sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Triste desígnio

Alguma coisa de grave se está a passar entre nós, que visa sobretudo mulheres e crianças e que não é apenas resultante da crise que atravessamos.
Em 2012 já foram assassinadas em Portugal vinte e seis mulheres, isto se apenas atentarmos nos números oficiais. Porque, se considerarmos que tal tipo de crime esconde outro, terrível, que é o da violência doméstica, o caso é mais grave. Com efeito, esse dificilmente é contabilizável, porque as vítimas não só ainda têm uma enorme vergonha de o confessar, como os serviços policiais na sua maioria - ia dizer totalidade -, não estão devidamente apetrechados para receber tal tipo de queixas.
Eu sei que, antes, a comunicação social não fazia eco de tais crimes, ao contrário do que hoje se passa. Mas se a eles juntarmos a violência sobre os velhos e as crianças, as violações sexuais praticadas com as faixas etárias mais baixas, somos levados a crer que nem a redução da ileteracia teve qualquer consequência digna de registo. Parece, até, que funcionou ao contrário. 
Enquanto estes problemas subsistirem na sociedade portuguesa, falar de quotas na política é quase ofensivo. Por isso até me abstenho de comentar o desejo da Comissão Europeia de obrigar as maiores empresas da UE a ter pelo menos 40% de mulheres entre os membros não executivos dos seus Conselhos de Administração
Claro que tinha que ser entre os não executivos. Porque os executivos, esses 60%, ficam reservados para os homens. 
Haja paciência para tanto descaramento e discriminação por parte destes inteligentes a quem se entregou o futuro da Europa. O resultado está à vista...

HSC

16 comentários:

Vânia disse...

É lamentável, com efeito, tanta violência mas esta crise já resvalou há muito tempo do carácter financeiro com o qual foi cunhada nos seus primórdios.

As pessoas já não têm apenas carências económicas e talvez essas sejam as suas menores carências, as pessoas estão carentes de amor e é isso que estraga tudo.

Engraçado mas enquanto escrevia lembrei-me de seguir uma sequência lógica que facilmente nos leva da crise financeira à violência doméstica.

crise> MENOR poder de COMPRA > SUSPENDER GASTOS supérfluos > menor AUTOESTIMA > AUMENTO DA VIOLÊNCIA CONTRA OS OUTROS.

Agora falta reflectir porque é que isto acontece.

Um Jeito Manso disse...

Olá Helena,

Concordo que há uma indignidade difícil de suportar nestas notícias que são faces da mesma realidade.

Ainda há dois dias, lá no meu canto, manifestei a minha indignação e tristeza perante estas aviltantes situações e me interroguei sobre o que poderemos fazer para alterar tudo isto. Sejam quais for as acções, penso que todas elas passam por não calar.

Caso queira também ler o que escrevi aqui fica o endereço do que escrevi e que ilustrei com imagens das mulheres de Paula Rego.

http://umjeitomanso.blogspot.pt/2012/09/as-mulheres-em-orgaos-de-lideranca.html

Por muito que falemos sobre o mesmo assunto, nunca será o suficiente enquanto perdurarem quer agressões e crimes contra mulheres ou atitudes estupidamente paternalistas como as de Bruxelas.

As mulheres também se deveriam unir mais, não é?

Paulo Abreu e Lima disse...

Caríssima Helena,

Faço-lhe uma pergunta: É a favor da imposição efectiva de quotas? Outra pergunta: se sim, vê-la como um mal necessário?

Abjos,
paulo

Helena Sacadura Cabral disse...

Cara UJM
Não é fácil. Enquanto as mães e mulheres forem financeiramente dependentes, o medo vai sempre sobrepor-se à coragem.
Tenho tanta, mas tanta pena destas mulheres, destas crianças e destes velhos que vivem este pesadelo!
É crime público e deve ser denunciado. Mas ainda não está interiorizado.

Maria disse...

Também creio que o aumento da violência doméstica não está apenas relacionado à crise. Ela acontece em familias com bom poder económico....precisamos ser educadores da moral e da ética. São valores transmitidos e que aprendemos desde tenra idade. Se o respeito pelo outro, não for aprendido, a violência jamais será erradicada. Aproveito a oportunidade para lhe dizer que é um prazer acompanhar seu blog. Bfs. Cumprimentos, Carmen

Silenciosamente ouvindo... disse...

Eu não sei a razão exacta do porquê
de tanta matança de mulheres no
meu país nos últimos tempos...
As mulheres normalmente calam
durante muito tempo as agressões
e elas vão subindo, sempre subindo...
O homem português é muito machão...
a mulher é sua propriedade e um
ser menor...
Não sei se a situação de falta de
empregos, de menos dinheiro em casa,está a contribuir para este
aumento de agressividade contra as
mulheres...mas os Tribunais também
não ajudam, as Instituições de apoio às mulheres são insuficientes.
A união entre as mulheres também
não é fácil.
Mas não digam que Portugal é um
país de brandos costumes que não é.
Bj.
Irene Alves

patricio branco disse...

a violencia domestica começa finalmente a ser noticiada e talvez por isso pareça que está a aumentar. antes não era sequer noticia.

Fatyly disse...

Subscrevo inteiramente mas a maior e mais vil culpada é a justiça que não funciona bem como muitas das associações de apoio à vitima.

Um fulano enquanto aguarda julgamento espera fechado numa cela? jamais...por vezes vive anos a fio com a vitima até o tribunal dar o caso com encerrado.

Falo com conhecimento de causa de uma vizinha da minha mãe: divórcio demorou 4 anos, depois o sobre a violência doméstica 3 e com sentença que deveria pagar X à vitima e ou 2 anos de cadeia e aí passou apenas à violência psicológica já que os vizinhos foram as testemunhas dela. Como foi possível que...Depois aguardaram quem deveria sair...mais quase 2 anos e nada...entretanto ele morreu e o assunto ficou resolvido de vez.

Várias vezes no hospital e queixas na PSP que as encaminhava de imediato para o tribunal. A APAV onde teve várias queixas não lhe valeu de nada...não fosse a minha mãe dar-lhe guarida por horas a ela e à filha de vez em quando...e sobretudo quando teve o cancro de mama...que ia ela e a filha primeiro do que ele!!!

e o mesmo se passa com as crianças e com os velhos...oiço por vezes dizer: não vale a pena participar por não vale de nada. Claro que contrario sempre este modo de pensar!

Anónimo disse...

A questão das quotas sempre me causou alguma estranheza. Dá-me a ideia de que, independentemente da competência para o desempenho de determinadas funções, deve prevalecer a proporção homens/mulheres,
altos/baixos, canhotos/dextrímanos, europeus/africanos, etc. Já vimos, no âmbito da política, os partidos serem obrigados a fixar quotas, sem cuidar se as mulheres disponíveis nas suas hostes estão ou não interessadas a desempenhar algumas funções ou têm formação adequada... Convenhamos que tal critério confere um estatuto de menoridade a quem se presta a esse jogo. Calculo que não deve ser fácil fazer prevalecer o estatuto de igualdade de oportunidades entre homens e mulheres na vida profissional. Mas, sobretudo, a mulher tem uma função única na sociedade que é a de ser mãe. Deve ser nesse domínio que a sociedade e os Estados devem procurar a melhor forma de não a "prejudicar" por ter uma fase da sua vida activa com uma tarefa única e fundamental para o equilíbrio da própria sociedade. A prazo todos pagaremos essa factura se houver falhas. Felizmente, conheci mulheres, que souberam e puderam impor-se profissionalmente sem necessidade serem "protegidas" nas suas carreiras, só pela via das quotas, o que nem sempre foi fácil. O verdadeiro combate parece estar aí. Naturalmente, esse combate tem de envolver o Estado, na formulação das políticas de apoio à maternidade e à infância, os homens(familiares/maridos) e a sociedade em geral. A UE gasta tempo demais a pensar e a legislar sobre assuntos algo bizantinos. São os mesmos que fixam critérios de comodidade muito exigente para o transporte de animais em camiões ou comboios, muito mais exigentes do que os critérios para os seres humanos, incluindo crianças... A máquina burocrática tem de justificar a sua existência... É óbvio que está a ser preocupante a violência crescente sobre as mulheres, as crianças e os idosos. Mas aí devemos tocar noutra tecla - que se tem feito nestes mais de 30 anos no campo da educação cívica? Que valores se tem procurado transmitir às novas gerações? Os políticos, para além das palavras, têm-se preocupado seriamente em diginificar os mais desprotegidos?
Enfim, termino como a minha boa Amiga Helena, haja paciência para aturar estes inteligentes, alguns mesmo cá da casa...
José Honorato Ferreira

Helena Sacadura Cabral disse...

Amigo Paulo
Sou contra as quotas, porque sou contra discriminações, sejam elas positivas ou negativas.
Há ainda um longo caminho a percorrer por todas nós. Mas não é com imposições de "género" que lá iremos. E muito menos com a discriminação descarada que a UE vem propor, que chega a ser ofensiva.
As mulheres não estão na política porque não apreciam a forma como ela é conduzida. Eu sou um exemplo disso. Não estou lá porque me não agrada a partidarite que a envolve.
Quanto à sugestão da UE apenas lhe digo que as mulheres não necessitam de migalhas, cujo fim é meramente estatístico...

nando disse...

Ora bem, vamos imaginar um mundo em que as mulheres estivessem no centro das coisas. No centro do poder, no centro da política, no centro.

Como se sentiriam os homens se elas criassem uma lei que dissesse - temos de ter pelo menos 40% de homens nos cargos de... sinceramente, seja o que for.

Como nos sentiríamos? Sinceramente, penso que não nos poderíamos sentir discriminados. Afinal, elas estariam no poder! Nas posições do posso, quero e mando. Não é verdade?

Helena Sacadura Cabral disse...

Caro Nando
Governar não significa "quero, posso e mando". Isso é tiranizar.
A obrigação de quem está no poder é não permitir injustiças e fazer tudo para que os cidadão se sintam iguais perante a lei já que nas oportunidades nem todos têm a mesma capacidade.
As mulheres representam 52% da população, mas o mundo é comandado por homens.
O facto de a mulher ser mãe não deve ser um anátema profissional. Aliás, a quebra de natalidade prova bem o que eu digo.
Já pensou naos milhões de mulheres "domésticas" que trabalham em casa e não têm direito a salário? E no entanto esse trabalho integra o PIB nacional...

Catarina disse...

Os números são de lamentar e são preocupantes, e o pior é que não aumentam só o número de mulheres mortas pelos companheiros ou ex companheiros, eu vejo aumentarem também o número de mulheres a matar os seus filhos. Arrepiante.

Este assunto toca-me pois uma amiga minha morreu às mãos do namorado e a pena que ele teve face ao crime cometido foi rídicula, um primo meu matou a esposa à frente dos filhos e a pena foi também ridicula (cerca de 9 anos depois estava cá fora). A nossa justiça é bastante benevolente nestes casos e algo deveria ser feito no sentido de contrariar isso.

Para finalizar devo reforçar que toda a violência é má! Seja contra homens, mulheres ou crianças. Uma mulher assassinar o marido não é menos grave do que um marido matar a mulher, infelizmente em termos de números são as mulheres quem mais sofre com esse flagelo.

Cumprimentos cara Helena, sou uma leitora assídua embora seja a primeira vez que me atrevo a deixar aqui as minhas palavras.

Vânia disse...

... nós para aqui a falarmos de violência doméstica...

e hoje separaram-se (apenas fisicamente, mas isto de falar é mais fácil que sentir) duas almas que se amaram tanto.

Anónimo disse...

Depois de me ter separado e antes de me casar pela segunda vez, tive um namorado que me deixou abalada.
No entanto, nada de violento aparentemente se passava, tudo dentro de uma certa cortesia, embora formal.

Constrangida, infeliz, não conseguia identificar a origem do mal-estar, o aperto no estômago, a sensação de opressão.
Todo o meu panorama afectivo-sexual, todo o meu imaginário de fantasias prazeirosas, se alteraram
como se tivesse feito uma lavagem ao cérebro.
Hirta, enredada sem saber como sair, deixava-me ficar.
De forma intermitente, com avanços e recuos, o relacionamento manteve-se cerca de dois anos e tal.

Por exemplo, ele não me beijava.
Posteriormente, algumas pessoas me afirmaram que isso é mais comum do que se pensa.
A situação era tão inesperada e complexa, que eu repetia para mim mesma 'Não pode ser'.
No início senti que a culpa era minha, que havia em mim algo de errado, e ficava asfixiada, paralisada.
Depois romântica e maternal, pensei que ele tinha algum problema, algum trauma, que eu poderia ajudá-lo a ulltrapassar.

Ele dizia-me muitas vezes que achava que a nossa relação era muito forte. E eu, que tinha afinidades intelectuais com ele, não lhe conseguia dizer que, para mim, era um pesadelo.

Por fim, consegui desenredar-me e sair daquele 'sorvo escuro' que não sei onde me teria levado, nem quero saber.

Não sei se consegui transmitir o abalo emocional que vivi e que, comparado com as violentas agressões e homicídios que hoje tão alarmantemente aumentam, parece soft.
Mas senti que uma mulher se pode deixar envolver numa espiral de que é difícil sair.
E, se estiver numa situação de dependência económica, o que não era o meu caso, tudo se tornará mais difícil ainda.

Penso muitas vezes, o que teria sido de mim se tivesse vivido noutros tempos, e tivesse de ficar para sempre com aquele homem charmoso e intelectualmente de horizontes largos, mas emocionalmente retrógado e egoista.

Anónimo disse...

Sobre o comentário anterior.
Não chame soft à situação por que passou. Pelo que conta e tb pelo que cala, foi concerteza uma experiência dolorosa e demolidora da sua auto-estima. Foi uma situação violenta sem dúvida.
Felizmente consegiu ultrapassá-la, mas muitas mulheres vivem situações como a que relatou. Muitos homens procuram a sua satisfação sexual, sem acarinhar e sem se preocuparem com a satisfação da sua parceira.