quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Respeitar as decisões

O meu neto mais velho - quase 16 anos - tem imensas parecenças comigo. Felizmente no melhor. Desde pequenino, ainda não sabia escrever, aprendeu o meu número de telefone e, para minha vergonha, era sempre ele que me ligava a pedir para estar comigo. Assim se desenvolveu uma cumplicidade que basta, hoje, olhar-mo-nos para nos entendermos.
Há uns dias telefonou-me para dizer que tinha uma notícia para me dar. Boa e má.
Perguntei-lhe como é que era possível essa ambivalência. Dele, a resposta: "começo pelo lado bom ou pelo lado mau?". Decidi-me pelo primeiro, otimista como sou.
Então aí vai, disse. "Depois da estadia em Inglaterra, resolvi mudar de curso. Já não vou para gestão. Vou para arquitectura. A avó que tanto gostava de ter tido um filho arquitecto e não conseguiu, vai satisfazer, agora, o sonho com o neto".
E o lado mau, questionei. " É que vou perder um ano e eu sei o orgulho que a avó tem em mim como aluno".
Confesso que me comovi, tal o gosto sempre adiado de viver numa casa concebida por um dos meus rebentos. Ambos excelentes desenhadores, resolveram, os dois, enfronhar-se pela via que mais detesto. Há mais de quarenta anos que vivo essa telenovela, depois de a ter experimentado, antes, com o respectivo progenitor. Julgo que andarei a expiar alguns saudáveis pecados que gulosamente cometi. E que repetiria, diga-se de passagem.
Assim, se já não viverei numa casa desenhada pelo André, espero, pelo menos, vê-lo a projectar outras. E alegrar-me com a imensa sorte do avô paterno que vai ter, finalmente, continuador.
Haja Deus, que quando nos fecha uma porta, nos abre, sempre, uma janela. Etimologicamente falando, claro!

H.S.C

5 comentários:

Margarida disse...

Ó abençoado André! Que mimo de neto! Que fofura-boa-de-abraçar!
Que orgulho, deveras... (fico feliz quando sei de jovens assim, tão...'lindos' - if you know what I mean-)
Aplauso! E perdeu nada! Estudou outras coisas, 'viu' outras vistas.
'Estagiou'.
Tudo contribui para as fundações do novo arquitecto Portas! Eu faço figas; logo eu, que adoro essa arte...
Quanto à frase mais fantástica do texto:
" (...)andarei a expiar alguns saudáveis pecados que gulosamente cometi. E que repetiria, diga-se de passagem.(...)" que dizer!?
Maravilhosa!
Abençoado neto, com tal avó! :))

marianinha disse...

porque não viver numa casa feita por o andre tudo é possivel ainda vai viver numa linda casa feita pelo o andre especialmente feita para a avó que tanto adora

Anónimo disse...

A ternura que nos transmite, através desta sua história familiar, é comovente, Helena! Compreendo-a, pois tenho dois rapazes com quem felizmente tenho inúmeras cúmplicidades e alegrias, igualmente.
Um grande xi e continuação dessas excelentes férias, nessas ilhas encantadas, que são os "nossos Açores.
P.Rufino

Manuela Araújo disse...

Afinal, sempre continua a veia da arquitectura na família. Ainda bem.
Que o neto seja um bom arquitecto e que procure sempre a sustentabilidade aliada à função e à forma.
E parabéns pela escolha da imagem da capela de Ronchamp, muito gostaria de lá ir e conhecer ao "vivo". É a obra de Le Corbusier que mais me fascina.

Tété disse...

Igualmente como eu. Meu filho sempre foi um bom aluno e ao longo do seu percurso académico só me deu alegrias. Pena que o país continue a dar pouco valor aos que se esforçaram e continuam a esforçar por um ideal - a ciência.
Continuação de boas férias, mesmo no Continente - creio que já regressou do paraíso, não?