terça-feira, 6 de novembro de 2012

A reforma tão sonhada

A reforma é, muitas vezes, para muitos de nós, o acontecimento mais desejado.  À volta dela tecem-se os sonhos mais adiados. Será, finalmente, o tempo de fazermos o que mais gostamos, de lermos o que foi ficando à espera, de viajarmos, de cuidarmos de nós.
O primeiro dia tem, por norma, um sabor especial porque, como nas férias, não há horário para cumprir. O jornal pode ler-se com tranquilidade, o arranjo pessoal é demorado e, como ainda há uns papeis para tratar, sai-se de casa aliviado.
Depois, de mansinho tudo muda de ritmo. A mulher ou o marido que deixávamos às 9 horas e voltávamos a encontrar às 20h, passa a estar ali, sempre ao nosso lado; a empregada que não víamos  corporiza-se na limpeza da nossa secretária; a televisão que apenas ligávamos para ouvir o noticiário, passa a ruído de pano de fundo; a família sempre tão desejada, começa a ocupar até os nossos interstícios; a viagem programada acaba adiada por motivos sempre inesperados, enfim tudo o que havíamos idealizado, parece esvair-se sem que saibamos como, nem porquê.
Muitos casais sofrem um embate tão grande com a nova situação, que até reencontrarem o equilibrio - quando o reencontram -, passam por uma crise grave. Uma das mais graves, mesmo.
É sempre assim? Felizmente, não. Quando nós sabemos que pode ser assim, quando estamos precavidos e o sonho que sonhámos é realista, quando as esperanças que tivemos  se limitaram ao viável, não é assim.
No meu caso pessoal não foi assim porque, ao mesmo tempo que preparava a reforma, começava outra carreira cujo prazo de validade só depende de mim e das capacidades que Ele entenda dever propiciar-me. Por isso não sou uma reformada frustada. Sou, sim, uma trabalhadora realizada. É muitíssimo, nos tempos que vão correndo!

HSC

14 comentários:

Vânia Edite Batista disse...

De facto, mais do que desejarem a reforma agora o que mais se espera alcançar é um posto de trabalho!

Como os tempos mudam!

Raúl Mesquita disse...

Cara Helena:

Que engraçado! Percebo muito bem o que diz (dos outros). Reformei-me (antecipadamente) porque não podia com a Maria de Lourdes Rodrigues (será com "ou" no caso dela? Não sei, mas habituei-me a escrever assim). Em 2009 as condições pareceram-me vantajosas e são, se compararmos com as de agora, apesar do que me vão tirando todos os anos… e não é pouco.

Mas, realmente, não vejo mais televisão, praticamente, nenhuma, às vezes tropeço na funcionária, mas é daquelas de empresa, só vem uma vez por semana (questão de gelt), continuei com séries de programas para a telefonia, Antena 2, programas sobre música vocal, até que tive de parar com eles "porque o Estado não paga duas vezes". Mas escrevo e publico, faço conferências, viajo enquanto posso (para ir às minhas óperas, que cá já não há), leio (livros, que os jornais deprimem-me a sério), cozinho para amigos, massas com trufas (quando as tenho, normalmente depois de uma viagem), soufflés, pratos com peixe fumado (adoro - palavra mal escolhida), passeio quando está bom tempo. Bem, com isto tudo não se pense que tenho óptimo feitio porque não tenho. Mas estou muito bem!

Compreendo-a, Cara Amiga!

Um Beijinho,

Raúl.

Jack Soifer disse...

Cara Helena,
Somos dois. Reformado há 8 anos, continuo a laborar como dantes, umas 65h/semana. A qualquer dia Ele lá de cima chama (para cima ou para baixo) e antes disso gostava de partilhar. E assim tb escrevo livros, mas a detalhar Como Sair da Crise, Lucrar na Crise, etc.
Agora é sobre bravos portugueses, onde figura Sacadura Cabral, Aristides Sousa Mendes, etc.
Mas a foto que tenho de Gago Coutinho e S.Cabral tem baixa definição. Ficaria muito honrado se puder ceder-me uma que honre aquele heroi luso. Jack Soifer

Maria Antunes disse...

Estou à espera da reforma, antecipada, claro, é com algum cepticismo que me vejo com os dias todos por minha conta. Gostaria muito de viajar mais, de me inscrever num ginásio, de fazer cursos de coisas que me interessam, etc....
Infelizmente o dinheiro não vai chegar para tudo isso, tenho que ter engenho e arte para encontrar algo que esteja dentro das possibilidades. Trabalhei mais de quarenta anos, perdi imensas coisas do crescimento dos meus filhos e até dos meus netos. Espero sinceramente não me tornar numa reformada frustada, espero poder apreciar o tempo que nunca tive para mim, de poder simplesmente me sentar numa esplanada à beira mar com um livro e o pensamento solto.
Beijinho

Hélia Cruz disse...

Cara Helena,

Mais um tema muito bem escolhido, desenvolvido e escrito de forma singular.
A Reforma é matéria que há alguns anos se discute na minha profissão dia sim, dia não. Muitos já se reformaram e desapareceram para todo sempre. Com pena minha, nunca mais os encontrei. Outros aparecem e contam as novas vidas que enfrentam. Algumas são óptimas e fico muito feliz, mas outras, as pessoas não vivem, "sobrevivem". Mas o estar disponível para a família, para os amigos , para viajar tudo "adoçado" com a música, livros e com a saúde necessária para continuar a ser independente, é o desejo de quem ainda trabalha.
Despeço-me com amizade.

Anónimo disse...

"reforma" é uma treta...
nunca fiz planos para a dita reforma e aí estou desde os 62 e com metade do que ganhava, mas faço o que gosto tranquilamente, tenho tempo para as pessoas e principalmente para mim, que passei de 5 a uma que sou eu. o "marido=divorcio" e quando chegou o tempo os 3 filhos foram partindo nas suas vidas.
viva a reforma, que pode ser muito boa sem ter feito planos...
um ramo de carinho,
lb/zia

Anónimo disse...

Mais um texto cheio de realismo e verdade.
Eu ainda não tenho 50 anos, conheço casos como os que descreve mas o que me preocupa agora é que quando chegar a idade da reforma tenho a pura convicção que vai "rebentar a bomba" da tão falada falta de dinheiro para as reformas que vai destruir a minha geração já tão castigada com a falta de oportunidades para os filhos. Temo que não consiga apoiar os meus filhos e que passe um mau bocado que me impeça de gozar não digo com abundância mas com paz e decentemente os meus últimos anos.Cada dia que passa é mais incerto o futuro, fazem-nos perder a esperança que como diz o ditado, devia ser a última a morrer!
FL

Anónimo disse...

Bom dia
Gostei muito da abordagem que fêz, pois faço parte de uma família onde a entrada para a reforma (dos meus pais) foi e ainda é muito complicada ... o meu pai sempre viveu para trabalhar e parece que nos culpa por ter chegado à idade de reforma!?! Estes dois últimos anos não têm sido muito fáceis, mas melhores dias certamente virão.
Quanto a mim, também tinha expectativa de vir a ter uma reforma activa e dedicada a mim e ao que gosto, mas pelo andor da carruagem acho que não vou conseguir ... provavelmente nem chegarei a saber o que será a reforma!
C'est la vie!
Um beijinho
Cláudia

Anónimo disse...

A frustação da situação de se estar reformado tem muitas das vezes também a ver com o que se leva de reforma para casa. Então nos tempos de hoje, de austeridade obsena para a larga maioria de pessoas e cortes revoltantes nos bolsos dos pensionistas, ir para a reforma pode ser um caso complicado.
Outro dia, depois de ter deixado a viatura a reparar, enquanto aguardava um transporte público (optei por isso em vez do táxi), uma senhora, já com alguma idade, meteu conversa comigo, a queixar-se desta crise e da situação em que se encontra “tanta gente que mal tem para comer”.
A uma pergunta minha sobre a sua situação, referiu que era reformada, com uns meros 200 e tais euros e mais outros tantos do marido. Indaguei como conseguia sobreviver com um mínimo de dignidade. Respondeu-me que – agora já com 77 anos ! – tinha de andar “a dias, a fim de ir buscar um pouco mais para fazer face a medicamentos, sobretudo para o marido, alimentação, luz, água, gaz, transportes, etc”. E depois exclamou: “já viu, ter de continuar a trabalhar aos 77 anos! Que país este Meu Deus!”.
Pois. Que País este, governado por gente de uma insensibilidade social e política que assusta! Nos faz pensar.
Quanto à dita reformada, agora a ter de voltar a trabalhar, perto dos 80, é caso para se dizer que, no caso dela, não terá razões para sorrir e a gozar como deveria – mais descansadamente, a sua reforma.
Quanto a mim, pergunto-me o que me virá cair nos bolsos, “pelo andar da carruagem”, daqui a uns anos!
P.Rufino

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Dra. Helena Sacadura Cabral: vou pensar muito bem no que aqui diz, pode crer!

Anónimo disse...

A máxima da minha vida tem sido: ter tempo, diariamente, para viver a minha reforma fazendo pequenos nadas que me dão prazer como passear de madrugada á beira rio, passear ao pôr do sol com o cão, ir á piscina várias vezes durante a semana, ir ás massagens, comer a comida que eu própria cozinho de forma simples, fazer o meu próprio pão, as minhas compotas, os meus iogurtes, o meu queijo, comer os legumes e frutos do meu jardim, ver filmes (muitos), viajar várias vezes ao ano...
Não quero deixar tudo para o amanhã que pode nunca vir.... como tem acontecido com alguns que amo.. ou amei.

Anónimo disse...

OLÁ OLÁ

Helena Sacadura Cabral disse...

Caro Jack
O grande colecionador das fotos do meu tio é o meu sobrinho Rui Sacadura Cabral, filho do meu irmão mais velho. Mas quer as dele quer as minhas são de muito baixa resolução porque são fotos de família com mais de noventa anos. Não se esqueça que ele morreu há mais de cem anos.

Helena Sacadura Cabral disse...

Caro Dr. Francisco Seixas da Costa
Este não irá ser, jamais, o seu retrato, porque "reformado" estará só de nome.
Mas fico contente que fique perto da Versailles, local onde gosto de parar e onde se pode almoçar com tranquilidade, se a escolha for o lado esquerdo da entrada.
Também não o via optar pelo lado direito, diga-se já, que é o balcão dos bolos mais apetitosos e perigosos para quem quer manter a forma.
Hei-de aconselhar-lhe um bom grelhado com legumes que não vem na lista!