quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

"Eu, colaboradora, me entristeço"


"Arrependo-me de quase todas as decisões que tomei na vida. Durante muito tempo acreditei ser a escolha da profissão aquela de que me não iria arrepender. Os últimos tempos vieram provar o contrário: ser professor é um destino que não se deseja ao nosso pior inimigo.
O que era escola tornou-se comunidade educativa, designação execrável que engloba sensibilidades que não se encontram nem nunca se irão encontrar.
O zénite do desencanto aconteceu hoje: ao abrir o mail, recebo os votos de Boas Festas da direcção da escola. As Boas Festas dirigidas a todos os colaboradores. Colaboradores. Colaboradores, assim mesmo como se de uma empresa se tratasse. A escola não é uma empresa, não pode ser uma empresa, não deve ser uma empresa. Eu sei que esta linguagem está na moda e que é muito fácil agarrar estas expressões e usá-las sem reflectir sobre a elas. Ligam-me às pessoas que integram a direcção da minha escola laços de amizade de muitos e muitos anos. Sei que não usaram este termo para magoar, usaram-no porque se usa.
A mim, que sou rija e pouca dada a lamechiches, vieram-me as lágrimas aos olhos. Resumir o trabalho de um professor a uma colaboração é uma ofensa, é uma mágoa que custa a sacudir.
Só me apetece emigrar. Para um sítio onde me chamem professora."
(in arondadosdias.blogspot.com)


Este é o post colocado ontem, por Ivone Costa, no seu excelente blogue e que eu me permiti roubar, porque o sinto como a mágoa de alguém que escolheu ser professora
e, de repente, "se sente" pela forma como, no presente, se apelidam os professores.
Eu sei que há muitas outras profissões que, hoje, são tão flageladas ou mais que os professores. Mas a matéria prima sobre que estes trabalham - os alunos -, que serão as mulheres e os homens de amanhã, justifica, talvez, que eu sinta este lamento como especial. É que sei o que é ter sido aluna, ser professora e ter netos que vivem as agruras de se não pensar no amanhã deles.
Aliás, o futuro dos meus netos há muito que foi destruído pela inépcia da geração que os precede. A herança que lhes deixamos são os três D: a dívida, o desemprego e o desencanto. É muito de coisa nenhuma...

HSC

10 comentários:

Tété disse...

É muito de coisa nenhuma...

E não só aos netos. Até mesmo aos filhos que noutra época e em circunstâncias não aplaudíveis, teriam certamente uma outra perspetiva de futuro.
É verdade querida Helena, eu já luto com a dificuldade de colocação de um filho de 38 anos, a quem reduziram os horários e consequente vencimento de professor universitário, a quem não dão outro tipo de emprego na área em que se licenciou e doutorou por ter "habilitações a mais" (SIC).
Que fazer? Se calhar emigrar como nos aconselhou o PM. Mas... leva o filho ou deixa-o cá à espera que tudo se resolva e perde o seu crescimento e acompanhamento?
Tanto sacrifício para tão parca herança.

Feliz Natal e que o Novo Ano continue, melhor ou como até aqui, a concretizar pela positiva as suas perspetivas e os seus anseios.
Grande beijinho
Teresa

Ivone Costa disse...

Não gostei do termo, Helena. Não gostei mesmo. Beijinho.

José Rodrigues Dias disse...

Cara Drª Helena:

É triste,
é mágoa,
é dor...

J. Rodrigues Dias

Anónimo disse...

Senti precisamente o mesmo. Qual colaboradora? A Escola vivencia-se. Há dois anos, por ter atingido a idade exigida por lei, deixei a escola. Ficaram para trás muitos anos vividos com agrado, respeito pelos alunos e colegas, paixão e muito, muito cansaço. De lastimar a ignomínia dos últimos anos que enegreceu a magia dos anteriores e daí, o meu desprezo por todos aqueles que enxovalharam e subestimaram os professores. Pode acreditar, estimada Helena, nunca mais senti aquela "alegria" que me acompanhava todas as manhãs. Sinto muita falta dela, não obstante não ter razões para estar triste, a não ser com o estado do meu país. Para mim, ensinar foi um fascínio.

aNaTureza disse...

Assim, que futuro?
É triste, é...

Fátima Laouini disse...

Tb sou professora e já fui bem mais feliz na escola. Sobrevive-se mas há um cansaço...e tanta coisa havia para dizer. Feliz Natal, Helena.

Raúl Mesquita disse...

Cara Helena:

Fez muito bem em ter ido buscar este desabafo a outro Blog. Se não o tivesse feito, eu e outros não teríamos tido acesso a ele. Fui Professor e compreendo a dor da Ivone Costa. Colaboradores, Auxiliares de Educação, tal como em Medicina, Dr. seguido de nome próprio (não existe nos outros países europeus, como bem sabe; no Brasil...), a decadência de um povo (detesto palavra "rasca" do uso e abuso, como não gosto de "reles", mas vou usar esta última) reles que puxou bem para baixo os direitos democráticos porque nunca percebeu o que é a democracia. E olhe que eu sinto-me à vontade para dizê-lo. A minha família era do chamado, pelos da situação anterior, do reviralho. Nunca o disse aqui, mas sou neto de Raul Proença, pelo lado da minha mãe, e o meu pai, António Marcelino Mesquita, foi muitos anos Chefe da Redacção do Jornal "A República", ambos tinham uma ideia bem diferente da democracia, ideal pelo qual lutaram e pelo qual sofreram na pele.

Raúl Mesquita.

António Pedro Pereira disse...

Colaborador é a nova terminologia do neoliberalismo que as pessoas em geral aceitam e usam acriticamente.
A finalidade é rebaixar todos à condição de colaboradores eventuais, pontuais, quando necessários, SIM, quando não necessários, NÃO.
Mas veja-se a contradição:
Durante anos a fio fez-se a crítica do emprego por contraponto ao trabalho. Quem defendia o emprego não queria trabalhar, queria apenas a segurança que o posto de trabalho lhe dava; o que importava valorizar era o trabalho, não o emprego.
Descoberto o novo maná da total desregulamentação pela conjugação das ideias neoliberais coma Globalização, inventaram-se os descartáveis permanentes ─ os colaboradores.
Quanto mais usado intencionalmente por uns e acriticamente por outros mais «natural» o termo se torna.
Cabe-nos contrariar a onda, meter o pauzinho na engrenagem (que nos esmagará).

N disse...

Cara Helena:
Não podia estar mais de acordo.
Considero os professores uma das classes mais importantes dum país. Considero-os fundamentais para a formação dum jovem:
http://ocantinhodocinema.blogspot.com/2011/12/dead-poets-society.html
E, como tal, sinto-me envergonhada pela maneira como tratamos todas estas pessoas que tanto contribuem e contribuíram para fazer de nós o que somos hoje. Sem uma boa formação não haverá futuro possível para um país, pelo que a maneira como tratamos os professores agora será um reflexo dum país cada vez mais medíocre no futuro.

Anónimo disse...

Espera-os um futuro diferente e porventura menos materialista.
Um dia os nossos netos acabarao de vez com certas estruturas, padroes e esquemas ultrapassados.