quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Savoir se retirer...

Charles Aznavour cantava, quando eu era nova e ele também, uma canção em que o refrão era "savoir se retirer", ou seja saber retirar-se a tempo. Lembrei-me dela a propósito duma entrevista curiosa que Belmiro de Azevedo dá hoje ao jornal Económico.
Este tema tem sido, aliás, uma das minhas preocupações recorrentes. Não há nada mais triste do que o apego aos lugares, que inviabiliza o acesso dos mais jovens que, por causa disso, se vêem privados de participar activamente na construção do seu próprio destino.
Na família e entre amigos tenho afirmado várias vezes que há uma idade crucial para se tomarem decisões. Trata-se dos 50 anos, uma época da nossa existência em que já não se é novo e ainda não se é velho...
A canção elencava, com alguma tristeza, várias situações em que saber sair é uma mera questão de bom senso. De facto, o problema essencial está, muitas vezes, ligado a uma questão de bom senso. Ninguém pode pretender ser novo toda a vida. As diferentes idades têm diversas possibilidades. E é nesta distinção que reside o nó górdio da questão. Na minha idade, tem-se toda a liberdade. Excepto a de ser egoista e a de ser ridícula. A primeira marginaliza. A segunda...mata!


H.S.C

8 comentários:

Pedro Lopes disse...

não era o Pessoa a dizer que todas as cartas de amor são ridículas?
então
pelo menos nas cartas de amor
não mata :-)

Maggie disse...

Sou professora de Português numa escola profissional e, no âmbito da disciplina de Português, temos tido uma luta para conseguirmos pôr os nossos "meninos" (adolescentes do 10º ao 12º ano) a ler. A pouco e pouco vamos conquistando alguns, mas queremos conquistar muitos mais. No entanto, entre outros problemas, temos um que, por vezes, é um grande obstáculo - falta de "livros de ler" (como eles dizem) no nosso Centro de Recursos.
Todos os anos temos uma pequena verba para adquirir mais alguns, mas manifestamente insuficiente para que seja possível haver quantidade e variedade de livros para que os nossos alunos tenham opção de escolha. Acresce a dificuldade de grande parte deles virem de famílias com outras prioridades por razões económicas e outros por carência cultural.
Assim, vamos emprestando os nossos próprios livros, conseguindo que um ou outro vá comprando um, mas a oferta continua a ser reduzida. Foi então que me lembrei de escrever a editores e livreiros a expor a situação, solicitando que nos doem livros com defeito de capa (que não podem ser vendidos), mas ainda não obtive qualquer resposta.
Assim, tomei a liberdade de escrever este apelo, não tanto para ser publicado, mas antes a pedir-lhe a si, Dra Helena Sacadura Cabral, ajuda, no sentido de saber se tem alguns contactos mais directos de editores e livreiros sensíveis a estas questões que me possa facultar. O meu mail é margaridacaldeira.escotv@gmail.com, caso precise de mais informações.
Toda a ajuda é bem-vinda para conquistar mais leitores. O potencial temos à nossa frente, o pior é que o entusiasmo esfria quando a oferta é reduzida. Muito obrigada.

Blondewithaphd disse...

Acredita se eu disser que estou desejosa de chegar aos 40s? Agrada-me a idade, o ganhar idade, isto é. Não me amofina o pensamento de que haverá uma idade para me retirar do mundo decisório e central da minha geração para dar lugar a outra. A Vida é tão excepcional em cada fase que se a levarmos com classe e elegância acharemos cada idade melhor do que a precedente.

carolina disse...

Oh! D. Helena, este assunto é-me tão caro e, apetece-me mesmo fazer um comentário que esteja à altura, vamos lá ver, responder por itens:
I. A imagem é deliciosa;
II. gosto imenso do Charles Asnavour e a sua música evoca a felicidade, dos meus dias mais felizes;
III. Tenho 50 anos feitos este ano e, a idade só me assusta porque não quero morrer e, o passar do tempo faz-nos pensar que, afinal somos apenas mortais e, frágeis.
IV. mas como diz e, muito bem, permita-me dizer-lhe, a idade traz-nos Liberdade, sim, conto com isso... Porque dizem quem sacrifica a liberdade pela segurança não merece nem uma nem a outra, mas isto é bem mais dificil e tem mais implicações do que parece... por isso espero pelo tempo em que possa exibir a minha Liberdade de cabelos ao vento e musica no coração e aqui chegamos ao
V. item, o saber retirar-se para os bastidores com orgulho e dignidade, não se expondo ao ridiculo.Admiro tanto as pessoas que absorveram o conhecimento que adquiriram ao longo da vida e o transformaram em sabedoria, sapiência e caminham tranquila e serenamente, senão pela autoestrada pelo "calçadão" disfrutando da luz dessa hora da vida. Penso que é disso que se trata, saber quando chega a hora de deixar a alta velocidade, para a alta cilindrada; por algum motivo é proibida a circulação de charrete nas autoestradas, certamente um passeio de charrete no caminho e lugar certo é intemporal, único e maravilhoso...!
isto está muito ao modo de parábola, D. Helena desculpe mas este seu tema dá pano para mangas, é preciso aprendermos a sair de cena com os nossos filhos, na nossa vida profissional sem que com isso se perca a lucidez, a mais valia dos anos vividos, continuando com a altivez de quem ama a vida adequando apenas a velocidade e o caminho..

Obrigado

Helena Sacadura Cabral disse...

Vamos primeiro às questões prácticas da Maggie. Eu própria vou seleccionar alguns livros meus para a sua escola.
E vou dar-lhe o contacto das três editoras com quem trabalho - e uma delas detém mais de metade do mercado editorial - para que contacte quem a possa ajudar.
Depois o problema é fazer chegar-lhe os livros à mão.
Loira linda não se apresse. Mas sempre lhe digo que o melhor tempo da minha vida começou perto dos cinquenta.
Carolina a sabedoria vai sempre chegando. O que há é pessoas que se recusam a recebê-la porque se querem enganar na idade que têm!

Nuno disse...

Agora imagine um professor a dar aulas até aos sessenta e cinco anos a meninos que não querem saber da escola para nada.Bem que seria bom, também vir embora, antes de cair no ridículo.

Maggie disse...

Dra. Helena,

deixei-lhe o meu mail para o caso de precisar de me pedir mais informações. Mas agradeço desde já a sua gentil colaboração e posso deixar-lhe aqui o contacto da minha escola. Para me enviar os tais contactos em editoras será melhor enviar-me para o mail que lhe deixei no comentário anterior.
Os seus livros podem ser enviados ao meu cuidado (Margarida Caldeira), para ESCO - Escola de Serviços e Comércio do Oeste, Rua da Liberdade, nº4 - Hilarião - 2560-374 Torres Vedras. Se quiser passar pelo site da nossa Escola,o endereço é www.sefo.pt

Muito obrigada!

maria só disse...

Estimada D.Helena.
sigo o seu blogue desde que o descobrí e nunca me atrví a deixar comentários, mas hoje não resistí!
" savoir se retirer" é algo difícil, significa assumir que estamos envelhecendo, e nunca gostamos disso!
Eu que o diga , que já estou nos sessenta! O problema é que o corpo envelhece mas o coração não sabe(ouví isto em qualquer lado...)
Sou sua admiradora há muiiiitos anos, sempre aconsiderei uma muljer linda, por dentro e por fora,sempre me encantou a sua frontalidade e irreverencia e tenho a certeza de que nunca fará o ridículo!
Um beijinho de admiração de
Cecília, uma mulher que começou a viver muiiito tarde!