domingo, 24 de maio de 2009

O mundo virtual

Aos mundos virtuais, cheguei tarde. Aliás, à excepção da Universidade, onde entrei cedo demais, aos 15 anos - nasci em Dezembro -, tudo o resto, na minha vida, demorou a dar fruto.
Assim iniciei-me nos computadores há apenas pouco mais de uma década. Muitos textos desapareceram, outros tantos foram estragados, várias vezes me irritei, mas a verdade é que lhes perdi o medo. De tal forma que agora os "desastres" são já por demasiada ousadia.
As amigas da minha faixa etária estranham esta propensão tecnológica, mas a verdade é que nunca fui muito igual a elas. Defeito meu, decerto. Mas o que eu gosto deste meu defeitozinho...
Cheguei, por isso, à blogosfera, tardíssimo. Ando aqui apenas há três meses, mas o gosto das descobertas que tenho feito vale por anos.
Foi assim que, também fora de horas, avizinhei os amigos virtuais. Não, felizmente, por carência dos outros. Mas porque estes têm uma dimensão diferente. Não vêm da juventude, não vêm do trabalho, não nos foram apresentados. Surgem, um dia, no nosso espaço e deixam umas palavras. Como se fosse um pequeno vazo de flores, um livro ou um disco.
Deste episódio nascem visitas regulares e conversas curiosas. E nós habituamo-nos ao ritual retribuindo as visitas.
Um dia damos connosco a falar deles e com eles como se fossem reais. E não é que, afinal, são?

H.S.C









8 comentários:

João disse...

My dear (é terrível que não haja em português uma tradução decente para esta frase), mais vale tarde que nunca!

A blogosfera tem destas coisas. Nunca pensei alguma vez chegar à fala consigo e, agora que acedo aos seus pensamentos, até me sinto seu íntimo!

Gosto de a ler como sempre gostei de a ouvir. Espero que nos continue a brindar com estas pérolas.

Tété disse...

Cara Helena,
Não posso estar mais de acordo consigo.
Imagine que também eu, aparte de ter sido Secretária de uma das maiores empresas portuguesas durante 25 anos (entretanto já modificada e à qual também já não pertenço vai para 18)ensaiei cedo o computador mas apenas como processador de texto.
Quanto à blogosfera tenho o mesmo tempo que a Helena mas digo-lhe que este viciosinho se pega.
Não é que também já falo de alguns meus visitantes e comentadores como de amigos reais se tratasse? Às vezes um comentário certeiro na hora igualmente certa, pode fazer milagres ao ego e ao astral que às vezes teimam em descair com a acção da gravidade.
Um beijinho e boa semana para si.

Estranha pessoa esta disse...

... Contemporaneamente as pessoas partilham pouco, e esquecem que as palavras são das coisas mais bonitas e intensas que temos.
.. num destes dias uma minha amiga que é engenheira informática disse-me que os blog's são lixo informático... Não concordo em nada com ela. E sinto que cada vez mais as pessoas têm necessidade de usar os blog's como uma extenção delas mesmas.

Um grande abraço.
E obrigado pelas suas partilhas.

Anónimo disse...

Cara Helena, este Post fez-me lembrar um episódio engraçado. Aqui há uns 10 anos, quando a Net já era uma realidade indispensável e todos os escritórios (ou quase) e gabinetes possuíam um computador, foi igualmente colocado um num gabinete de um Chefe nosso, meu e doutros colegas de trabalho. Eu estava na sala em conversa com ele e presenciei a estupefacção dele perante “aquilo”. Chamou a Secretária e perguntou-lhe o que era aquela “coisa” e enfim, o que ela ou quem quer que fosse ali pretendiam que ele fizesse com aquele “objecto”. A pobre não percebeu bem a “irracional” pergunta. Lá “traduzi” por miúdos. Ao que ela, na sua inocência, explicou que era para ele poder trabalhar “naquilo”. O dito computador estava desligado. “Bom”, disse eu, “vamos então ligar esta história, ok?” – “Hueueuemmee, hueeemeeeumee”, depois mais alto, “HUUUEEEMEEEEEMEE, HUUUUEEEEEMMMEEEUUM”, isto com a cabeça a girar à volta do aparelho, a examina-lo, a perscruta-lo, para a frente, de trás, de lado, gemendo, gemendo cada vez mais alto, até que ficou estático, em silêncio profundo, como que a meditar. Longos minutos tudo isto levou. Eu, meio divertido, mas já sem saber o que pensar daquela atitude, a Secretária preocupadíssima, pois não sabia “ler aqueles sinais do Chefe”, estava habituada a outros, iguais a todos os anteriores Chefes. Até que, num repente e com um esgar misto de horror, desprezo, de confusão talvez, o Chefe dá uma murraça na secretária (na de madeira, convenhamos, não na outra!) e em surdina, resfolegando, diz: “tirem-me esta coisa daqui para fora!” Depois, bem alto: “NUNCA, mas nunca, NUNCA MAIS quero voltar a ver esta avantesma em cima da minha secretária, entendido!” – Ok Chefe, foi a resposta. Um dia porém, de novo no escritório dele a fim de tratarmos de um assunto, toca o telefone dele: “Siiimmm, sou eu, etc…Espere um momento por favor, não estou a perceber, só um momento” – e virando-me para nós, diz-nos: “estão-me aqui a dar um recado estranhíssimo, vou pedir para me voltarem a dizer e eu repito e vocês apontam aí, ok?” E voltando-se para o seu interlocutor no telefone diz para ele repetir e, à medida que o ouvia dizia-nos o que o outro de lá lhe referia. “Sim, então é assim: www.qualquercoisa a quê? Ah! arroba, portanto, escrevam, wwwpontoqualquercoisaarrobaetcetalpontopt perceberam? Mas olha lá oh fulano o que é isso de arroba? Ah eles aqui sabem o que é (éramos nós) ah bom então está bem. Ah ainda outra? Escrevam aí por favor, tomem nota uma vez mais: fulanopontosicranoarrobaótemailepontocome, Como? Ah, Hotmail! Sim, e depois é Com e não come, ok! Obrigado! Abraço!” Terminado este momento hilariante, para nós, ele muitíssimo confuso sem perceber nada do que tinha ouvido, pergunta-nos, a medo: “perceberam? Parece que é relacionado com essa coisa da Nete, ou lá como se diz, e afinal o que é isso de Arroba?” – Silêncio nosso e depois dissemos-lhe simplesmente: “Não se preocupe!” Recordo-me ainda hoje do olhar da Secretária: de incredulidade total! Como se estivesse na frente do homem de Neandertal! Ainda hoje, aquele indivíduo (que na altura teria uns 52 anos apenas) continua a fugir de computadores como o Diabo da cruz.
P.Rufino

Margarida Pereira disse...

E não é que somos?!
Mais ‘irreais’ são aqueles que adoramos à distância, como se fossem uma estátua de David ou um quadro de Ticiano, e um dia se ‘materializam’ em palavras, risos e cumplicidades, como se tivéssemos o mesmo direito a esse Olimpo em que eles sempre vogaram, sendo ‘nós’ meros ‘mortais’…
Beijinho, deusa Milady…

Helena Sacadura Cabral disse...

Meu virtualíssimo P. Rufino, fui às lágrimas com essa história. E lembrei-me do meu infante mais novo que odeia tudo o que é tecnológico, apesar de ter sido ele a oferecer-me o actual portátil XPTO onde, ainda ontem, perdi todas as mensagens recebidas, num gesto da tal ousadia insana que, por vezes, me ataca...
O dito infante escreve à mão, com caneta de feltro e jamais emenda. Rasga e volta a escrever. Com espaços triplos, claro, senão a secretária já se teria suicidado.
E goza imenso a sua mãe a quem carinhosamente chama de "tecnologicamente dependente". Mas o outro, mais velho, também não é muito dado a estas novas formas de vida...
Enfim é a velhota que se desenvencilha melhor porque tem que ganhar a vida e a escrever livros à máquina não iria longe.
Qualquer dia...vou para a política!

Pedro Lopes disse...

eu, real, me vou sentindo
umas vezes vivo
outras acordado
outras entretido
outras sincopado

isto dos blogs tem a sua graça,
que dependência é sem graça :-)

isto digo eu para mim,
que me refreio que acho feio
se me vejo mais que revejo
no blog entre mim de permeio

:-)
Pedro

Anónimo disse...

Pois...
Facultar um tema para conversa amena ou intensa dotado de criatividade indivisivel, só pode ser terapêutico.

Expor e expor-se, dar-se é no minimo... Destemido, dinâmico, encorajador.

O relativismo da proximidade, não era já relativo?

Agradeço-lhe, com justiça, o constiutir um fio de prumo na minha blogoterapia
Isabel Seixas