quarta-feira, 24 de junho de 2009

Valeu a pena ouvir

Como economista que sou, tive o privilégio de conhecer algumas das pessoas mais competentes e prestigiadas na minha área. Para citar apenas alguns, Silva Lopes, Jacinto Nunes, Mário Murteira, Costa Leal, Vitor Constâncio, João Salgueiro, Ernani Lopes, Teodora Cardoso, Manuela Ferreira Leite. Todos e mais alguns passaram ou ainda estão no Banco de Portugal. O que talvez nos diga alguma coisa do grau de exigência da instituição.
Hoje decidi ouvir a entrevista da Presidente do PSD a Ana lourenço, no programa Dia D. E fi-lo porque o que mais admiro nesta política é o facto de ela não fazer politiquice nem andar ao sabor das emoções televisivas. É parca de palavras, tem sentido de humor - quem a conhece bem sabe disso - é culta e é competente. E não tem medo!
Solidaridade feminina à parte, estive muitíssimo atenta às suas palavras e ainda bem que o fiz, porque não podia estar mais de acordo com o que ouvi.
Estou completamente à vontade porque não tenho dependências partidárias, nem devo o meu salário a nenhuma filiação que não seja o esforço pessoal dispendido numa idade em que muitos já penduraram as sapatilhas. Tenho, portanto, direito a falar daquilo que entendo ser o melhor para o país e se continuo a estudar é para saber mais ou, pelo menos, para saber melhor.
Manuela fez o discurso que se impõe a uma pátria endividada e que come o futuro dos meus netos sem que eles se possam pronunciar. Disse que precisamos de trabalhar, que o dinheiro não está a ser bem utilizado, que o investimento público de proximidade é o mais adequado neste momento e que urge falar verdade a um país cuja taxa de desemprego irá ultrapassar os dois dígitos no próximo ano.
Não houve, em tempo algum, uma cedência à demagogia ou ao populismo. Nenhum ataque que fosse pessoal. Enfim, meia hora de conversa que valeu francamente a pena!

H.S.C

6 comentários:

Maria disse...

Helena,
Não posso estar mais de acordo consigo.
Dei por bem empregue aquele bocadinho de tempo em que ouvi Manuela Ferreira Leite.
O meu coração ficou mais sossegado.
Ainda há gente muito correcta.
Um abraço

Anónimo disse...

Curiosamente, fiquei com um sentimento oposto. Não é que MFL me tenha “desiludido”, não pela simples razão que já esperava o tipo de “discurso” que trazia. Para MFL, Portugal não tem pessoas, tem números. Não existem dificuldades sociais, existem, apenas, dificuldades contabilísticas. Para ela, Portugal não tem problemas graves no sector da Saúde, da Educação, da Justiça, da Agricultura e Pescas, do Ambiente, de Segurança, etc. Só consegue identificar os de carácter económico. Só fala de Economia e de Finanças. Sempre foi assim. Terá sido uma boa ministra das Finanças, mas tão só! Fracassou completamente como ministra da Educação (é certo que “apanhou” em cima uma certa “geração rasca”), porque não tem qualquer sensibilidade social, ou deste tipo. Por outro lado, MFL é de um “conservadorismo” católico confrangedor (“a função principal do casamento é a procriação”). É, ou pelo menos é essa a imagem que – sempre – deixou (deliberadamente?) transparecer - uma pessoa fria, sem sentimentos. Nunca lhe ouvi uma palavra de – real – preocupação pelos desempregados, pelos mais desfavorecidos, pelos reformados pobres. Nada! Quando muito refere-se a “número de desempregados”. Nunca tomou uma posição clara sobre Dias Loureiro, preferindo, como se viu, fugir à questão, nem sobre as altercações de A.J.Jardim. Afinal, são amigos e do mesmo Partido! Desculpabilizou o indesculpável, ou seja, a actuação do governador do Banco de Portugal, pois teve o cuidado até de dizer ser sua amiga, mas…Conversa da treta. MFL julga-se uma espécie de “salvador de S.Comba no género feminino”, no sentido de se sentir “investida de uma necessidade de salvar a Pátria do descalabro económico” (difere do “botas de S.Comba por ser democrática, não ponho isto em causa). E daí a resvalar para um certo autoritarismo (o mesmo do tempo cavaquista, a que ela pertenceu) não custa muito. E daí também a razão da sua insensibilidade perante os dramas e problemas sociais. MFL será, se for eleita, uma péssima PM. A política requer outras “qualidades” (outras sensibilidades) que ela não possui, nem nunca possuirá. Está-lhe na pele. Pena, pois o PSD tem gente muito qualificada (Rangel, Águia Branco e tantos outros), mais do que qualquer outro partido. É de admitir que o desastroso governo de Sócrates saia de cena, mas o que se lhe seguirá, na figura de MFL, não é nem motivador, nem estimulante. Triste país este! Valer-nos-á o facto de o povo não ser estúpido e ir recusar, estou plenamente convicto, novas maiorias absolutas. As duas experiências, Cavaco primeiro e agora Sócrates, provaram que a nossa Democracia, designadamente os nossos Partidos, não as sabem ainda gerir, pois têm uma tendência, inata, para cair no autoritarismo. E assim, qualquer que seja o governo que vier, PSD, ou PS, terá de governar, felizmente, com “trela”, bem curta, obrigado a fazer acordos de regime parlamentar, com os outros três Partidos, consoante os assuntos. Enquanto conservadora que é, daria um conselho a MFL: o CDS-PP também é um Partido conservador (não há mal nenhum nisso, o mal está na insensibilidade social), mas nem por isso deixa de se referir e propor soluções para os “outros” problemas do país, que MFL nunca menciona, nem parece dar conta. Já ouvimos Paulo Portas a falar da situação na Agricultura, na Educação, na Segurança, na Justiça, na Saúde, etc. E até chegou a avançar com propostas para uma actuação da CGD para uma descida dos juros, com vista a minimizar o endividamento individual e das pequenas empresas. Igualmente, quer o PCP, quer o BE têm sido muito mais abrangentes e sensíveis na abordagem dos problemas do que MFL. Aqueles 3 Partidos “médios”, hoje já não serão pequenos Partidos, parecem ser os únicos com consciência social do que se passa em Portugal, sem com isso descurarem as questões económicas. É por isto que saí como entrei ao ouvir MFL: desiludido. Cabe aos portugueses, em Setembro, decidir que País querem. Dá-me a impressão que vão escolher bem: um governo de rédea curta! A ter de negociar com os outros 3 Partidos, com humildade!
Ginbrinhas

Helena Sacadura Cabral disse...

Ginbrinhas
Sou capaz de entender muito bem o seu sentimento. Mas, possívelmente por ser economista, o discurso que nesta matéria tem sido feito pela situação, dói até nos ossos.
MFL não é uma política de tribuna. O que diz sai seco. Por isso sugere frieza, em particular quanto às questões sociais. Ela sabe que a economia é o veículo ao seu alcance para "distribuir" pela educação, pela saúde, pela justiça e pela segurança. Um pouco como Silva Lopes, à esquerda. Não são calorosos.
Ao contrário, Louçã, Socrates, Honório ou Portas, são políticos de tribuna e com um discurso preparado para os media. Não que isto seja um mal. É apenas um género. Que a mim me irrita, de vez em quando.
Veja-se a facilidade, o sorriso ingénuo, de Socrates a afirmar que nada sabia sobre o negócio da PT e TVI. É preciso descaramento!
Talvez por isso o lado mais conservador de MLF, com catolicismo ou sem ele, me choque menos do que a mentira deliberada de quem mostra não ter o mínimo respeito pelas pessoas que tem por missão defender.
É por tudo isto que simpatizo cada vez mais com os movimentos de cidadãos - a chamada sociedade civil - e cada vez menos com os partidos que já nem ideologia têm!
Aí está porque a filiação partidária é algo a que poderei sempre dizer "nunca"!

Margarida Pereira disse...

Completamente de acordo com a(s) sua(s) análise(s).
E, estou em crer, a drª Manuela vai arregimentar bem mais seguidores do que muitos imaginam (ou desejam).
Por mim, que continue exactissimamente como é, porque o que necessitamos não são rosas, mas pão.

Lura do Grilo disse...

"o que necessitamos não são rosas, mas pão." --> excelente. De uma Rainha

Anónimo disse...

A este propósito, diria que quem ouço com especial atenção (e algum deleite) é Medina Carreira. Recentemente e uma vez mais com Mário Crespo, foi contundente e frontal como sempre. Creio mesmo ser o único comentador económico que não tem papas na língua e levanta questões de moralidade político-económica que ninguém mais tem a coragem de o fazer. E, goste-se ou não, tem uma ideia muito clara sobre aquilo de que enferma o país e suas razões, bem como propostas para combater essas “maleitas”. Bem sei que usa, por vezes, de uma linguagem “forte”, mas não será a apropriada, no contexto, ou realidade actual? Alguém lhe dá ouvidos? Tenho dúvidas.
P.Rufino