quinta-feira, 12 de março de 2009

A arte do equilíbrio

A propósito dos comentários enviados e todos publicados, vou-me permitir, hoje, um texto mais pessoal. É do domínio público que tenho dois filhos na política e que teria desejado para qualquer deles um destino profissional bem diferente. Mas amar é respeitar e, por isso, a maior prova que lhes posso dar do meu imenso afecto, é acompanhar empenhada e interessada, a carreira de qualquer deles. E sofrer, silenciosamente, quando algo me magoa nos muitos comentários que se fazem a respeito deles.
Diz "Criativemo-nos", nas suas considerações, "não posso imaginar a arte do equilíbrio no seu mundo familiar". Tem toda a razão. Só porque Alguém lá de cima me protege, é que eu consigo conviver e partilhar destes dois mundos que parecendo tão opostos são, afinal, tão semelhantes.
Sou filha de uma família numerosa tanto do lado paterno como do lado materno, onde as ideologias se agrupavam em dois grandes grupo. De um lado, os anglófilos. Do outro, os germanófilos. Aprendi com a minha avó Joana que o importante era que cada um pudesse pensar livremente. Sem medo. Foi essa sempre a sua práctica. Inclusivé materializada quando comprou duas telefonias para que cada metade familiar pudesse ouvir as notícias que mais lhe interessava sem as impor à outra metade...
Os meus filhos cresceram ambos educados a preocuparem-se com o que consideravam ser melhor para o país em que viviam. Sem constrangimentos ou verdades universais. Depois, depois cada qual escolheu o seu caminho. Umas vezes, concordo com um. Outras, concordo com o outro. Outras, ainda, com nenhum deles. Mas, jamais, algum se sentiu inibido ou constrangido de me dizer o que pensava, porque qualquer deles sabia e sabe, que eu sou a primeira das suas ouvintes. E, se possível, a mais imparcial.
Este é o equilíbrio que tento ter e transmitir, agora, aos meus netos. Fácil? Difícil? Em verdade, não sei responder. Apenas sei que é a forma que encontrei de amar e juntar a família que tenho.

H.S.C

Nota final
Se ao nível do país fosse possivel fazer o mesmo, eu já ficaria muito feliz. O problema é que o maior objectivo partidário não é aceitar a diferença, mas tentar estrangulá-la. Por isso sou tão defensora dos movimentos de cidadania onde se misturam as ideologias na defesa daquilo que são as preocupações comuns.
Em democracia não é esse o caminho escolhido. Por isso nunca fui capaz de me filiar num partido. É que não consigo abdicar da minha liberdade de pensar e de me exprimir para seguir uma diciplina do voto.

5 comentários:

criativemo-nos disse...

Um exemplar, maravilhoso e admirável 'fiel da balança'.
Esta é só uma das razões do meu sentimento.
Das outras darei conta em tempo, Milady.
M.

Glauciane Carvalho disse...

Eu fiquei tremendamente satisfeita em ler tão belas palavras, reveladoras de decência, de dignidade e de discernimento. A liberdade de expressão é muito importante seja em qualquer lugar que estivermos. Parabéns por sua sensibilidade e humanismo. Para mim esta é a base de qualquer relação humana.

Glauciane Carvalho
Rio de Janeiro - Brasil

José Bourbon Ribeiro disse...

É por isso que a lemos com tanta atenção e a admiramos tanto!

Bj

Álex disse...

ora aí está, a sabedoría, o senso comúm, o que lhe quiserem chamar; concordo inteiramente consigo: há ideias, há ideiais, há filosofias, etc. mas tem que haver respeito.
o que se vê hoje na política em portugal é um total "puxar a brasa à sua sardinha", nunca uma política de um ministro é continuada pelo seguinte de outra cor porque nada se aproveita da anterior, só uns é que têm razão! mas como desde há 35 anos que os 2 maiores partidos se alternam no poder...

Isabel disse...

Que texto bonito. Duas telefonias passa a ser o meu lema. O respeito está na base de tudo, sim, a começar pelo amor. Obrigada pelo texto.