quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Trinta anos de vida...


"Os homens amáveis, admiráveis, viciantes, são assim: expressivos, expansivos, esplêndidos. Ficam a navegar no nosso sangue, porque se cravaram além dos olhos e da pele: na alma. E lá, vivem para sempre. Até nos reencontrarmos. A vida contém infindas surpresas e o amor é a maior energia do universo".

Esta é uma frase de Margarida Pereira, que Helena Oneto transcreve no seu blogue a-casa-da-lapa.blogspot.com.
Não sei bem porquê, de vez em quando, ela vem-me ao pensamento e agora no, fim de 2011, época de balanços, voltei a lembrar-me dela.
É verdade que há homens que ficam para sempre cravados no nosso coração. Não porque sejam os únicos que amamos, mas antes porque os amámos de forma especial.
Só que tudo isso acontece em determinadas épocas da nossa vida, que não voltam a repetir-se. E, muito possivelmente, se os tivéssemos encontrado uns anos antes ou uns anos depois, nem chegariam a ter essa importância na nossa existência, porque nenhum de nós seria aquele que foi.
Vem isto a propósito do duplo choque que uma amiga minha teve quando, há dias - eu estava com ela e pude comprovar -, encontrou o homem que durante trinta anos ocupara, sem quebras, o seu coração.
O seu aspecto físico era desolador. Gordo, careca, desmazelado, olhar vítreo. Nada que sugerisse o galã engenheiro que, um dia, a deixara para seguir uma carreira brilhante nos Estados Unidos.
Ficámos a saber que passara quinze anos preso no estrangeiro e retornara para "morrer em Portugal", de acordo com o que nos contou. A sensação de espanto primeiro, e de desconforto depois, foi quase trágica. Quando nos despedimos, nem eu nem a minha amiga dissemos uma palavra.
Caminhámos as duas, em silêncio, um bom bocado e, quando a deixei junto ao carro, ouvi-lhe "trinta anos da minha vida, Helena, trinta anos à espera deste homem que acabaste de ver..."!
Que responder perante isto, sem magoar, sem parecer insensível. Ela não se enganou. Quem a enganou foi a vida e, talvez, o seu coração!

HSC

16 comentários:

Ivone Costa disse...

Raramente se ama o outro, Helena: ama-se a imagem que se tem do outro.
Beijinho.

rosaamarela disse...

É assim... alguns até nos deixam filhos, filhos da desilusão mas a nossa "capacidade infinita de amar os filhos" alivia-nos desse engano.

UM ANO NOVO CHEIO DE SAÚDE e alegrias.

Um abraço

Anita Garcia disse...

Sendo um pouco mais nova, também me aconteceu o mesmo, há cerca de 1 ano e pouco, quando reencontrei uma paixão de quando era jovem-adulta, com quem tive uma relação rápida e dorida, mas que mantinha num lugarzinho especial no coração. Felizmente que reencontrei essa pessoa, que apesar de muito semelhante ao que era há 14 anos atrás, dei conta que eu é que não sou a mesma, aleluia!
Para grande felicidade minha tive a oportunidade de lhe dizer umas quantas coisas que guardava fechadas, junto a memória que tinha dele. E o que 14 anos podem fazer às memórias... enganam-nos completamente.
A questão é mesmo essa que a Helena diz: tudo acontece em determinadas épocas da nossa vida, que não voltam a repetir-se, feliz ou infelizmente.
Retirei um esqueleto do armário e libertei o espaço que ocupava no meu coração.
Leveza ☺
Beijinho Helena

Raúl Mesquita disse...

Cara Helena, Honestíssima Amiga destas Conversas quase (?) Íntimas:

Estou a meter-me num assunto difícil: o coração feminino! No entanto, como se trata de um sentimento universal, o Amor, ousarei.

Cupido atira a sua flecha (ando a escrever sobre o período clássico, daí, estas imagens…) aleatoriamente. Penso que esperar é deixar morrer. Deixar o outro é matar. Para que o amor continue é preciso envelhecer ao mesmo tempo. É uma verdade de Monsieur de La Palisse, mas que talvez sirva a muita gente hoje em dia.

E nada mais acrescento.

Raúl.

Maria Lessa disse...

É sempre um prazer chegar aqui e ler as suas palavras. Mais uma vez, são palavras maduras e verdadeiras, daquelas que a vida nos ensina a reconhecer como nossas. Assim é a passagem do tempo, com as suas alegrias, prazeres e incongruências. Como diz o Raúl Mesquita, e bem; para que o amor continue é preciso envelhecer ao mesmo tempo. Só assim o amor se sintoniza com a vida e com a passagem do tempo.
Um Ano Novo fantástico para todos.
Margarida

Duchess disse...

Olá Helena. Espero que não se importe que uma intrusa venha aqui comentar.
Gostei muito desta reflexão. Acho que de uma forma ou de outra essas desilusões fazem parte da história de vida de quase todos. São lutos que temos de ir fazendo. Faz-me pensar em muitas coisas, particularmente nesta necessidade que temos de colocar o outro num pedestal. E quase nunca amamos o outro mas a idealização que dele fizemos.

Beijinhos e bom ano.

Um Jeito Manso disse...

Quando um se afasta, não é ele (ou ela) que se afasta - é a vida que está a afastar os dois.

Não vale a pena contrariar a vida. Se houve uma razão para que algum dos dois se quisesse afastar é porque o duo não estava a resultar.

E ficar a chorar por isso? Ou querer recuperar o que já é passado?

Eu acho que não em absoluto.

Fecha-se uma porta, e logo outra se abre. Ou janelas. Ou o que for.

Decorrido algum tempo, virá a concluir-se que foi a melhor solução.

Assim ambos saibam seguir em frente, disponíveis para novas descobertas, para novos amores.

Há mais marés que marinheiros!

Isabel Seixas disse...

"Ela não se enganou. Quem a enganou foi a vida e, talvez, o seu coração!"
Talvez o tempo;
As expectativas;

E o corpo do senhor...

Mar disse...

A vida jamais nos engana.
Muito mais para dizer sobre este tema.....mas o que quero mesmo ee desar-lhe;
UM EXPECTACULAR ANO NOVO QUE SE AVIZINHA, CHEIO DE TUDO DE BOM DO QUE O SEU CORACAO ANSEIA.
Bjs.

Margarida disse...

É muito curiosa esta coincidência de andar a pensar no que escrevi à nossa Helena-de-Paris e, de repente, vê-lo a vermelho-paixão neste espaço de doçuras.
A vida é construída, também, destes pedacinhos de aparentes coincidências, de sintonias mágicas, de harmonias espirituais e batimentos cardíacos em uníssono.
O Amor é tão esquivo quando tentamos classificá-lo...
Existem tantas formas quantas as intensidades de o sentirmos.
Escrevi aquilo em homenagem a um dos grandes amores da nossa amiga mas, é claro, baseando-me no que sentia.
Eis a sintonia harmónica que referi: duas mulheres de origens distintas, de gerações diversas, unidas por um sentimento similar por seres que podem considerar-se num plano semelhante.
Nem todas podemos orgulhar-nos de ter sentido tudo por alguém assim.
Nem alguém dessa forma pode alguma vez ter a certeza que almas livres e aladas como as nossas viveram instantes de felicidade pura por eles.
São os mistérios dessa maravilha diáfana que apelidamos de Amor.
Bem-haja por compreender, por partilhar, por evocar, por orquestrar o que compreendo quis significar.

Abreijos da sua M.

,

N disse...

Roubando a frase do cartaz de The English Patient "in memory love lives forever".
E, em última instância,"amar é a eterna inocência e a única inocência é não pensar".

Anónimo disse...

É tal e qual. E os filhos, às vezes, são só nossos, e em geral são muito mais nossos do que dos progenitores que não souberam ser pais deles. Ser mulher é muito diferente de ser homem. Muito mais intenso, muito mais doloroso. Magoadas por homens e pela vida? muitas de nós. Os homens partem tudo à volta e sofrem pouco por isso. Pelo menos muito menos do que deveriam.

~inês

carolina disse...

Apetece tanto reflectir! são dias de nostalgia de balanço, de olhar para dentro.
A todos e particularmente a si D. Helena

Boas Festas,... o ano havemos de o ir vivendo cada dia, uns ao lado dos outros, tudo fazendo para o construir bom...

Mariana disse...

Fantástico o quão verdadeiro é o que diz. Atrevo-me a dizer que, apesar de muito nova, já levo a minha conta, e acredito que um dia talvez me aconteça algo parecido com o que a sua amiga viveu há uns dias...
Eu acho que o coração engana, e muito, mas principalmente a conta em que nos tomamos vai variando. E, se Deus quiser, um dia conseguimos valorizar-nos ao ponto de ter uma pessoa igualmente impecável ao pé de nós. Até lá, vamo-nos tentando aperfeiçoar com a esperança de que, assim, também conseguimos encontrar uma boa pessoa para nos apaixonarmos. Talvez por isso "o próximo seja sempre melhor", como uma vez ouvi. Esperemos que sim :)

Um grande beijinho e um ano cheio de alegria, como já nos vem habituando!
Mariana

helena disse...

O amor dela nunca amadureceu e passou a ser incondicional.
O aspecto envelhecido ou mesmo moribundo de um amigo pode chocar de inicio mas ultrapassa-se quando se ama de verdade.
Helena

Anónimo disse...

Esta história tem muito impacto e está cheia de conteudos muito densos e profundos!

Assim a quente diria coitado do homem !
Outros diriam , coitada da mulher !
Outros diriam , coitados dos dois!
Outros diriam , que sorte ... etc

No entanto parece-me que o Raul desenhou o quadro muito bem e a Ivone COsta , também esteve bem , ainda que poderia dizer-se que a imagem que amamos também é influênciada pelo amado.
Carl Jung estudou esta temática a vida inteira e chegou à coclusão que tendencialmente amamos, no caso das mulheres, homens com imagens represntativas do pai e no caso dos homens, mulheres com imagens representativas da mãe !

Sobre o amor de sua amiga, também parece-me que estava mal estruturado e não resistiu aos abalos ! AS questões da aparencia,resolviam-se rapidamente ! Um homem com a vida feita em cacos tem pouca motivação para se armar em galifão. A questão que dever ter pesado foram os 15 anos de prisão !!!

Mentalmente a prisão rebenta com qualquer "boa" pessoa. Só os "maus" é que não são afectados pela prisão !

Uma vez fui com um amigo visitar outro seu amigo à cadeia. A visita foi no jardim, ao ar livre e estivemos a conversar sobre o dia a dia dentro da prisão e ao mesmo tempo a apreciar outros presos que faziam trabalhos de jardinagem !!!

Observei que o preso(tinha uma pena de +-3 anos por dividas), tinha alguns truques para ultrapassar a sua falta de liberdade. Mentalizava.se que ele tinha o corpo preso mas a mente não e vagueava com pensamentos mirabolantes e sucesivos para esquecer o local onde estava!Pode-se dizer que só transformando-se num louco podia
sobreviver à loucura!

Daqui pelo que vi posso admitir que esse homem que esteve preso 15 anos não podia estar bem mentalmente e isso rebenta com tudo no entanto há casos de amor que sobrevivem À prisão !!!

OGman