse...


Concordo em absoluto com a atenção que devemos prestar às palavras, que este político proferiu e, com as quais me identifico, neste caso, considero que o seu raciocínio esta correctíssimo!...No entanto, até há bem pouco tempo, atrás, a consideração que tinha, pelo mesmo, era muito maior!!..
Diz o povo, no qual me incluo: "Palavras, palavras, leva-as o vento".. Mais atitudes e menos palavras!... Radical, é a visão que este partido, e outros, têm, acerca daquilo que é o poder económico do Estado e que nos deixou, a todos, numa péssima situação.
Um enorme abraço


Raúl Mesquita disse...

Cara Helena:

Este é, sem dúvida, um dos maiores perigos da democracia, talvez o maior, posto com toda a clareza pela Helena, com a agravante de a maioria não poder ser sábia. Churchill, "old mouse", saí-se de todas e saíu-se, evidentemente, desta: "a democracia é o menor de todos os males". Mas em 2013 não sei… Não vejo alternativa, mas que ela é o império da massificação e das consequentes estupidificação e cega obediência ao poder lá isso é a sua tendência vertiginosa.

Creio que somos a última grande geração crítica. Esta classe crítica irá afunilar-se cada vez mais.

Não posso ser optimista perante os factos que são postos debaixo dos meus olhos. "Sorry folk!"

Raúl.

rmg disse...


Não me parece que seja a nossa democracia em particular que esteja a ficar enferma desses males que tão bem refere .
O problema é geral , a voltinha de 2 horas que todos os serões dou aqui na net por toda a imprensa europeia não me traz boas notícias de lado nenhum .
E isso é grave , se o mal fôsse só nosso poderia ser que tivesse cura , mas sendo uma epidemia mais vasta ...

Faty Laouini disse...

Mt bom.

Quando eu venho aqui delicio-me com os seus posts - todos. É uma sensação de bem estar, com os afetos, humor e acutilância que são seus. E tudo simples, natural. Um mundo bom, este que é seu e que deixa ser nosso.
Bjs
*****

Decio Silva disse...

se este homem fosse o líder do PS o pais estaria melhor servido em termos de oposição, acho que ele é o que os políticos na sua maioria deviriam ser, é um homem com ideias e que nao se fixa apenas na ideia do seu partido, reconhece quando os outros partidos têm ideias melhores. na minha visão simplista todos os partidos deviam trabalhar para servir o pais, infelizmente nunca vejo nenhum partido elogiar outro por ter feito algo de bom, será que nunca houve um partido que tenha feito algo de bom para o pais? acho que não existe humildade política hoje em dia...

Blondewithaphd disse...

E o estado da nossa educação? E as novas gerações que, tirando honrosas excepções, não sabem articular o pensamento e, portanto, não s eimportam que o discurso público seja o mais homogéneo e "impluralista" possível. Ando realmente assustada com este estado de coisas.

Anónimo disse...

O que diz Assis (tal como o livro de Dinis Machado, “O que diz Molero”): “Basta olhar como decorre grande parte do debate político português, com gritaria...” – Aqui, ocorreu-me José Sócrates nos “saudosos” debates quinzenais na A.R (até se lhe esganiçava a voz). Continemos Assis: “Numa época de crise, os defensores de soluções extremistas reclamam-se, aliás, de uma superioridade moral com que pretendem condicionar grande parte da discussão política.” – Aqui, ocorreu-me este governo e “afins”, quando defendem soluções sociais e económicas extremistas, com a tal superioridade moral com isso pretendendo condicionar grande parte da discussão política. Veja-se o que se tem passado na A.R e noutras propostas, etc. Prosseguindo: “...este parece ser o tempo dos moralistas, dos radicais, dos sectários...” – Aqui, ocorreram-me algumas intervenções como as de alguns políticos desta maioria (sobretudo da área do PSD), mas também da oposição, quer em público, na A.R, quer na TV, etc.
Mas, concordo consigo. Ninguém nem antes, nem agora, se senta - governo, ou oposição - com a intenção, séria, de discutir o que quer que seja. Ninguém, genericamente, está preparado para fazer concessões, para chegar a um acordo. No nosso universo político, governo e oposição são como o gato e o cão. E assim vamos continuar. Não há jeito! Uma pena!
Quanto ao que o simpático comentador Decio Silva nos diz, com toda a razão, o que de algum modo vai naquilo que aqui acrescento, ocorreu-me, meu caro, aquela velha “boutade” : “se a minha avó tivesse rodas, era um carro eléctrico e assim podiamos ir de Algés a Belém, tlim, tlim – tlãom!”. A verdade é que a pobre da adorável senhora não tinha rodas nos pés, nem esta malta aprende o que é consenso político.
Os portugueses, quer-me cá parecer, olham a política como olham o futebol: aquilo é para matar o outro!
P.Rufino

Isabel Seixas disse...

o maior problema é a obsessão pelo exercicio do poder a qualquer preço prevaricando nos direitos humanos...
Um poder de pântanos e areias movediças em que cada guarda já precisa de guarda e os legisladores precisam de tribunais para legitimar a conceção das suas leis...

Ai, se ao menos isto fosse gerador de emprego.

antonio disse...

Seu blog é óptimo,gostei dou-lhe meus parabéns.
Com votos de grandes vitórias.
PS. Se desejar fazer parte dos meus amigos virtuais, faça-o de forma a que possa encontrar seu blog para segui-lo também.
Sou António Batalha.