terça-feira, 19 de abril de 2011

Um exemplo


Caro Steinbroken

Por estes dias, recordo as noitadas em que nos cruzávamos nos salões dos Maias, no Ramalhete, às Janelas Verdes, nas tertúlias que o José Maria retratou no livro a que deu o nome daquela família.
Lembro-me da generosidade com que você, diplomata finlandês, era recebido naquele cenáculo, onde, com carinho lusitano mas cosmopolita, entre mesas de whist ou numa ronda de bilhar, ou ouvindo-o a si como "barítono plenipotenciário", procurávamos atenuar a sua nórdica solidão.
Muita água passou sob as pontes. Você regressou aos gelos da sua Finlândia, eu por aqui fiquei, com a escassa fortuna que Celorico me deixou.
Há uns anos, caro Steinbroken, você escreveu-me para Lisboa, dizendo do agrado com que vira Portugal apoiar, com entusiasmo, a entrada do seu país na União Europeia. Elogiou o facto de, ao contrário de outros, não termos achado que a "finlandização" havia sido um imperdoável pecado histórico de agnosticismo estratégico, um genérico triste da "realpolitik". E recordar-se-á de eu lhe ter respondido, na volta do correio, que, conhecendo-o a si, nunca o tivera por seguidor do "better red than dead".
Noutra ocasião, você veio bater-me epistolarmente à porta, pedindo que deixasse cair uma palavra nas Necessidades, com vista a evitar que Portugal cedesse a um compreensível egoísmo, por mor dos fundos estruturais, a ponto de poder criar obstáculos aos Estados bálticos, “primos” da Escandinávia, que queriam então aceder à NATO e à União Europeia. A resposta da nossa diplomacia foi, reconheça, soberba: embora o alargamento fosse um passo que tinha em Portugal um dos países mais prejudicados, adoptávamos uma visão solidária da Europa, pelo que entendíamos que um mínimo de respeito histórico nos obrigava a acolher aqueles Estados no nosso seio. Da caixa de vodka que você me mandou, com um cartão catita, a agradecer a diligência, ainda me resta uma botelha.
Pensava partilhá-la consigo, Steinbroken, numa sua próxima vinda a Portugal, à cata de sol e de olho nos corpos morenos, Chiado abaixo. Passaríamos pelo Grémio, jantaríamos no Tavares e iríamos degustar o resto dos álcoois no meu terraço, Tejo à vista. Eu contar-lhe-ia a poética aventura eleitoral do Alencar, a carreira como banqueiro da besta do Dâmaso, o folhetim da venda da “Corneta do Diabo” à Prisa, a colaboração do Cruges com os “Deolinda”, a agitação do Gouvarinho e de outros tantos, nas lides que levam às Cortes.
Mas, agora, o que me chega? Que você foi ouvido, num dos últimos dias, passeando sob as árvores onde o verde já brota, ali na Promenade, no centro de Helsínquia, recém-saído do spa do vizinho Kämp, de braço dado com um alemão, com tiradas muito pouco simpáticas sobre Portugal e os portugueses. E que dizia você? Que, afinal, o compromisso político que a Finlândia havia dado à estabilidade do euro, que servira para a Grécia e para a Irlanda, poderia já não valer para Portugal. Ao seu lado, o alemão ecoava coisas parecidas, quiçá esquecido que o meu país, como todos os outros parceiros europeus, andou anos a pagar elevadas taxas de juro, para liquidar a fatura da reunificação da Alemanha, que hoje é, como sempre foi, o grande beneficiário do mercado interno europeu.
É triste, caro Steinbroken, é muito triste que a frieza do vosso egoísmo lhes faça esquecer que a solidariedade é uma estrada de dois sentidos. Aqui, por Portugal, estamos a atravessar uma conjuntura difícil. Outras já tivemos, todas ultrapassámos. Mais recentemente, cometemos alguns erros, revelámos fragilidades que a crise sublinhou. Pensávamos poder contar com os amigos. Ao longo dos tempos, aprendemos a ser gratos a quem nos ajuda, a ser-lhes leais quando de nós necessitam. Não somos rancorosos, porque alimentar ressentimentos mesquinhos não está na nossa maneira de ser. E sabe porquê? Porque, na vida internacional, mantemos alguns sólidos valores, os mesmos que nos permitiram sobreviver nove séculos como país, um dos mais antigos do mundo, sabia?
A vossa atitude, a vossa quebra de solidariedade, porque revela o conceito instrumental que têm da Europa, para utilizar uma frase que você repetia, entre outras platitudes árticas, pelas noites do Ramalhete, “c’est très grave, c'est excessivement grave…”.

Receba um abraço, ainda amigo, orgulhosamente (quase) mediterrânico do

João da Ega
(Postado por Francisco Seixas da Costa em 19/04/11) em

http://duas-ou-tres.blogspot.com

Este post é exemplar de cidadania e de diplomacia. Até de fraternidade.
O Dr.Francisco Seixas da Costa, seu autor e nosso Embaixador em França merece todo o nosso respeito!

HSC

8 comentários:

Margarida disse...

Ena! Este 'post' está bem mais lindo, com foto e tudo! :))
Merece mais beijocas ainda!
(ando muito afectuosa)

Fada do bosque disse...

O Nosso Embaixador tem demonstrado ser sempre, embora muitas vezes com optimismo no topo da escala, um Génio.
Essa carta no blogue é genial!
Além do mais, foi bom relembrar o Eça numa das suas melhores obras.

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Dra. Helena Sacadura Cabral: "o que aí vai!", como escreveria o Eça. Limitei-me a piratear o estilo, embora reconheça que o João da Ega não tinha tiradas com aquela serenidade. E não podemos esquecer o adjetivo que ele, lá para diante no livro, aplica ao meu "colega" Steinbroken.
De qualquer forma, muito obrigado pela amigra transcrição.

carolina disse...

Gostei, muito da forma e do conteúdo, brilhante e digna de fazer parte do Maias. Efectivamente é grave e muito triste ver europeus a falarem de nós, como se um povo fosse apenas os seus tristes politicos. Atitudes como a dos Filandeses, reportada este fim de semana nos Telejornais, é perigosa bem capaz de activar sentimentos exacerbados. Eu falo por mim que dei comigo a trautear "levantai hoje de novo o esplendor de Portugal", nós somos gente destemida capaz de desbravar mares nunca dantes navegados, trabalhadores incansáveis com provas dadas em todos os países do mundo, eu trabalho diariamente com afinco e paixão, não ganho o suficiente para manter os meus com o nível que gostaria, mas isso não me dasanima, mereço a sopa que como. Confesso, não gostei de nos ver retratados como um bando de preguiçosos e maus pagadores, não é isso o que me dizem os meus avós nem o que ensino aos meus filhos. è nossa insignia mostrar o que somos quando levados a extremos...pois, chegamos lá. Quererem medir-nos a tigela da sopa e, os dias de sol junto ao mar é o fim da linha...mudemos de politicos, de politica. Na minha familia dizemos que somos pobres, trabalhadores mas não humildes, pois eu acho que está na hora de mostrar o nosso orgulho, a nossa capacidade de trabalho, e, sim a nossa capacidade de sermos feliz debaixo do nosso maravilhoso sol e aproveitando a costa imensa da nossa terra, sem culpa nem pecado, com o sentido do dever cumprido. Eu como, tanta gente, trabalho arduamente, mereço uma manhã de sábado numa esplanada a tomar café( por 80 centimos) e ler o jornal, de frente para uma praia maravilhosa, isso não faz de mil preguiçosa, nem gastadora e, faz tanto pela minha sanidade mental. Não fiquemos de joelhos, não roubemos a dignidade aos nossos filhos, o orgulho de serem portugueses onde se encontrem

Anónimo disse...

Junto-me ao merece todo o nosso respeito...

Isabel Seixas
O Post ... oh! E não só...

Era uma vez disse...

Minha cara Helena

Aí estão dois portugueses exemplares. Um homem e uma mulher corajosos e de prestígio. De certeza que a frontalidade deste sr. embaixador(Ah!valente) e a competência desta professora,
provam que "aqui debaixo do sol" também se luta pela excelência.
E depois, também há os cidadãos comuns,que na sua luta de todos os dias, também são heróis, Quantas vezes.

FINLANDESES, Daaa!!!

one hundred trillion dollars disse...

Dai-nos limosna
Por amor de dios
Cristianos somos
Vê-de ali la cruz

pués a europa envelhecida, que perdeu poder económico e político

quer redistribuição de uma riqueza que não existe para comprar mais fora da europa e aumentar assi os excedentes comerciais asiáticos


infelizmente neste século não lhes conseguimos impingir ópio em troca de sedas e porcelanas

vamos mandar uma flotilha bombardear no Yang-tsé?

vamos cercar Pequim e pilhá-lo?

os bons velhos tempos infelizmente perdem-se

dá-me aí 5 mil réis para eu investir no desenvolvimento nacional

quando o desenvolvimento estiver nice peço-te outro tanto e pago-te metade

quando estiver inda melhor peço-te o dobro e pago-te tudo

patricio branco disse...

Creio que o próprio eça de queiroz sempre desconfiou desse sujeito do norte que só ia a casa de afonso e carlos da maia para passar uns serões jogando ao bilhar, bebendo, comendo e cantando. Mas que não retribuia nem com convites nem com verdadeira amizade. Na verdade, nunca lemos no romance nada sobre jantares ou serões oferecidos pelo steinbroken na sua embaixada aos amigos portugueses, alem de que eça nunca escreve sobre sobre ele com especial simpatia.